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(Reportagem:
Yoko Fujino/NB | Fotos: Kyodo)
É comum
nos dias de hoje um executivo talentoso receber uma oferta para trabalhar
por algumas temporadas fora de seu país. O convite, na maioria
das vezes, significa que ele está bem cotado na empresa e que essa
pode ser a oportunidade que ele tanto esperava para sua carreira deslanchar.
Mas como será a vida em um país estranho? Muitos nem se
preocupam com isso antes de embarcar; afinal, planilhas de balanço,
dados sobre a lucratividade ou produtividade de uma determinada empresa
são iguais em qualquer lugar do mundo. O problema é que
a cultura nos negócios e os hábitos do dia a dia são
muito diferentes de país para país e eles só se dão
conta disso quando já estão na nova pátria. Os executivos
japoneses que vieram parar no Brasil sabem bem o que é isso. Eles
se surpreendem com quase tudo por aqui. Desde a compra de um grampeador
até a hora do parto.
Curiosamente,
a alimentação, menos adocicada que no Japão, não
causa tantos problemas. O que sinto vontade de comer quando volto
ao Japão é ovo cru, algo que evito no Brasil (devido ao
perigo da salmonela). Aqui, fico com vontade de comer arroz com ovo cru,
mas não como, diz Rei Oiwa, diretor de pesquisa da Jetro,
agência japonesa que tem a finalidade de promover os investimentos
e o comércio exterior do arquipélago. Já Hiroyuki
Morita, que trabalha numa empresa automobilística japonesa e mora
em Campinas (SP), tem outros desejos, mas não tão fortes
a ponto de deixar seu posto no Brasil: Sinto no máximo falta
de lámen, mas dá para me contentar com o servido na Liberdade.
Se a comida não é problema, o valor gasto nas refeições
é motivo de reclamação. Eles lembram, por exemplo,
dos bentôs e gyudons, que custam no Japão de 200 (R$ 4,13)
a 300 ienes (R$ 6,19), uma ninharia para os padrões japoneses,
e afirmam que é mais caro comer fora no Brasil.
Na
hora do parto
As mulheres
japonesas que vêm juntas com os maridos e passam a viver o mesmo
cotidiano no estrangeiro deparam-se com diferenças culturais específicas
femininas. Fiquei assustada com o grande número de brasileiras
que optam pela cesariana na hora do parto, revela Rika Azuma, representante
de uma agência de publicidade nipônica no País. Ela
conta que já foi aconselhada por pessoas desconhecidas a não
fazer a cesárea porque ouviu falar que dói muito.
Este método no Japão é o último recurso para
o nascimento de uma criança. No arquipélago, as japonesas
estão habituadas ao parto normal e farão todo o possível
para que seja dessa forma na hora de ter o seu filho.
Rika, que cria
seu filho no Brasil, também sente que, mesmo sem má intenção,
as pessoas interferem muito na criação das crianças.
Ela lembra já ter ouvido alguém lhe indagando se o menino
não estaria sentindo frio vestindo-se de determinada maneira. Apesar
da invasão de privacidade, Rika elogia o tratamento que é
dado no País às mães com filhos pequenos, que, ao
contrário do Japão, é exemplar. No aeroporto, por
exemplo, não foi apenas uma vez que teve prioridade no embarque
porque estava com uma criança.
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Se
o cotidiano não lhes é tão difícil e nem sentem
tanta saudade das coisas do Japão, é no ambiente de trabalho
que os executivos enfrentam as maiores dificuldades. Como é comum
em cargo mais elevados, os colegas de trabalho, muitos vindos de diversas
partes do mundo, adotam o inglês como linguagem comum entre eles.
Em princípio, isso eliminaria qualquer problema de comunicação
entre os funcionários. Isso, na teoria, já que na prática
a realidade é outra. Com diferenças de sotaques característicos
de cada idioma materno, japoneses e brasileiros têm problemas em
se entender. Por um lado, os nipônicos têm clara dificuldade
em diferenciar a pronúncia do r e do l.
Já os brasileiros não escondem a influência da língua
latina na hora de falar inglês.
A verdade
é que no Brasil, tanto as coisas boas como as ruins são
extremas. Por exemplo, se de um lado há pessoas que têm dificuldade
com conversação básica em inglês, há
muitas pessoas da elite que se formaram em universidades fora do País,
e não são poucas as que se comunicam em inglês melhor
que os japoneses. Porém, há poucas pessoas que têm
nível médio de conversação (em inglês),
observa Oiwa, da Jetro.
O executivo,
por sinal, fala que esses extremos do Brasil não se resumem à
bagagem cultural de seus habitantes nativos. O mesmo acontece com
produtos. De um lado, há artigos de luxo, de altíssima qualidade,
e, de outro, produtos baratos, que são uma porcaria. Não
há produtos de qualidade mediana por um preço mediano,
reclama. Oiwa chega até mesmo a sugerir aos compatriotas que vierem
ao Brasil uma lista de pequenos produtos que devem trazer para o País.
Ele relaciona: grampeador, caneta esferográfica, fita adesiva e
porta-cartão de visitas.
A opinião,
no entanto, não é unânime. Mais conciliador, Morita
prefere comprar tudo por aqui. No geral, o custo é alto,
mas é possível, sim, comprar no Brasil, afirma ele,
funcionário de uma montadora, que diz não ter dificuldades
nem para encontrar os grampos para os grampeadores do tamanho 10 usados
no Japão no Brasil é comum o 26/6, um pouco maior.
(Kenji Miyo, especial para o NippoBrasil)
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