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Arquivo NippoBrasil - Edição 169 - 21 a 27 de agosto de 2002
Toyama no Kusuri
Remédio para curar saudade
A maneira tradicional japonesa de produzir e vender medicamentos ainda
continua ativa na província onde nasceu, sendo um convite certo à nostalgia

Fachada do museu Baiyaku Shiryokan
 

Demonstração de fabricação artesanal de remédios na loja Ikedaya Yasubee Shouten

A fachada, típica, da Ikedaya Yasubee Shouten no centro da cidade de Toyama

(Reginaldo Okada)

No século 17, o economista francês Jacques Savary escreveu o livro intitulado La Parfait Négociant (“O negociante perfeito”) como resultado de uma profunda pesquisa, realizada por ele, sobre o sistema de venda de remédios no Japão, sistema este conhecido entre os nipônicos por Toyama no Kusuri-uri.

Os europeus, segundo seus próprios relatos, ficaram impressionados com a excelência como era exercido esse comércio, considerando-o perfeito em todos os aspectos. Primeiramente porque oferecia um produto de alta qualidade e, segundo, porque se baseava em uma transação onde a confiança entre vendedor e comprador era um quesito indispensável. Citou, ainda, muitos outros pontos positivos, como profunda pesquisa de mercado, registro detalhado com informações sobre seus clientes, etc.

O que comoveu o estrangeiro há três séculos ainda causa forte impressão em quem visita a cidade de Toyama e se aprofunda um pouco mais na tal história dos remédios. Do ponto de vista cultural é extremamente enriquecedor conhecer essa peculiaridade japonesa.

Origem da tradição

A fachada, típica, da Ikedaya Yasubee Shouten no centro da cidade de Toyama

Na cidade de Toyama uma das opções é conhecer o museu Baiyaku Shiryokan, dedicado a manter preservados objetos antigos e histórias relacionadas com a famosa forma de produção e venda de remédios. Por mais grotesco que seja o relato, parece que tudo começou mesmo com uma incontrolável diarréia. A vítima foi o chefe feudal Masatoshi Maeda, da hoje província de Toyama, e o fato se deu em 1681.

Conta-se que o médico Jyookan Mandai, originário da região da atual província de Okayama, lhe acudiu com um remédio infalível, fornecendo-lhe inclusive a receita. Era o ainda hoje produzido Hangontan, cujos 25 ingredientes constantes da fórmula inicial são todos naturais, de origem vegetal e animal. Uma verdadeira poção mágica para a época. Tanto é verdade que em 1690, durante uma visitação de Maeda ao castelo do xogum, na capital administrativa do país, um outro chefe feudal teve a oportunidade de experimentar, em um delicado momento de “crise interna”, os efeitos curativos do medicamento oferecido pelo líder de Toyama.

Após esse episódio a fama do Hangontan se espalhou e outros líderes feudais participantes da comitiva pediram a Maeda que o comercializasse em seus domínios. Assim, o comércio do remédio se espalhou para todo o país.

 
 

Mascates de remédio

Remédios tradicionais à venda na loja da fabricante Ikedaya Yasubee Shouten

O sistema de vendas Toyama no Kusuri-uri consistia de uma rede de vendedores ambulantes que tinham cada qual uma determinada região sob sua responsabilidade. Eles ficavam visitando as vilas e povoados carregando nas costas os remédios. Nas casas, eram deixados vários tipos de medicamentos em uma caixinha apropriada e na visita seguinte do vendedor, geralmente com freqüência variando entre uma e duas vezes ao ano, pagava-se apenas pelo que havia consumido e o recipiente era reabastecido.

Esse sistema foi inventado em Toyama e fez muito sucesso, porque antigamente o interior do país e as zonas rurais ficavam completamente isoladas das cidades e os vendedores, chamados Baiyaku, eram tidos como grandes benfeitores. Além de levar os remédios, difíceis de serem adquiridos de outro modo, também desempenhavam funções agregadas, como médicos, por exemplo. Apesar de esta função estar diretamente ligada ao seu ofício, outras aconteciam até mesmo de forma involuntária. Se hoje os meios de comunicação transmitem informações para o mundo inteiro instantaneamente, naquela época eram os Baiyaku que levavam as notícias de uma região para outra, e eram aguardados com grande ansiedade. Eles também promoviam o intercâmbio cultural repassando novas técnicas agrícolas, de artesanato e arte popular que aprendiam em outros locais. Às vezes até funcionavam como santos casamenteiros, apresentando candidatos ao matrimônio de um para outro vilarejo. As crianças também os adoravam, porque eles sempre distribuíam brindes e presentes.

Os Baiyaku hoje

Desde o período Edo (1603 - 1868) o governo de Toyama promoveu a indústria de remédio como uma importante fonte de renda para a região, chegando a manter cursos para a formação de Baiyaku, no qual se ensinava a ler, escrever, fazer contas utilizando ábaco e também farmacologia, pois eram os próprios vendedores que preparavam os medicamentos, adquirindo os ingredientes e depois misturando-os conforme a fórmula prescrita. No fim do período Edo existiam 2,3 mil Baiyaku em todo o Japão.

No período Meiji (1868~1912), houve uma perseguição por parte do governo nacional a essa indústria, pois a palavra de ordem era ocidentalizar o país, e essa maneira de produzir remédios naturais foi desprezada. Porém, a força da tradição prevaleceu e, posteriormente, o consumo aumentou mais ainda com a construção de fábricas observando as exigências e leis da nova era. No início do período Showa (1926~1989), os Baiyaku somavam 12 mil pessoas.

Atualmente, com uma farmácia em cada esquina, o sistema Toyama no Kusuri-uri foi praticamente extinto no resto do país, mas na cidade de Toyama ainda se pode contar 50 fabricantes desses medicamentos. Em toda a província existem 4 mil Baiyaku em atividade, o ábaco e fichários foram substituídos pelo computador, mas a maneira de visitação e venda continua igual aos tempos de Maeda.

Remédios e comidas naturais

Pratos feitos com ingredientes naturais considerados
medicinais no restaurante da Ikedaya Yasubee Shouten

Uma das fabricantes de remédio mais tradicionais de Toyama mantém uma loja bem no centro da cidade, a Ikedaya Yasubee Shouten. Além da comercialização de chás e medicamentos, no segundo andar do estabelecimento funciona um restaurante e cafeteria que oferece, além de vários tipos de chás, doces e comidas com ingredientes naturais e preparados com plantas medicinais. Ali também se pode ver um funcionário fazendo demonstração da fabricação de remédios. (Colaborou Satomi Shimogo)

 
(Colaborou Satomi Shimogo)
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