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(Texto:
Minami Keizi | Foto: Divulgação)
Eu
sempre tive em mente que havia um lugar para voltar quando não
mais houvesse local para ficar. Era o sítio onde nasci, a casa
de meus pais, acolhedor e cheio de ternura. O sítio ficou com o
irmão mais velho, como é nosso costume milenar: o primogênito
herda os bens da família e cuida dos pais até os seus passamentos.
Meu avô
desbravou esse sítio e o passou para papai. De papai, para meu
irmão. No entanto, a tradição foi quebrada. Os filhos
de meu irmão, meus sobrinhos, não quiseram viver da terra.
Estudaram e se formaram doutores: um é médico; e o outro,
dentista.
Meus pais há
muito se foram, e não sei o que aconteceu com o sítio. O
mano velho mora na cidade, numa casa comprada pelo filho dentista. Ele
a minha cunhada ganham salário mínimo do governo. Mais com
o que seus filhos lhe dão, eles vivem a merecida aposentadoria.
Lembro do sítio
e sinto um enorme vazio. Não há mais lugar para voltar.
A terra que eu deixei para me tornar desenhista de mangá, em 1964,
virou fumaça. Parti, mas com uma certeza, o sítio me acolheria
de volta se eu fracassasse como desenhista. Todos os anos, no Natal e
no ano-novo, eu voltava para o sítio. Família reunida. Churrasco
fumegante. A algazarra dos nossos filhos.
Não
só me tornei um desenhista, como também um editor de quadrinhos.
Tornei-me uma lenda no meio dos quadrinhos e também do cinema nacional.
Em fevereiro deste ano, a Petrobrás financiou um documentário
a meu respeito um curta-metragem falando da minha revista Cinema
em Close-up.
Onde eu passei
a minha infância era uma colônia japonesa. Vários sítios
pegados uns aos outros. A língua que nós falávamos
era a japonesa. Aos poucos, as famílias foram se mudando, porque
a sobrevivência era dura. Quando eu também saí de
lá, restavam apenas três famílias.
A geração
de meu avô, como também de meu pai, está toda no andar
de cima. Um outro da minha geração se foi também.
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