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Quinta-feira, 19 de julho de 2018 - 22h09
 

Danças Japonesas

Misto de tradição, beleza e precisão

(Arquivo Jornal NippoBrasil)

Aprimoradas do teatro kabuki, as danças clássicas são a interpretação, com o corpo, de narrativas transformadas em músicas, enquanto as folclóricas representam manifestações espontâneas e mais populares executadas em festivais

Ao fundo, uma música de difícil definição, que se assemelha a uma narrativa cantada de forma arrastada, pontuada pelo shamisen (instrumento de cordas) e em alguns trechos ouve-se a batida seca de um taiko (tambor). A canção, que conta a história de uma menina pobre da província de Niigata que não pôde ser criada pelos pais, que migram para Tóquio em busca de trabalho, é delicadamente dançada por Débora Mai Nakamura Iguti, de 15 anos.

A dança se confunde com uma espécie de encenação. “O que a música fala, nós representamos com o corpo”, explica a professora Yoshika Fujima, da Fujima Companhia de Dança Kabuki.


Grupo Awa Odori Represa: cores, sons e muita animação são o forte da dança folclórica

Conforme explica Yoshika, o teatro kabuki inclui, além da representação, a dança que antigamente era feita por mulheres. Porém, como o público não soube apreciar apenas o valor técnico da dança, admirando mais a beleza das mulheres que o número em si, o governo proibiu a participação do sexo feminino no teatro kabuki. Hoje ele é encenado somente por homens.

As mulheres passam, então, a dar continuidade à dança kabuki fora dos palcos, transmitindo sua técnica como professoras. A dança do teatro kabuki é a referência da dança clássica japonesa e a partir dela surgiram vários estilos. No Japão, os três estilos mais antigos são o Bando-ryu, Hanayagui-ryu e Fujima-ryu. Esses dois últimos estilos também estão presentes no Brasil.

No caso do estilo Fujima-ryu, ele existe há 270 anos e foi fundado por Kan-Emon Fujima, que também foi ator de teatro kabuki. A responsável por disseminar a tradicional dança no País foi Yoshinojo Fujima, cerca de 40 anos atrás. “O que difere os estilos uns dos outros é o jeito de expressão, porque a música e a história são as mesmas. O Fujima-ryu é uma dança de palco, com paradas e movimentos mais fortes. Já o Hanayagui-ryu se utiliza de movimentos mais suaves, sendo uma dança para ambientes fechados”, explica Yoshika.

A jovem aprendiz que aparece no início da matéria, Débora Mai Nakamura Iguti, é neta de Yoshinojo Fujima. Sob o olhar atento da avó e com auxílio de Yoshika, ensaia exaustivamente os movimentos de uma dança kabuki, que será apresentada no dia 5 de janeiro, na Sociedade de Cultura Japonesa (Bunkyo).

Débora tem a dança no sangue e até no nome “Mai”, que foi dado pela avó. “Minha mãe, minha tia, todas dançam. Quando eu era pequenininha, comecei meio que por tradição, mas depois de uma certa idade, gostei. Hoje, danço porque gosto”, explica a jovem, cuja estréia na dança kabuki foi com uma adaptação de “Madame Butterfly”, no Teatro Municipal de São Paulo aos 3 anos de idade.

Fazer os movimentos precisos de mãos, joelhos e corpo exige concentração, ritmo e atenção, já que a dança é cheia de detalhes. “É difícil, é uma dança longa”, diz Débora. E o curioso é que a narrativa da música é toda em nihongo, idioma que ela apenas “arranha”. “Acho que é um instinto, eu não sei as palavras, mas quem dança há bastante tempo vê que nas músicas têm umas marcações”, salienta.

Entre as peças mais famosas está “Mussume Dooyoj”, que narra a história do amor proibido de uma moça por um monge. “Sonezaki Shinju”, sobre dois amantes que se suicidam numa floresta, e “Tsuri Onna”, que fala de um senhor feudal e seu serviçal em busca de uma esposa, também são peças do teatro kabuki e bunraku, que são dançadas no estilo Fujima-ryu.

Se de um lado há a preocupação de jovens como Débora em estar assimilando a cultura japonesa, por outro há aqueles que praticam a dança clássica japonesa como uma espécie de terapia. É o caso de Yuriko Imai, de 75 anos, que dança o estilo Kyo Fujima, fundado por Kanteru Kyo Fujima, há cerca de 10 anos. “Faço para ajudar o corpo, para a perna é bom e para a cabeça também”, conclui.

Dança Folclórica

Jovens e crianças entre 10 e 23 anos surgem alegremente no palco enchendo os olhos do público de cores e energia. Gritos como “Som som”, puxados por um e repetidos em coro pelos outros, são o convite para a animação.

Eles fazem parte do Grupo de Dança Folclórica “Awa Odori Represa”, da Associação Cultural e Esportiva Represa, formado por quase 50 componentes. O Awa Odori (Dança de Awa) é representativo da Província de Tokushima, que antes era chamada de Awa-no-Kuni, sendo sua origem datada no Ano 13 da Era Tencho (1585).

Em função da conclusão do Castelo Tokushima-Dyo, o suserano Hatissuka Iemassa promoveu na época uma grande festa, onde nobres e plebeus se misturaram para beber e dançar. Com o passar dos anos, a festa ganhou novos contornos e atualmente é celebrada no dia 12 de agosto, em Tokushima. O festival, que dura quatro dias, lembra o Carnaval brasileiro.

No Awa Odori, a coreografia dos homens simboliza o delírio em que caem os dançarinos, que, induzidos pelo ritmo frenético e alegre, fazem movimentos livres, aparentemente desordenados e sem coordenação. Já as mulheres dançam sobre as pontas dos pés, com gestos suaves e acenos sensuais. “O ritmo é bem acelerado e a música, dinâmica. O estilo é parecido com samba. Parece fácil, mas precisa ter pique”, diz a presidente Mytie Fujioka.

O interessante do Grupo é que ele é formado apenas por jovens e crianças, como Marcia Lie Tsuchiya, de 20 anos. “Danço desde os 5. Via o grupo dançando no kaikan e me interessei, acho uma dança bonita, é um ritmo mais alegre”, diz.

E a dança não é restrita só ao público feminino. No Awa Odori também existem muitos garotos. Carlos Henrique Konbo, de 17 anos, é um deles. “Comecei criança e estou aqui até hoje. Com a dança dá para conhecer pessoas e lugares novos”, conta.


Como se vestem

Na dança kabuki, as dançarinas representam personagens e se vestem de acordo com a época e a classe social abordada na música. Geralmente, quando a mulher é de uma classe mais alta, veste quimono de seda que se arrasta no chão e zori (chinelinho) do mesmo material (foto à esq.). Já o quimono de uma camponesa é curto e o zori confeccionado com palha. Homens usam hakama (espécie de saia comprida) com tabi (espécie de meia) ou guetá (chinelo de madeira). Durante a dança, objetos como katana (espada), kasa (guarda-chuva) e sensu (leque) – que é a alma da dança, podendo representar outras coisas como um livro, um espelho, conforme a história – são utilizados.

No Awa Odori,
mulheres vestem amigassa (quimono), kassa (chapéu) e takaguetá (tamanco de madeira), como a da foto à esquerda.
Já os homens usam yukata (quimono) e tabi. Crianças (à dir.) vestem hapi (quimono mais curto), hatimaki (faixa na cabeça) e tabi. Em certos momentos da dança, aparecem com tyootyn (espécie de lamparina) e um estandarte que leva o nome e o emblema do Grupo.

Outras informações sobre a dança japonesa

• Mai e Odori são os termos usuais para a palavra “dança” no idioma japonês. A combinação dos dois ideogramas forma a palavra buyô, que significa genericamente “danças tradicionais japonesas”. Em termos históricos, mai era utilizado para se referir às danças da corte, ritualísticas e religiosas, e às danças do teatro nô. Odori era usado para indicar danças populares (bon-odori, nembutsu-odori, furyo-odori, etc).

• A dança clássica japonesa busca estabelecer o contato com a terra. Os movimentos mais comuns são os que levam à flexão dos quadris e membros inferiores, tornando o corpo mais baixo. Os pés se arrastam e pisam fortes no chão. É uma dança com passos intensivos, cujo ideal técnico é expressar a beleza da idade avançada.

• Coube ao teatro kabuki dar expressão artística refinada ao odori, as danças de festivais rústicos e populares executadas em grupo. Originalmente, odori significa um tipo de dança de saltos e pulos. No período Edo, nas ruas e praças públicas passaram a ser realizadas danças de massa, como o Bon-Odori, tradicional dança feita em grupo para reverenciar os mortos, geralmente no mês de agosto.

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