O
kagamimochi é dividido no dia 11 ou 14 de janeiro, dependendo
da região, e distribuído entre membros da família
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Deus do Ano-Novo aloja-se no kadomatsu, feito de galhos de pinheiro
e bambu, e colocado na entrada principal da casa
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(Reportagem:
Yoko Fujino/NB | Fotos: Kyodo)
Após
uma semana de recessso, em que quase todas as empresas param, exceto as
do setor de serviço, os japoneses voltaram ao batente no dia 3
e o arquipélago retomou o ritmo frenético. Mas o Ano-Novo
ainda não terminou, ao menos para aqueles que mantêm vivas
as tradições.
Muitas atividades
relacionadas ao início do novo ciclo acontecem depois do sanganichi,
os três primeiros dias de janeiro, até o dia 15 de janeiro,
período chamado de matsunouchi. O nome refere-se ao enfeite de
Ano-Novo kadomatsu que deve ser mantido na casa até esta data.
Não devem ser retirados antes, porque acredita-se que Toshigami,
deus do novo ano, aloja-se no kadomatsu que é feito com
galhos de pinho, bambu e palha de arroz e colocado na entrada principal
da casa para afastar os maus fluídos
No final da
primeira quinzena celebra-se o fim do shougatsu. A data é conhecida
como koshougatsu, ou pequeno Ano-Novo. Em algumas regiões
o koshougatsu recebe o nome de onna-shougatsu, ou Ano-Novo das mulheres,
porque elas só conseguem descançar depois de passadas as
festividades tradicionais. Se os três primeiros dias do ano novo
têm caráter público, a comemoração do
dia 15 é mais familiar e intimista.
Nessa noite
acontece o dondo-yaki ou sagichou. Os enfeites como kadomatsu, hamaya
e shimekazari são reunidos pelas crianças ao longo do dia,
e à noite são queimados numa fogueira. Ao incinerar estes
objetos, o deus do Ano-Novo estaria sendo enviado de volta ao céu.
Diz a tradição que comer mochi (bolinho de arroz) assado
neste fogo santo é garante-se a boa saúde durante o ano
todo.
De
futebol a jogo de cartas
Nos dias de
hoje o koshougatsu é pouco comemorado nas áreas urbanas,
mas nas zonas rurais e cidades tradicionais como Quioto e Kanazawa a data
é festejada por crianças e adultos. Muitas atividades de
templos xintoístas concentram-se entre a segunda e a terceira semana
de janeiro como resquício da época em que o Japão
usava o calendário lunissolar, abolido no início da era
Meiji, mais examente em 1872.
No templo xintoísta
de Shimogamo, em Quioto, homens vestidos de nobres do período Heian
(séc. 8 a 12) jogam bola com os pés no dia 4 de janeiro
no kemari-hajime. A cerimônia é uma oferenda aos deuses para
pedir fartura na produção de cerais. Numa quadra de 15m
x 15m, de 6 a 8 homens brincam com uma bola feita com couro de veado ou
de cavalo. O jogo se assemelha a uma partida de peteca ou bola ao alto
com os pés, e quanto mais tempo ela ficar no ar, melhor.
Na província
vizinha, Shiga, o jogo é de cartas. O templo xintoísta de
Oumi promove no dia 8 de janeiro o torneio que elege o campeão
de karuta. Neste jogo, também chamado de hyakunin-isshu, dois competidores
sentam frente a frente, separados por 100 cartas ilustradas, que fazem
par com cartas com poesias. Quando a poesia é lida, o jogador deve
pegar a carta ilustrada equivalente. Ganha quem pegar o maior número
de cartas. Como a parte ilustrada possui somente a segunda linha da poesia,
é necessário boa memória para lembrar as 100 poesias,
escritas entre o século 8 e século 14. No campeonato do
templo de Oumi, os finalistas disputam vestidos a caráter como
nobres do período Heian.
Há também
o dezomeshiki, cerimônia do Corpo de Bombeiros na qual se faz demonstração
de suas habilidade no trato com o fogo e prevenção do alastramento
de incêndio. A atividade começou no Ano-Novo de 1659, quando
quatro equipes de hikeshi (antiga denominação para bombeiros)
lideradas por Masanori Inaba reuniram-se para elevar o espírito
dos moradores de Edo (antiga Tóquio), destruído no ano anterior
por um grande incêndio. O ponto alto do dezomeshiki é o hashigo
nobori, em que o bombeiro faz malabarismo sobre uma escada, para demonstrar
sua habilidade nas alturas.

Demonstração de equipes de bombeiros
remontam ao século 17 |

Entregadores dos correios vestidos à maneira antiga entregam
cartões de Ano-Novo (nengajou) no dia 1º, em Tóquio
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Mesmo com a economia estagnada, japoneses fazem fila para comprar
os fukubukuro (sacolas da sorte), típicas do Ano-Novo
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Novas
tradições
Enquanto as
cerimônias tradicionais são exibições públicas,
os japoneses incorporam novos costumes, com participação
direta no bolso inclusive.
Antes do início
das liquidações as lojas de departamento vendem o fukubukuro
(sacola da sorte). Mesmo sem saber o conteúdo os consumidores fazem
fila para adquiri-lo, já que os produtos contidos valem mais que
o preço cobrado. Podem ser encontrados desde acessórios
de inverno como cachecóis e luvas até eletrodomésticos
e joias. Há também fukubukuro de lojas especializadas, como
casas de chá e cafeterias, com exemplares de edições
especiais e produtos de linha de luxo que saem mais em conta. Por causa
da demanda dos consumidores, há lojas que colocam à venda
fukubukuro com produtos pré-estabelecidos, como por tipo e tamanho.
As sacolas
da sorte começam a ser vendidos no dia 2 nas grandes lojas. Nesta
data é comum os compradores mais jovens se juntarem para trocar
os produtos que não querem com os colegas. Algumas casas comerciais
oferecem serviço de entrega para aqueles que compraram demais e
não conseguem carregar todas as sacolas.
Pessoas que
não tiveram tempo de enviar cartão de Ano-Novo também
aproveitam este período para atualizar a correspondência.
Os correios fazem entrega especial do nengajou (cartão de Ano-Novo)
a partir do dia 1º de janeiro, e contratação carteiros
temporários para atender a demanda.
Os cartões
de Ano-Novo são recebidos com alegria, pois além de notícias
de pessoas queridas traz algo a mais: os cartões oficiais dos correios
possuem um número da sorte. O sorteio é realizado dia 23
de janeiro, e os prêmios vão desde selos até viagens
e eletrônicos como TV LED e bicicleta elétrica.
Alimentação
A alimentação
é um dos ítens que mais persistem entre as antigas tradições.
Um dos mais populares é o nanakusa-gayu, um mingau de arroz com
sete ervas, que é servido no dia 7. O mingau vem com seri (erva
parecida com salsinha), nazuna (bolsa-de-pastor), gogyou (também
conhecido como hahakogusa), hakobera (stellaria), hotoke-no-za (erva semelhante
a dente-de-leão), suzuna (rabanete) e suzushiro (nabo). Come-se
o mingau para desejar saúde para a família, mas na prática
tornou-se uma maneira de dar trégua ao organismo, combalido com
os excessos do Ano-Novo. De fato, a bolsa-de-pastor tem função
diurética, e o rabanete e o nabo são ricos em diastase,
que ajuda na digestão. Como a maioria dos japoneses mora longe
de locais onde há estas ervas, muitos supermercados vendem o kit
completo.
No dia 11 ou
dia 15, dependendo da região, acontece o kagamibiraki, ou o ato
de abrir o kagamimochi, enfeite preparado com dois mochis
de forma arredondada. O bolinho de arroz é separado sem uso de
faca, porque é oferenda a deuses e objetos cortantes lembram a
morte. Na região de Kansai este mochi é comido no dia 15,
assado na fogueira do dondo-yaki. Dizem que ao comer este mochi a pessoa
recebe a sorte trazida pelo deus do Ano-Novo e terá saúde
o ano todo.
O mochi também
pode ser comido com o azukigayu, um mingau de arroz com feijão
azuki. Acredita-se que a cor avermelhada do feijão espanta os maus
espíritos, dando proteção à saúde e
à vida em família durante o ano. Este mingau também
é oferecido aos deuses nos templos xintoístas como Kamigamo
e Shimokamo, em Quioto. Em templos como Kumano e Suwa lê-se a sorte
usando o mingau, neste mesmo dia (15). Independente do resultado, no dia
16 a vida volta à normalidade para os que mantêm a tradição,
quase duas semanas depois do Japão contemporâneo.
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