Governo
japonês espera que os homens passem a ajudar suas mulheres
no cuidado diário com as crianças
|
Pedidos
de licença no Japão
|
1996
|
Homens:
0,12%
|
Mulheres*:
49,1%
|
|
1999
|
Homens:
0,42%
|
Mulheres*:
56,4%
|
|
2002
|
Homens:
0,33%
|
Mulheres*:
64,0%
|
|
2005
|
Homens:
0,50%
|
Mulheres*:
72,3%
|
|
2007
|
Homens:
1,56%
|
Mulheres*:
89,7%
|
|
2008
|
Homens:
1,23%
|
Mulheres*:
90,6%
|
No
caso das mulheres, a licença-maternidade divide-se em licença
para parto e licença para criação dos filhos.
Os números são referentes a licença para criação
dos filhos. |
(Fotos: Kyodo
News)
O Japão
deu mais um passo no combate à sua cada vez mais baixa taxa de
natalidade. No dia 30 de junho, entrou em vigor a revisão da lei
sobre a licença de trabalhadores que tiverem filhos. Agora, os
japoneses poderão se ausentar do trabalho dois meses a mais do
que o antigo texto previa. No total, mãe e pai poderão compartilhar
até 14 meses de licença. Além disso, o governo trabalha
em medidas para aumentar o papel dos homens na criação dos
filhos. De acordo com o projeto, os pais poderão tirar a licença
duas vezes: a primeira, de até oito semanas, logo após o
nascimento da criança, e a segunda, a critério da família.
Embora a medida
não seja a solução para o decréscimo da população
japonesa, muitos homens têm aproveitado para desenvolver suas habilidades
como pai. Motomasa Oshima, 35, por exemplo, que trabalha na Kirin Holdings,
empresa que adota já há algum tempo uma política
de valorização das famílias de seus funcionários,
é um deles. Pai do pequeno Mikimasa, de apenas 1 ano, Oshima tirou
30 dias de folga logo após terminar a licença-maternidade
de sua esposa Tokiko, 31, que trabalha na mesma empresa.
Durante esse
período, ele aprendeu a cozinhar e desenvolveu uma meticulosa agenda
de como poderia dividir os deveres de casa com Tokiko depois que sua licença
acabasse. Assim, no primeiro turno, um dos pais sai para trabalhar
mais cedo e depois pega o filho na creche no início da noite. No
segundo turno aquele que foi trabalhar mais tarde e deixou
o filho na creche também fica com a noite livre e ambos podem ter
seus momentos com a criança.
Eu queria
que minha esposa se concentrasse no trabalho depois que ela voltou da
licença, afirma Oshima. Tokiko diz que no começo ficou
preocupada se conseguiria conciliar a carreira, os afazeres domésticos
e ainda tomar conta de seu primeiro filho. Mas, em uma prova de que a
ajuda paternal pode, sim, estimular a maternidade no país, ela
já planeja os próximos passos da família: Quero,
pelo menos, mais dois filhos, afirma.
Pelo novo texto,
as empresas têm de liberar os funcionários com filhos menores
de 3 anos que solicitarem dispensa, ou estabelecer para eles uma carga
horária de até seis horas diárias. Outra mudança
é o fato de que agora os homens podem tirar licença independentemente
de suas mulheres terem ou não emprego. Mesmo que a medida só
tenha virado lei agora, algumas companhias já permitiam a prática.
Foi utilizada, por exemplo, pelo contador Manabu Tsukagoshi, 40, que tirou
licença de duas semanas assim que seu filho nasceu e depois folgou
mais 30 dias quando a criança tinha 9 meses.
A mãe
de um recém-nascido praticamente não dorme e os bebês
aprendem a ficar de pé e começam a dar seus primeiros passos
em mais ou menos nove meses, assim não podemos tirar os olhos deles,
afirma o contador. O pior é que muitos maridos ainda chegam
em casa e dizem: O que tem para jantar?, sem se dar conta
do trabalho que suas esposas tiveram durante o dia, diz Tsukagoshi,
lembrando que, durante a licença-paternidade, os laços familiares
se fortaleceram bastante.
Teoria
e prática
Apesar de
muitos verem como benéficas as mudanças na postura do governo
japonês, alguns acreditam que as medidas serão difíceis
de ser aplicadas na prática. Há uma falha política
muito grande ao se encorajar licenças-paternidade ao mesmo tempo
em que não se faz nada para reduzir as longas jornadas de trabalho,
critica Shigeki Matsuda, pesquisador da Dai-ichi Life Research Institute.
Além disso, os homens sofrerão reduções
de salário se trabalharem menos horas ou tirarem folgas,
alega ele. A medida prevê que o limite máximo que o trabalhador
pode receber em licença é de 209.700 ienes.
E, segundo
o pesquisador, a questão financeira tem um peso enorme na hora
de decidir pela licença-paternidade. A empresa química Asahi
Kasei, por exemplo, ofereceu cinco dias de folga paga para os funcionários
que tivessem filhos. O número de solicitações de
licenças, que até então era significativamente baixo,
subiu vertiginosamente. Esta mesma situação se repetiu na
Panasonic, que deu duas opções ao seus empregados: diminuir
a carga horária com redução de salário ou
pagamento integral com parte do expediente em casa. A maioria absoluta
preferiu a segunda opção.
|
|
Cálculo
do valor e período
1. Cálculo
do valor da remuneração durante licença para criação
dos filhos:
valor da remuneração diária X número de dias
X 40% (no texto original da lei).
Atualmente, é valor da remuneração diária
X número de dias X 50%.
Observações
- Para o cálculo da alíquota, caso a remuneração
diária multiplicada por 30 fique acima de 419.400 ienes, será
usado o limite de 419.400 ienes. Caso o valor da remuneração
diária multiplicado por 30 fique abaixo de 61.500 ienes, será
usado o valor de 61.500 ienes.
- O valor máximo mensal a ser pago é de 209.700 ienes. O
valor é integralmente pago pelo governo.
- Período máximo para receber remuneração
para criação de filhos:
no caso de homens: 1 ano
no caso de mulheres: 1 ano, considerando a soma dos dias do parto + licença
pós-parto + período de recebimento de remuneração
para criação dos filhos.
Lei
de licença de curto período para cuidado de doentes
Caso cônjuge,
pais, filhos, sogros, avós, irmão ou netos do trabalhador
tiverem doença ou necessitarem de cuidados especiais por mais de
duas semanas, ele poderá tirar cinco dias de licença (se
for uma pessoa que necessita de cuidados) ou 10 dias (se forem duas ou
mais pessoas que necessitam de cuidados). A lei não se aplica a
trabalhadores empregados há menos de 6 meses. Além desta
licença, o trabalhador pode usar outra lei de licença para
cuidado de doentes, com período que varia de cinco dias (kyuuka)
a um máximo de 93 dias (kyuugyou)
O
que diz a nova lei*
1. Revisão
do modo de trabalho no período de criação dos filhos
a) O empregador
fica obrigado a criar um regime de redução de jornada de
trabalho (até 6 horas/dia) para trabalhadores que criam filhos
de até 3 anos de idade; o empregador não pode transferir
o local de trabalho do funcionário com filhos de até 3 anos
caso o empregado assim deseje.
b) A lei aumenta o número de dias de licença para cuidar
de crianças doentes: 5 dias anuais para quem tem 1 filho e 10 dias
anuais para quem tem 2 filhos ou mais.
2. Levar
à prática a possibilidade de os pais participarem da criação
dos filhos
a) No caso
de mãe e pai tirarem licença para criar os filhos, o período
da folga é de até 1 ano, até a criança completar
1 ano e 2 meses de idade.
b) No caso de o pai tirar licença até 8 semanas depois do
parto, será possível tirar nova folga. A primeira licença
deve ser encerrada antes de completar 8 semanas a partir do dia do parto.
c) Proíbe que empregadores impeçam o trabalhador de tirar
licença no caso de a (o) parceira/o ser do lar.
*A lei começou
a vigorar dia 30 de junho de 2010. (Para empresas com menos de 100 empregados
alguns itens valerão a partir de 1º de julho de 2012)
|
Prefeito
de distrito de Tóquio dá o exemplo
Narisawa
tirou a licença, mas
enfrentou a crítica da população
|
Meses antes
da mudança para estimular os pedidos de licença-paternidade,
Hironobu Narisawa, 44, surpreendeu o país. O japonês, que
é prefeito do distrito de Bunkyo, em Tóquio, anunciou em
abril que tiraria duas semanas de folga por conta do nascimento de seu
filho. A iniciativa causou espanto na população porque poucos
políticos, sejam homens ou mulheres, tiram licença nesse
tipo de situação.
Eu queria
dedicar todo meu amor ao meu filho. E também tirei esse período
de folga porque nunca antes um funcionário do distrito de Bunkyo
havia tirado licença-paternidade, então, meu gesto serviu
também para encorajá-los, diz Narisawa, lembrando
que a experiência abriu seus olhos para muitas questões da
administração municipal, como a dificuldade de se caminhar
com carrinhos de bebê e a insatisfação das mães
com as creches da região.
Por causa de
sua decisão Narisawa enfrentou críticas da população.
Segundo dados do próprio município, a repercussão
foi mais negativa do que positiva, em especial porque ele estaria ausente
do comando em caso de emergência. Em uma das reclamações,
uma pessoa, que se define como uma mãe tradicional japonesa,
chamou o prefeito de efeminado.
Ela acredita
que o homem deve trabalhar fora e a mulher ficar em casa, rebateu
Narisawa. Mas se ela adoecesse e seu filho tirasse uma folga para
ajudá-la a cuidar da casa, ela nunca o chamaria de efeminado,
defende Narisawa, que prega que a sociedade japonesa tem de mudar sua
opinião sobre a imagem de homens que se ausentam do trabalho para
cuidar dos filhos. Ajudaria muito os homens jovens se difundirmos
a ideia de que cuidar dos filhos é algo muito bom para os homens.
|