Apesar
da queda das vendas, nove entre
dez japoneses adultos leem jornais
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Livrarias abrem espaço para diversificar
produtos e atrair clientes
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1Q84, de Haruki Murakami, vendeu
mais de 3 milhões de exemplares
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(Reportagem:
Yoko Fujino | Fotos: Kyodo)
Pesquisa realizada
pela Associação Japonesa de Editoras de Jornais, divulgada
no início de junho, revelou que nove entre dez japoneses em idade
adulta leem jornal. A organização consultou 6.000 pessoas
entre 15 e 69 anos em todo o Japão, entre os dias 8 de outubro
e
1º de
novembro sobre hábito em relação a cinco meios de
comunicação: TV, jornais, revistas, rádio e internet.
Das 3.683 pessoas que responderam às perguntas, 91,3% liam jornais
e 77,4% liam revistas. A frequência de leitura foi de 5,2 dias por
semana para jornais e 1,3 dias para revistas.
A pesquisa
é realizada a cada dois anos. Na versão de 2007, foi apontado
que 92,3% dos japoneses liam jornais. Apesar da ligeira queda, a maioria
dos japoneses têm o hábito da leitura: na pesquisa deste
ano, 62,7% das pessoas disseram que leem jornais todos os dias.
Num país
onde o índice de analfabetismo é de 0,2%, a leitura seria
um hábito e editores teriam poucos motivos para se preocupar. Mas
não é o que acontece. A concorrência com TV e internet,
além do aumento do número de sebos que vendem livros seminovos,
levam os japoneses a gastar cada vez menos na compra de livros, revistas
e jornais: em 1999, a tiragem dos jornais japoneses era de 53,7 milhões
de exemplares por dia, em média, mas 10 anos depois este número
ficou pouco acima de 50 milhões. Os domicílios japoneses
adquiriam em média 1,15 jornais em 1999, mas em 2009 não
chegou a um jornal. A venda de livros e revistas, que totalizavam 2 trilhões
de ienes (R$ 1,125 bilhão) por ano desde 1989, podia ficar abaixo
deste valor, apesar de um só autor, Haruki Murakami, ter vendido
sozinho mais de 3 milhões de livros dos três volumes da sua
mais recente obra, 1Q84.
Desde o final
da década de 1990, várias editoras de livros e revistas
fecharam suas portas, e outras foram adquiridas por editoras maiores ou
por empresas de diferentes ramos. A Chuo Kouron-sha, tradicional editora
de revistas com mais de 120 anos de história, foi comprada pelo
jornal Yomiuri. A Fujin Gahou-sha, que publica a revista Fujin Gahou desde
1905 foi adquirida pela francesa Achette. A editora especializada em livros
de arte Kyoto Shoin faliu em 1999, assim como a Shakai Shiso-sha, que
pediu falência em 2002. A Ondori-sha, uma das maiores editoras especializadas
em artes manuais, com diversos livros sobre tricô, crochê,
culinária e outros, pediu concordata em 2009.
A situação
das livrarias não é menos difícil. De acordo com
o Sindicato de Livreiros, de 2007 a 2008 encerraram atividades 461 livrarias.
O número de associados que em 2008 era 5.869, em 2009, ficou em
5502. Mesmo as grandes redes encontram dificuldades: a rede Aoyama Book
Center, que tinha sete lojas em Tóquio e conhecida por trabalhar
com obras sobre arte e arquitetura, além de livros importados,
pediu concordata em 2004, surpreendendo o mercado. Sua operação
foi assumida pelo Nihon Yousho Hanbai, mas esta empresa também
pediu concordata quatro anos depois. Hoje, a rede de livraria está
sob comando da Book Off Corporation, que cresceu com venda de livros seminovos.
As livrarias enfrentam concorrência da livrarias on-line, como a
Amazon, e de serviços de encomenda de livros da rede de loja de
conveniência Seven Eleven. O lançamento do iPad despertou
interesse de editoras pelos livros e revistas eletrônicos, aumentando
ainda mais o temor dos livreiros.
Incentivo
à leitura
A constatação
não é apenas do mercado editorial. O Ministério da
Educação realizou pesquisa em 2008 sobre os japoneses e
a língua, e apurou-se que quase metade dos jovens de 16 a 19 anos
consultados não liam livros. Entre as pessoas da faixa dos 20,
30, 40 e 50 anos, mais da metade lia ao menos um livro por mês.
A preocupação
com o afastamento do hábito da leitura levou o governo a intitular
2010 o Ano da Leitura no Japão. Diversas iniciativas estão
sendo promovidas pelo país até o final do ano para incentivar
as pessoas a frequentarem bibliotecas e voltarem a ter interesse por livros.
A Organização para Promoção da Cultura das
Letras vem usando outras mídias como jornais e TV para despertar
o interesse dos japoneses.
Em meio a diversas
iniciativas chama a atenção o trabalho da escola Daiichi
Chooyoo, de Tsuruoka, Yamagata: nela, estudantes de shoogakkoo leem em
média mais de 120 livros por ano. Em 1994, este número era
de 51 livros anuais por aluno. A média entre estudantes japoneses
da mesma faixa etária é de 7,5 livros anuais. A história
começou a mudar em 1995, quando a escola, professores e bibliotecários
começaram a fazer ações para familiarizar as crianças
com os livros.
Uma das propostas
foi a inclusão de visitas à biblioteca. As crianças
são apresentadas à bibiloteca no primeiro trimestre, aprendendo
a usar seus recursos. No trimestre seguinte, são empregados jogos
em que as respostas devem ser buscadas nos livros. Os educadores também
criam listas com livros úteis para as aulas, de acordo com a série
e matéria. Para que todos os alunos tenham acesso ao material de
pesquisa, os professores tomam o cuidado de dividir os temas e, no caso
de precisar de mais livros, avisar a biblioteca que haverá mais
demanda.
Tanto estudantes,
como pais e familiares participam dos esforços para tornar a leitura
atraente: voluntários participam das aulas como contadores de histórias
para alunos de todas as séries da escola. Mas a tarefa não
se resume apenas a isso: os voluntários explicam onde as crianças
podem encontrar o livro lido, e informam sobre obras relacionadas à
história contada. Ao se formar, alunos da 6ª série
fazem fichas relatando quais livros acharam mais interessantes, deixando
aos mais novos pistas para novas descobertas.
Mais
velhos, menos livros
Depois que
a história desta escola da província de Yamagata se tornou
notícia, o ministério da Educação fez um levantamento
com 5.882 estudantes e 5.882 pais em 20 cidades japonesas. Foram consultados
estudantes da 2ª e da 5ª séries do shoogakkoo, 2ª
série do chuugakkoo e 2º ano do kookoo, além de seus
pais. O resultado mostra que o trabalho do governo, editores e livreiros
não é fácil: à medida que envelhecem, os estudantes
tendem a ler menos livros. Entre as crianças da 2ª série,
apenas 2% não leram um livro sequer em um mês, enquanto 20,8%
haviam lido de 10 a 20 livros no mesmo intervalo. Mas entre estudantes
da 5ª série 5,9% não haviam lido nenhum livro; entre
jovens do 2º ano do kookoo a porcentagem chegou a 25,2%, e entre
os pais deles, 27,4% não haviam lido livros em um mês. Entre
as justificativas dadas por aqueles que não leram nenhum livro,
estava a falta de tempo em primeiro lugar e, em seguida, o fato de não
gostarem de ler. Mas havia também aqueles que não encontraram
um livro que gostariam de ler. A maioria dos pais que não leram
livros diziam que não tinham tempo por causa do trabalho ou tarefas
da casa, mas havia também quem queria fazer outras coisas além
de leitura.
Outro estudo
do governo mostra que os adultos leem menos porque trabalham ou usam o
tempo para outras coisas. O departamento de Difusão da Língua
Japonesa do Ministério da Educação e Cultura realizou,
em 2009, pesquisa com cerca de 2.000 japoneses acima dos 16 anos sobre
como eles se relacionam com a língua. Os resultados não
são animadores: 64,4% dos consultados revelaram que estão
lendo menos do que antes. Entre os motivos citados estão a falta
de tempo por causa de trabalho e o uso do tempo para jogar games, falar
ao celular ou navegar na internet. Principalmente entre os jovens de 16
a 19 anos e na faixa dos 20 anos, o livro sofre concorrência acirrada
com novos meios: 38,7% e 32,1%, respectivamente, preferem usar o tempo
livre para ver sites ou jogar.
Do
virtual para o papel
Conscientes
dos hábitos dos japoneses de hoje, editores buscam meios de integrar
o rival: romances que tornaram sucessos em sites para telefonia celular
viram livros, como o Deep Love, do autor Yoshi. A obra saiu do mundo virtual
para o papel e chegou a 2,5 milhões de exemplares publicados nos
quatro volumes, entre 2002 e 2004. Sites para acesso por celular como
Mahou no I Land abrem espaço para pessoas divulgarem seus trabalhos.
A empresa, uma subsidiária da editora Kadokawa, transforma os trabalhos
mais acessados em livros. Foi o que aconteceu com o romance Koi Sora,
da autora que se identifica como Miki. Os dois volumes chegaram à
tiragem de 1,4 milhão de exemplares.
No entanto,
a conquista ou a manutenção da fidelidade dos leitores mais
velhos parece ser mais difícil. Outro fator que precisa ser solucionado
é o envelhecimento da população e suas consequências.
Dados apontam que mais de 55% das pessoas acima de 60 anos não
chegam a ler um livro por mês. Nesta faixa etária, o motivo
não é a falta de tempo por causa do trabalho ou competição
com internet: a maioria simplesmente deixou de ler por motivos de saúde
como problemas de visão. Apesar de alguns lançamentos de
audiolivros, ainda não se vê grandes novidades para o público
da terceira idade. Num país onde a população envelhece
rapidamente, ignorar estes público sim é erro de leitura.
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