
Alunos do Pioneiro fazem origami (dobradura de papel): atividade
faz parte do currículo extracurricular do curso de língua
japonesa
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Dona Michie Akama (já falecida), fundadora do Pioneiro
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(Fotos: Centro
Educacional Pioneiro/Cedida, Colégio Harmonia/Cedida e Colégio
Oshiman/Cedida)
A cultura japonesa
recebe um reforço especial para sua preservação e
difusão no Brasil. Esse apoio é dado por escolas que, além
do ensino normal de alto padrão, incluem em suas atividades, curriculares
ou extracurriculares, aulas sobre língua, arte tradicionais e diversas
manifestações culturais do Japão. Em São Paulo,
três instituições seguem esta proposta, oferecendo
o contato com as tradições japonesas desde o ensino Maternal.
A mais antiga
delas é o Instituto Educacional Dona Michie Akama, que mantém
o atual Centro Educacional Pioneiro, no bairro Vila Clementino. Fundada
em 1933 como Casa de Ensino Corte e Costura, a escola surgiu com um pilar
estruturado na ética japonesa. Apesar do nome, era um internato
que oferecia às nikkeis brasileiras a mesma formação
que uma mulher tinha no Japão e que lhe era exigida pela sociedade
do país. Assim, recebiam aulas de afazeres domésticos, como
corte e costura, culinária e bordado e de formação
educacional, que incluía língua japonesa, música,
ikebana (arranjo floral), etiqueta social, educação artística
e arte. A partir de 1941, a escola incluiu os ensinos primário,
médio e de especialização equivalentes aos do Japão.
Com a diminuição
da procura pelos cursos femininos, a instituição passou
a se dedicar à educação formal, mas mantendo os princípios
de preservação da cultura japonesa. Hoje, o Pioneiro oferece
cursos de Educação Infantil (crianças a partir dos
3 anos de idade), Ensino Fundamental e Médio e continua com atividades
que mantêm seus alunos conectados ao Japão.
A língua
japonesa é ensinada como atividade extracurricular a partir do
2º ano do Ensino Fundamental 1 (7 a 8 anos). O curso é composto
por oito níveis (um a cada ano letivo), ao final do qual o aluno
está apto a prestar o exame de proficiência (noryoku shiken)
de nível 2. Nos dois primeiros níveis, as aulas são
com material elaborado pela própria escola e depois usamos os livros
da Jica, explica a professora Julieta Ito, coordenadora do curso.
Além do ensino do idioma, procuramos valorizar a cultura
japonesa, com a realização de diversas atividades como a
comemoração do Hinamatsuri (Dia das Meninas) e Kodomo-no-Hi
(Dia dos Meninos) e realização do Festival Tanabata,
diz Julieta.
O curso de
japonês ocupa quatro horas por semana. Como apoio, a escola dispõe
ainda de uma biblioteca de livros japoneses com 400 volumes. Quem frequenta
as aulas tem se beneficiado. Este ano, quatro alunos do Pioneiro ganharam
bolsas de viagem da Jica e da Fundação Japão para
um mês de intercâmbio no Japão. Os laços da
instituição com a cultura japonesa não param por
aí. A escola oferece, também como curso extracurricular,
aulas de ikebana, soroban (ábaco) e de cerâmica e de artes
marciais (judô e kendo). A ligação com o arquipélago
deve até mesmo ficar mais forte. No momento, o Centro Educacional
Pioneiro negocia o estabelecimento de um acordo de intercâmbio com
a Tokai Daigaku, universidade de Tóquio focada no ensino de Ciências
e de Engenharia.
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A
casa dos primeiros nikkeis

Lápide com a inscrição Yaku Shin (Daqui
partiremos): marco e filosofia do Harmonia
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A educação
da primeira geração dos filhos dos japoneses no Brasil também
foi a preocupação do grupo de imigrantes que formou a Sociedade
Amigo dos Estudantes de São Paulo (Saesp) e fundou a Casa de Estudante
Harmonia, em 1953, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. A
ideia era oferecer ao nisseis principalmente do interior, um local onde
pudessem morar com a mesma tranquilidade como se estivessem com suas famílias
e continuar seus estudos na Capital, onde estavam as universidades, ao
mesmo tempo em que se integravam definitivamente à vida brasileira.
Por este papel
fundamental na inserção social dos primeiros descendentes,
o Harmonia é considerado um marco da imigração japonesa
no Brasil. Por ali passaram personalidades nikkeis que hoje são
destaques no País entre eles o desembargador Kazuo Watanabe. Encontrei
na Harmonia um ambiente tranquilo, necessário aos meus estudos,
o companheirismo dos internos e o tratamento familiar dispensado pelo
casal Maria Shigueko e Hideto Futatsugui (diretor), lembrou Watanabe,
hoje presidente do Conselho Deliberativo.
Porém,
com a própria integração dos descendentes, a Harmonia
seguiu um curso natural e, em 1993, criou o Centro Educacional Harmonia,
atual Colégio Harmonia, que iniciou suas atividades como uma escola
não só para a comunidade, mas para toda a sociedade. A mudança
de papel, no entanto, não a tirou do rumo de preservar e difundir
a cultura japonesa no Brasil, que está na raiz da instituição.
Desde a fundação
da Sociedade Amigos dos Estudantes de São Paulo, hoje denominada
Associação Harmonia de Educação e Cultura,
estudantes do Japão são recebidos no Brasil por meio do
programa de intercâmbio cultural. Mas foi na década de 1980
que a Harmonia se tornou parceiro da Associação Nippaku
Koryu Kyokai, que reúne jovens japoneses para estagiar no Brasil
durante um ano. Como parte do programa, promove cursos intensivos sobre
o idioma e a cultura brasileira. Essa integração de duas
mãos já beneficiou mais de 1.200 estudantes japoneses e
brasileiros desde seu início.
O colégio,
mantido pela Associação Harmonia de Educação
e Cultura, oferece cursos do Infantil 3 (antigo Maternal), para crianças
a partir de 2 anos de idade, aos Ensinos Fundamental e Médio. Em
qualquer uma destas fases, o aluno está em contato a cultura japonesa.
Fazem parte do currículo o curso de japonês do Infantil
3 ao 5º ano, são duas aulas semanais e do 6º ao 9º
ano, três aulas por semana e o taiko (tambor japonês),
com aulas do 1º ao 5º ano, duas vezes por semana.
O Harmonia,
por sinal, possui um grupo de taiko que se apresenta com destaque nos
principais eventos da comunidade. Já o judô entra como atividade
extra e é oferecido aos alunos duas vezes por semana, após
as aulas normais. Além disso, a instituição é
palco constante de eventos de cultura japonesa e promove comemorações
típicas como o Hinamatsuri (Dia das Meninas) e o Undookai (gincana
poliesportiva).
Mesmo sem perceber,
os alunos vivem num ambiente com forte influência da cultura nipônica.
A escola segue o programa de qualidade japonês chamado de 5S
seiton (ordenação), seisoo (limpeza), seiketsu (saúde),
shitsuke (disciplina) e seiri (senso de utilização).
Já no
campo educacional essa ligação é bem mais visível.
Este ano, a instituição iniciou um novo projeto de intercâmbio
que levou para o Japão um grupo de jovens que passou 22 dias naquele
país. O objetivo da viagem é promover a aproximação
dos alunos com a cultura japonesa, tanto a tradicional quanto a moderna.
Anteriormente, o Harmonia realizou um outro programa que levou ao Japão
alunos das equipes de futsal e ginástica. Além das competições
esportivas, os intercambistas puderam vivenciar a cultura japonesa sob
variadas formas.
Por sua importância
histórica, em 2008, a Associação para Comemoração
do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil acolheu
a construção de novas instalações do Harmonia
específicas para a Educação Infantil e o Ensino Médio.
A ampliação, inaugurada em 2009, faz parte da primeira etapa
do projeto Shin-Harmonia Gakuen, que pretende fortalecer ainda mais o
ensino da língua e da cultura japonesas, com o objetivo de criar
bases mais sólidas para o intercâmbio Brasil-Japão,
intensificado por conta do Centenário.
Cultura
japonesa no currículo obrigatório

Alunos do Oshiman em atividades
típicas japonesas no Dia dos Meninos
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Dona Mariko Kawamura, fundadora,
e a filha Mayumi, diretora do Colégio Oshiman: currículo
mantém os alunos o dia todo na escola
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Depois de viver
as experiências da Segunda Guerra Mundial, Mariko Kawamura tinha
dúvida se queria ser médica para salvar vidas ou educadora
para passar a mensagem de respeito ao ser humano. Nascida em Botucatu
(SP), ela foi para o Japão aos 12 anos para estudar seis meses,
mas ficou mais de dez. Não pôde regressar ao País
por causa do início do conflito. Lá, precisou trabalhar
em fábricas de peças para aviões de guerra e até
como enfermeira para atender as vítimas dos bombardeios norte-americanos.
Mariko, uma
sobrevivente de guerra, optou pela Pedagogia, pois sua mensagem de paz
e compreensão entre as pessoas poderia se multiplicar por meio
de cada um de seus alunos. Formada no Japão, voltou ao Brasil e,
em 1952, fundou o Shohaku, uma escola de línguas, e que hoje é
o Colégio Oshiman, com cursos do Maternal ao Ensino Fundamental.
A instituição tem em seu currículo normal várias
atividades que ajudam a preservar e a difundir a cultura japonesa no Brasil.
A cultura oriental é milenar e tem muitos valores, ao passo
que a cultura ocidental é mais recente. Então, a pessoa
que tem as duas é mais completa. Por isso, procuramos trazer para
a escola a cultura oriental e coincide de ser a japonesa, por causa da
nossa ascendência. É uma cultura que acrescenta coisas positivas
para quem está em formação, explica a professora
Mayumi Kawamura Madueño Silva, diretora da Oshiman.
A escola, de
ensino brasileiro, inclui aulas de três línguas estrangeiras,
dadas três vezes por semana inglês e japonês
(que são ensinados a partir do Maternal) e espanhol (a partir da
quinta série). Em todas elas chega-se ao nível avançado
quando o aluno estiver na oitava série. Cerca de 70% dos
pais descendentes não falam mais o japonês, mas os filhos
estudam. É uma forma de proporcionar às crianças
o que deixaram de fazer e viram que era importante, ressalta Mayumi.
No mercado de trabalho, é preciso ter algo a mais, e o japonês,
hoje, pode ser este diferencial. Mais que um idioma, acredito que os pais
buscam a formação humanística para seus filhos,
diz a diretora.
As aulas de
japonês são dadas pela professora Mariko que faz questão
de ser rigorosa com seus alunos. O pouco conhecimento da língua
japonesa não serve para nada. Costumo dizer a eles que se ficarem
apenas no nível básico, vai servir apenas para venderem
limão na feira. Para isso é só falar: yasui
desu yo!, Obasan, obasan! Mas se a pessoa quiser usar a língua
para sua vida profissional, deve se esforçar, diz a professora
Mariko.
Além
do ensino do japonês a escola procura levar aos alunos a cultura
japonesa como um todo, incluindo no currículo obrigatório
aulas de sado (cerimônia do chá), dadas em sala especialmente
montada para a arte, o chashitsu; shodo (caligrafia) e ikebana (arranjo
floral), a partir dos seis anos aos 15 anos, dadas uma vez por mês
em sistema de rodízio. Com o sado, a criança aprende desde
cedo a harmonia espiritual, o shodo é um dos muitos caminhos para
o ensinamento do equilíbrio, da tranquilidade, serenidade e segurança
e o ikebana transmite a harmonia entre a terra, o céu e o homem.
Mais do que a preservação da cultura, queremos com
isso que a criança tenha uma formação completa,
diz Mayumi. Quanto mais informação a pessoa teve na
idade escolar, mais ampla será sua visão e isso será
muito importante para sua profissão, independente de qual seja,
completa a diretora.
Em relação
aos vínculos de uma instituição de ensino com o Japão,
a professora Mariko Kawamura foi uma das pioneiras. Há 35 anos
ela iniciou um intercâmbio entre alunos, ainda na época do
Shohaku, com uma escola pública de Obitsu, em Kimitsu, província
de Chiba. A ideia, com a ida de alunos brasileiros para o arquipélago
e a vinda de japoneses para o Brasil, era mostrar às crianças
que existem povos que pensam e agem de maneira diferentes, têm culturais
distintas, mas que merecem respeito. Esse intercâmbio existe ainda
hoje e, pelo lado japonês, é tão importante que é
mantido com recursos da prefeitura de Obitsu. Além dos alunos de
Chiba, a Oshiman recebe também estudantes de Tóquio, que
ficam no Brasil durante dez dias.
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