PORTAL NIPPOBRASIL ONLINE - 19 ANOS
-
Fale conosco: adm@nippo.com.br   
Quarta-feira, 28 de junho de 2017 - 2h17
DESTAQUES:
Especial
Helpers: Os cuidadores de idosos
Brasileiros que viveram no Japão aprendem uma nova atividade,
aperfeiçoam-se e continuam a praticá-la no Brasil
 

Japão tem 1,37 milhão de helpers,
mas a mão de obra é insuficente

(Reportagem: Luis Yuaso/NB | Fotos: Kyodo e Cedida)

Alguns tiveram seu primeiro contato com a profissão sem saber. Cuidavam de avós, tios ou parentes que tinham dificuldades de se movimentar ou sofriam de doenças degenerativas, como o Mal de Alzheimer ou esclerose múltipla. Outros simplesmente enxergaram na área uma oportunidade de carreira. E há aqueles que sempre souberam que gostariam de atuar no setor. Seja como for, em países como o Japão, helper – ou ajudantes de idosos – é uma profissão que, a cada dia, carece mais de mão de obra, e muitos brasileiros estão se voltando para essa especialidade.

No Japão, basicamente, o helper encarrega-se da higiene, alimentação e administração da medicação a ser tomada por pessoas com necessidades especiais, algo similar a uma parte do trabalho que as enfermeiras realizam no Brasil. Só que, no arquipélago, a área vem enfrentando uma grande escassez de mão de obra. Só para ilustrar, em 2000, quando o governo passou a fornecer subsídios para o cuidado de idosos, estima-se que haviam cerca de 550 mil pessoas atuando na área. No final do ano fiscal de 2009, o número total de trabalhadores já passava de 1,37 milhão e a expectativa é de que o mercado abra mais 1,2 milhão de vagas nos próximos 15 anos.

A alta demanda fez que muitas empresas japonesas abrissem vagas para trabalhadores estrangeiros que quisessem atuar no setor. Um exemplo é Renata Furuga. Em meio à crise econômica que assolou o mundo em 2008, a brasileira, que vivia em Yokkaichi (Mie), estava desempregada e ficou sabendo por uma amiga de que um hospital local estava contratando helpers. “Na entrevista, a diretora disse que nunca havia trabalhado com estrangeiros, mas que estava disposta a nos dar uma chance”, lembra ela.

Renata, então, ficou três meses se especializando em um curso promovido pela própria empresa. Passados os 90 dias, ela começou a trabalhar no asilo Yamada. A rotina não era fácil. “No andar em que eu ficava, havia 70 pacientes e tínhamos de cuidar da alimentação, higiene, mudar a posição deles na cama, então era muito corrido e cansativo. Além disso, eu trabalhava das 8h às 17h e depois ia estudar japonês, às vezes em lugares muito distantes”, conta ela, que, no entanto, não se arrepende da experiência. “Era uma área que eu já gostava e não sabia.”

A brasileira teve de voltar ao Brasil em meados de 2009, mas o gosto pelo trato com idosos permaneceu, tanto que, pouco depois do retorno, procurou se informar sobre o mercado de trabalho no País e decidiu seguir carreira na área. Hoje, ela cursa o primeiro semestre de Enfermagem. “Mas não pretendo atuar na área hospitalar. Quero trabalhar com gerontologia mesmo. Assim que me formar, vou fazer pós-graduação em gerontologia”, revela.

Arranhões

O apreço pela profissão, por sinal, é comum entre as pessoas que já trabalharam como helper. Os profissionais dizem que o contato e a interação com idosos são experiências de vida muito interessantes. E, às vezes, curiosas. “No Japão, no hospital em que eu trabalhava, havia uma senhora de 103 anos. Ela não falava muito conosco, mas era consciente. Com a gente, aliás, ela só brigava. Se fizéssemos algo que ela não gostava, ela mordia, arranhava, beliscava”, diz Kazue Noda, que trabalhou por um ano e dois meses na função no arquipélago.

Apesar do gênio forte da paciente, Kazue lembra que todos no hospital gostavam e admiravam a japonesa, principalmente por sua lucidez. “O filho, quando ia vê-la, levava jornal e ela, usando uma lupa, lia-o inteiro”, lembra a brasileira, afirmando, porém, que quando a nora a visitava o cordialismo já não era o mesmo. “A moça sofria na mão dela. A gente tinha até de interferir”, fala.

Baixos salários

Mesmo sendo uma área com grande oferta de empregos, a profissão é conhecida pela baixa remuneração. Segundo um levantamento da Care Work Foundation, os ganhos mensais de um trabalhador da área no Japão ficam em torno de 196 mil ienes

(R$ 3.670), muito abaixo da média dos setores produtivos, que beira os 300 mil ienes (R$ 5.617). Isso, segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social, é um dos responsáveis pelo fato de que, das 470 mil pessoas que conseguiram certificação de helper em 2005 no arquipélago, apenas 270 mil continuam atuando no setor.

“O salário é realmente muito baixo, mesmo para a própria sobrevivência. No meu caso, como eu não recebi o certificado, apesar de ter feito o curso, continuar o trabalho era pedir para entrar em dívida. Infelizmente é a realidade. Era inevitável descontinuar a carreira, já que é muito difícil graduar-se em novos cursos e níveis para um salário melhor”, avalia Daniella Kai, moradora de Otsu (Shiga), que teve uma experiência de seis meses na área e hoje atua no ramo musical.

Apesar de não trabalhar mais como helper, Daniella conta que gostou da experiência de interagir com idosos. “Foi um trabalho maravilhoso, que me ajudou a mudar velhos e ganhar novos conceitos de vida. É extraordinário se relacionar com pessoas bem mais velhas. Foi um dos melhores empregos que já tive no Japão”, diz.

 
Home helper ou cuidador?

Renata (à dir.) ao lado de uma de suas pacientes no Japão: experiência a fez seguir carreira na área

O trabalho de home helper tem três frentes: o auxílio no tratamento de saúde, o trabalho da casa e a orientação. Ou seja, respectivamente, cuida do idoso/doente no dia a dia, ajuda-o em sua própria casa e incentiva-o a ter uma vida o mais independente possível.

Para se tornar home helper, passa-se por cursos de três etapas (do nível 3, mais básico, para o nível 1, mais avançado). Mas não há prova, porque para exercer a profissão, no Brasil, não há necessidade de licença ou autorização do governo. Os cursos também não são obrigatórios, e só são exigidos no caso de o contratante usar recursos do governo para pagar o serviço do profissional.

Por outro lado, o kaigo fukushishi (cuidador), no Japão, trabalha auxiliando idosos e doentes não só em suas casas como também em asilos, casas de saúde e hospitais. Para trabalhar como cuidador, desde 1987, é necessário passar por exame nacional.

 
Entidade oferece curso gratuito no Brasil

Curso promovido em São Paulo tem
mais de 40 alunos inscritos

Mesmo não sendo uma profissão regulamentada no Brasil, já existem algumas entidades que disponibilizam cursos de helper no País. Um exemplo é o Programa Básico de Orientação a Cuidadores de Idosos, promovido pela Assistência Social Dom José Gaspar (Ikoi-no-Sono), em São Paulo. No curso, que é gratuito e tem duração de 60 horas/aula, os estudantes aprendem as técnicas básicas para o cuidado com idosos e até mesmo o autocuidado, com aulas formuladas e ministradas por profissionais de geriatria e gerontologia.

Segundo a coordenadora do projeto, a psicóloga Sirley Okuda, o perfil dos frequentadores é variado, mas grande parte começa o curso por ter algum membro da família que precisa de cuidados e já tem alguma experiência de trabalho na área no Japão. Este é o caso de Luiza Chida, que teve seu primeiro contato com a área ainda no arquipélago por conta da cunhada excepcional. “Achei que precisava aprender a lidar com isso e fui atrás de cursos”, conta ela, que chegou a trabalhar na área no Japão profissionalmente e em projetos voluntários.

Outro que resolveu se inscrever no curso para entender melhor as dificuldades de pessoas com necessidades especiais foi Massumito Masuda, que trabalhou com deficientes físicos no Japão. “Eu tenho pais vivos, que estão com 84 anos. Além disso, é bom estudar o tema para entender, até mesmo, eu mesmo, quando envelhecer”, diz.


Serviço: Assistência Social Dom José Gaspar
Rua São Joaquim, 381 – sala 42 – 1º andar – Liberdade – SP – Cep: 01508-001
Telefax: (11) 3208-7248 e (11) 3209-0215
 Busca
 Especial
Especial - Nippo-Brasil
• Festa de celebração do Ano do galo 2017 em São Paulo e previsões
Especial - Nippo-Brasil
• + 10 Provérbios Japoneses
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 311
• Gairaigo: as palavras estrangeiras na língua japonesa
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 304
• Provérbios do Japão:
sabedoria através dos tempos
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 302
• Hanami, uma bela tradição japonesa
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 301
• Simbologia japonesa: os animais
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 300
• Simbologia japonesa:
as flores e as árvores
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 281
• Você sabe o que significa seu sobrenome?
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 279
• Oriente-se para fazer ginástica!
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 271
• Bonsai, a natureza em miniatura
Especial - Nippo-Brasil - Arquivo Edição 253
• Desvendando os
seres da mitologia japonesa
Especial - Nippo-Brasil
• Kaburimono (literalmente, aquilo que se põe na cabeça)
Especial - Nippo-Brasil
• Conheça alguns amuletos e preces orientais
Especial - Nippo-Brasil
• Shichifukujin, as sete divindades
Especial - Nippo-Brasil
• Daruma: sinônimo de sucesso
Especial - Nippo-Brasil
• A história da Hello Kitty
Especial - Nippo-Brasil
• A história e a tradição do Maneki Nekô no Japão
Especial - Nippo-Brasil
• Escrevendo seu nome brasileiro em caracteres japoneses
Especial - Nippo-Brasil
• 10 Provérbios Japoneses
Arquivo Nippo-Brasil - Edição 27
• Crueldade marca início
do bairro da Liberdade
Arquivo Nippo-Brasil - Edição 26
• Liberdade: um pedacinho
do Japão em São Paulo
• Nomes japoneses mais populares de 2013
• Aprender chinês não é tão difícil assim
• Homens donos de casa
• Executivos japoneses no Brasil convivem com diferenças culturais no País
• Japão ainda dificulta a carreira de mulheres
• Japão estimula funcionários a tirarem licença-paternidade
• Ano-Novo no Japão só
termina em meados de janeiro
• Marcos da imigração no Vale do Ribeira viram patrimônios históricos
• Natal à japonesa: sem feriado, ceia, missa e nem panetone
• Mulheres aderem à moda do plastimodelismo
• Editoras japonesas buscam formas de atrair mais leitores
• Ensino de japonês abre horizonte para estudantes da rede pública
• A nova imigração japonesa no Brasil
• Escolas em São Paulo ajudam a preservar cultura japonesa no País
• Mulheres casadas preferem ficar em casa do que trabalhar fora
• Japão oferece facilidades aos portadores de necessidades especiais
• Suicídios afetam 35 mil trens por ano
• Divórcios no Japão e Brasil:
Quando o amor acaba
• Maternidade torna-se problema social no Japão
• Helper: Os cuidadores de idosos
• Taikô à brasileira
• Como escolher o nome em Japonês
• As noivas que atravessaram o Atlântico
• Yosakoi Soran: Uma dança, muitas culturas
• Pontos comerciais guardam a história do bairro da Liberdade

© Copyright 1992 - 2016 - NippoBrasil - Todos os direitos reservados - www.nippo.com.br

O conteúdo dos anúncios é de responsabilidade exclusiva do anunciante.
Antes de fechar qualquer negócio ou compra, verifique antes a sua idoneidade. Veja algumas dicas aqui.

Sobre o Portal NippoBrasil | Fale com o Nippo