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(Reportagem:
Susy Murakami | Foto: Arquivo Pessoal)
Em pleno centro
de Londrina, segunda maior cidade do Paraná, praticantes de sumô
treinam quatro vezes por semana em uma arena montada na Associação
Kaiko. Graças à família Gomes, mantenedora da entidade,
o esporte tem ganhado cada vez mais adeptos na região, principalmente
entre não nikkeis. A associação atende atletas que
pagam mensalidade para treinar e aqueles integrantes do projeto social
Lutando para Ensinar, voltado para pessoas carentes de favelas
e da periferia do município. Todos treinam juntos. São mais
de 80 lutadores de 3 a 72 anos. Entre eles, estão cerca de 30 mulheres.
O projeto foi
criado por Cassiano Joaquim Gomes seis anos atrás. Ele é
funcionário público e foi adotado por uma família
de imigrantes japoneses. Há 26 anos, mantém uma academia
de artes marciais.
Os dois filhos
de Gomes também treinam sumô e, junto com outros praticantes
da associação, já alcançaram importantes conquistas
no âmbito nacional e internacional.
Os atletas
aprendem não só a lutar, mas também toda a disciplina
e a filosofia que envolvem a modalidade. Também são ministradas
aulas teóricas sobre a história do esporte nipônico.
A associação oferece também outros cursos e atividades,
como boxe, aikidô, tai chi chuan, e oficinas de mangá e ikebana,
das quais os atletas do projeto podem participar, desde que tenham o sumô
como principal atividade.
Quando há
alguma competição nacional, a escolha da equipe a ser enviada
é feita por votação entre atletas, técnicos
e pais. O critério levado em conta não é o técnico,
mas o disciplinar. Os mais votados são aqueles que apresentaram
bom comportamento em casa, tiraram boas notas na escola, ou conseguiram
um emprego.
Criatividade
para driblar a falta de recursos
Manter o projeto
social ao longo de todo esse tempo tem sido uma grande aventura,
como define Gomes. Seu trabalho inclui orientação às
famílias, além de alimentação e transporte
para os atletas. A permanente falta de recursos financeiros tem sido vencida
com muito esforço e criatividade, o que vem acontecendo desde o
início.
Logo depois
de montar o time, há seis anos, Gomes entrou em contato com a Confederação
Brasileira de Sumô (CBS) e pediu autorização para
assistir a um torneio que seria disputado em São Paulo. A CBS buscou
informações sobre o grupo e deu a resposta: em vez de apenas
assistir, a equipe poderia competir. A reação foi um misto
de alegria e nervosismo. Deu uma tremedeira, lembra Gomes.
Não tínhamos nem uniforme. No sumô, o
uniforme usado é o mawashi, uma longa faixa de tecido
grosso enrolada em volta da cintura do lutador, passando entre as pernas,
e que serve tanto para proteger as partes íntimas quanto para ser
agarrada pelo oponente no momento de aplicar os golpes. Mas, além
do mawashi, os atletas iriam precisar de dinheiro para o transporte, a
estadia, a alimentação e o pagamento das taxas de inscrição.
Foram, então,
organizados bingos, jantares e rifas com objetos doados. O dinheiro foi
conseguido, mas, para reduzir os custos, a equipe levou um fogão
no ônibus para cozinhar a própria comida, recurso utilizado
até hoje. Quanto ao uniforme, o jeito foi procurar,
em postos de caminhões, algumas lonas velhas que, cortadas em faixas
e costuradas à mão, renderam excelentes mawashis. Também
esse recurso é usado até hoje
Atualmente,
o projeto vive um momento de crise e de expectativa: o único auxílio
financeiro, que vem da prefeitura, foi suspenso há seis meses e
pode ser cancelado. O prefeito eleito em 2008 teve o registro da candidatura
cassado e, com a mudança de administração, ainda
não houve acordo para a retomada da ajuda de R$ 10 mil anuais.
Mesmo assim, Gomes não pensa em desistir. Ao contrário,
matriculou-se em cursos que ensinam como elaborar projetos que possam
ser contemplados com verbas públicas. Quando o pessoal está
desanimado, eu lembro a eles que, no sumô, você pode cair
10 vezes, mas vai levantar 12, diz. Para ele, o importante é
usar a tradição japonesa como ferramenta para melhorar a
vida de pessoas carentes: Aquilo que os imigrantes trouxeram para
o Brasil tem servido de exemplo e lição para os brasileiros.
Ele defende que também as tradições do sumô,
transmitidas ao longo de séculos, têm de ser mantidas. Mas
apenas com uma linguagem nova é que o esporte conseguirá
atrair mais praticantes e patrocínio. Por isso, aos 52 anos, Gomes
está passando o bastão: Estou trocando a minha diretoria
por um pessoal mais jovem.
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