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Crise faz dekassegui mudar hábitos de consumo
Brasileiros reaprendem a economizar com a queda dos salários no Japão
Mário Goto trocou o carro pela bicicleta: economizou dinheiro e ganhou mais saúde
 

Priscila em um restaurante no Japão:
frequência cada vez mais rara

Kátia Sakugawa (de boné) parou de ministrar cursos de aromaterapia

(Reportagem: Edgard Matsuki | Foto: Cedidas)

O alto nível salarial do Japão é um dos principais motivos que levam os brasileiros a trabalharem do outro lado do mundo. Porém, diante da forte crise que afetou a economia japonesa e da concorrência com a mão de obra de imigrantes de outros países da Ásia, esta realidade tem mudado. Com um salário pago por hora menor e a diminuição de horas extras, os rendimentos dos dekasseguis no fim do mês têm ficado cada vez menores.

Com a queda salarial, os dekasseguis se viram obrigados a mudar os hábitos de consumo.Até pouco tempo atrás, era comum ver os brasileiros gastando com carros, refeições fora de casa, viagens e, ainda assim, conseguindo juntar dinheiro. A crise fez os trabalhadores reaprenderem a economizar como se estivessem no Brasil.

Assim que o Japão entrou em recessão, a fábrica que Mário Goto trabalha, na cidade de Yatomi (Aichi), reduziu o salário dos funcionários de 1.200 para 1.000 ienes por hora. As horas extras também foram cortadas. “Trabalhá-vamos 11 horas por dia de segunda a sábado em dois turnos. Com a crise, acabou a hora extra, o expediente passou a ser de segunda a quinta-feira e quem estava no período noturno só fazia cinco horas de jornada”, conta Goto.

O brasileiro conseguiu se manter no Japão graças ao cortes de gastos que fez. “Nunca fui de esbanjar muito, mas tive de economizar mesmo. Uma coisa que procurei fazer foi andar mais de bicicleta. Além de poupar combustível, me ajudava na saúde”, conta Goto. Neste mês, as horas extras voltaram, mas ele não é muito otimista quanto ao futuro no Japão: “A tendência é piorar, pelo menos para os brasileiros”, prevê.

A aromaterapeuta Kátia Sakugawa sentiu na pele a queda no consumo dos dekasseguis. Com um negócio voltado aos brasileiros, ela diz que os rendimentos caíram mais de 50%: “As pessoas não têm dinheiro nem para comer, quanto mais para cuidar da saúde. Os clientes sumiram. Alunos de cursos nem se fala. Até os clientes mais antigos deixaram de fazer as sessões de aromaterapia e apenas compravam produtos”, diz Kátia.

A alternativa da aromaterapeuta foi entregar o apartamento em que morava sozinha para voltar a morar com os pais. “Eles tinham uma hortinha e dela tirávamos uma parte do nosso alimento. Deus nos abençoou”, agradece Kátia. Atualmente, ela está morando com a cunhada e tem esperanças que a situação melhore: “Pior do que estava não tem como ficar”.

Aprendizado

Pouco antes da crise, Priscila Kiguti planejava viajar para a França com seu marido. Com a vida estabilizada no Japão, o casal gastava bastante. “Quando chegamos ao Japão, sempre pensávamos em guardar dinheiro. Mas, para sair da rotina apartamento-fábrica, resolvemos viver mais e começamos a gastar mais”, afirma Kiguti.

Viagens, carros, roupas novas e jantares fora de casa faziam parte da vida do casal. Até que Priscila teve uma redução de 100 mil ienes no salário. “Nunca imaginávamos que viria uma crise como esta”, conta Priscila. Ela se diz feliz pela tão sonhada viagem para a França não ter sido feita. “Seria um rombo nas nossas despesas”, comenta ela.

Os hábitos dela e do marido mudaram completamente com a redução salarial. Em vez de ir a restaurantes passaram a cozinhar em casa. As roupas passaram a ser lavadas com a água do ofurô (banheira). Gastos como telefone também foram reduzidos. E as compras, antes normais, foram cortadas. “Gastávamos 400 mil ienes por mês. Agora dá para passar com 250 mil. Aprendemos a economizar”, garante Priscila.

Carlos Ishigaki, que trabalha em uma empresa que coloca brasileiros no mercado de trabalho japonês, diz que o futuro em relação ao salário é incerto. “Vai depender de como fica a crise e da demanda por mão de obra”, explica Ishigaki.

 
 
36.800 ienes
É quanto deixa de ganhar por mês um trabalhador que teve redução de 200 ienes do salário por hora.
 
34.500 ienes
É quanto perde por mês um trabalhador que deixou de fazer uma hora extra por dia.
 
48.000 ienes
É quanto perde por mês um trabalhador que deixa de trabalhar aos sábados.
 
*Salário base 1.200 ienes/hora
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