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Dekasseguis mudam de planos e adiam sonhos
Filhos e casamentos são os principais fatores que
fazem brasileiros no Japão protelarem seus objetivos
 

Hiroshi Ota: dez anos entre Brasil e Japão; abaixo, Maryan e a filha, Maria Clara

(Reportagem: Cinthia Yumi/NB | Foto: Arquivo Pessoa)

Nestes 20 anos de movimento dekassegui, não é raro ouvir histórias de pessoas que embarcam para o Japão sozinhas e voltam casadas e com filhos. Essa constituição de famílias brasileiras na terra do Sol Nascente é um dos principais fatores que levam uma grande parte dos dekasseguis à mudança de planos. “De início, esses vínculos afetivos são criados para suprir a falta da família e dos amigos. Entretanto, muitos deles se tornam relevantes ou definitivos para essas pessoas”, diz Júlia Saito, psicóloga especializada em terapia familiar.

A experiência foi constatada pelos paulistas Maryan Tanaka, 28, e Hiroshi Ota, 48. Antes de embarcar ao Japão, há pouco mais de três anos, Maryan sonhava em ser uma renomada gourmet no circuito paulistano. Ota, por sua vez, queria ser proprietário de um centro automotivo.

Hoje, ela é dona de casa e ele planeja retornar ao Japão enquanto faz bicos na lanchonete da irmã. “Não dá para generalizar, porque cada história é uma história. No entanto, o que acontece, muitas vezes, é que a pessoa tem de se adequar às novas experiências vividas no Japão e, com isso, ela se afasta do projeto inicial”, analisa Júlia.

Uma realidade diferente

Embora viva uma realidade bem diferente daquela projetada há alguns anos, Mayran não desistiu do sonho de cursar Gastronomia – apenas o adiou. “Vou esperar minha filha crescer para retomar o projeto da faculdade. Por enquanto, vou procurar trabalho na minha área de formação”, diz a nikkei, que é graduada em Administração de Empresas.

A filha de Maryan, Maria Clara, de 1 ano e 3 meses, é fruto de seu casamento com Carlos Eduardo. O agrônomo do interior paulista foi o responsável pela mudança de planos da nikkei. “Eu era bem urbana. Estava acostumada ao ritmo de São Paulo. Nunca imaginei que me casaria com um rapaz do interior e que viveria em uma cidade pequena”, diz. Hoje, a família vive em Colômbia. Localizada nas proximidades de Barretos, região norte de São Paulo, a cidade soma apenas 7 mil habitantes.

Carlos é funcionário da Casa da Agricultura da cidade, órgão ligado à prefeitura local. Maryan, por sua vez, dedica o tempo aos cuidados com a filha. “Depois que casamos e temos filhos, tudo muda. Quando você se torna mãe, acho que fica menos egoísta. O desejo individual não é a prioridade. Antes, penso na minha família”, sintetiza.

Influência geográfica

O geógrafo Ricardo Hirata Ferreira, doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), observa um detalhe importante na história de Maryan: a influência do fator geográfico. “Se estivessem no Brasil, a probabilidade de eles [Mayran e Carlos] se encontrarem seria muito pequena. Aí está um dos fatores positivos do fenômeno dekassegui, o de permitir a aproximação de nikkeis de vários Estados brasileiros no Japão”, diz.

Durante a pesquisa para a tese de doutorado sobre o tema “Migrações Internacionais: Brasil ou Japão. O Movimento de Inserção do Dekassegui no Espaço Geográfico pelo Consumo”, Ferreira identificou quatro grupos distintos dentro desse público: aqueles com metas fixas, que conseguem cumpri-las e retornam ao Brasil no período de tempo estabelecido; os que ficam no movimento pendular, ou seja, indo e vindo do Japão; o grupo dos que pretendem permanecer no Japão e até investe em imóveis e outros bens duráveis; e os filhos dos dekasseguis, que, na opinião de Ferreira, deverão ser o elo dos brasileiros à sociedade japonesa.

Na opinião do geógrafo, o grupo dos que ficam no movimento pendular é o mais consumista e, por consequência, o que acumula menos capital. “Acredito que também seja o grupo que mais se prejudicou com a crise econômica internacional”, complementa.

Nessa categoria, está o nikkei Hiroshi Ota, 48. Em dez anos de idas e vindas entre Japão e Brasil, ele conseguiu construir sua própria casa e teve experiência com alguns empreendimentos. Contudo, o sonho de ser um empresário do setor automotivo ficou para trás. “Quando fui ao Japão pela primeira vez, pretendia permanecer pouco tempo lá, apenas o suficiente para construir uma casa e abrir meu próprio negócio. Entretanto, voltei ao Brasil, montei um centro automotivo e não deu certo. Então tive de retornar ao Japão”, conta.

No arquipélago, Ota morou nas cidades de Yokohama, Tóquio e Saitama. Foi solteiro. Voltou casado, com dois filhos, e novos planos na cabeça. “Com família, os planos mudam. Então, vi que era difícil a recolocação no mercado de trabalho brasileiro e decidi continuar a trabalhar no Japão”, diz.

Os empreendimentos ainda não deram certo. Depois do centro automotivo, Ota já trabalhou com venda de pastéis na feira, como caminhoneiro, e até montou uma prestadora de serviços de manutenção elétrica. Agora, ele trabalha na lanchonete da irmã, mas avisa que é temporário: “Quero voltar ao Japão. Estou esperando essa crise passar”.

As crises econômicas e a busca pela estabilidade financeira são, segundo Ferreira, fatores que impulsionam os grandes fluxos migratórios contemporâneos.

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