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Brasil na rota dos japoneses
Segundo presidente da Jetro, mesmo diante da crise mundial, pelo menos 20 companhias confirmaram que vão investir por aqui entre 2009 e 2010
 

Sasaki: “Japão não tinha tempo para olhar para o Brasil”

(Reportagem: Susy Murakami/NB e Foto: Fábio Hide/NB)

O Brasil está bem cotado entre os japoneses, mesmo diante da crise. Em uma pesquisa do JBIC (Japan Bank for International Cooperation), junto a mais de 600 empresas em 2008, sobre os países mais promissores para investimentos, o Brasil ficou atrás apenas de China, Índia, Rússia e Tailândia. A posição verde amarela na lista foi também a que mais subiu em relação ao ano anterior: 10%. Todos os outros países à frente tiveram queda.

O diretor-presidente da Jetro (Japan External Trade Organization – órgão do governo para fomento do comércio exterior) no Brasil, Ko Sasaki, diz que a procura por informações sobre o Brasil é cada vez maior. Na lista de 2008, o país foi o sexto em consultas.

Segundo ele, é a primeira vez que um país da América Latina figura entre os dez. Em 2007, o Brasil ocupava a 17ª posição. “O Japão vê no Brasil, hoje, uma grande oportunidade de investimentos”, afirma. Não que antes o País não fosse um mercado atraente. Mas a prioridade estava na Ásia e o Japão, segundo palavras de Sasaki, não tinha tempo para olhar para o Brasil.

Além disso, a instabilidade econômica repelia investimentos. A moratória, a inflação alta e até a distância eram mais do que suficientes para manter os japoneses inseguros. Agora, eles enxergam um vasto mercado a ser conquistado.

A Mitsubishi adiou os investimentos que pretendia fazer no País, mas continua apostando no mercado local por meio de sua representante, a MMC Automotores do Brasil, transferindo parte de sua produção do Japão para cá. A fábrica de Catalão, em Goiás, deve ser ampliada e o Brasil será o ponto de referência para as vendas no Mercosul.

A Kawasaki passará a produzir no Brasil motocicletas, quadriciclos e jet ski em uma fábrica que está sendo instalada na Zona Franca de Manaus, com um investimento de US$ 40 milhões. Na área de eletrônicos, a Fujifilm lançará uma câmera de baixo custo na América Latina.

Sasaki revela que, ao todo, 20 companhias nipônicas já confirmaram que vão investir no Brasil entre este e o próximo ano. O que falta para que esse número seja maior é resolver alguns problemas, velhos conhecidos do empresariado: impostos e custos judiciais altos, infraestrutura igualmente cara e, por vezes, precária.

 
Demissões pelo Brasil

Nem todas as empresas japonesas instaladas no Brasil se livraram de tomar medidas duras desde que teve início a crise. A Furukawa, fabricante de soluções para rede de comunicação com sede em Curitiba, no Paraná, anunciou crescimento de 11% na receita bruta em 2008 em relação a 2007, o melhor resultado em cinco anos.

Mas a Furukawa não teve muito o que comemorar, já que os números de janeiro apontaram queda de 30% em relação ao mesmo período de um ano atrás. “Por enquanto, não há previsão de cortes de funcionários, mas temos reduzido despesas de forma severa desde o início da crise”, afirma o presidente da empresa, Foad Shaikhzadeh.

No Polo Industrial de Manaus, dados do Sindicato dos Metalúrgicos mostram que, entre outubro de 2008 e janeiro de 2009, foram registradas 11.437 demissões. O setor de eletrônicos é um dos mais afetados e Sony, Semp Toshiba e Panasonic estão na lista das que mais demitiram na Zona Franca. “Algumas das empresas japonesas tomaram ações fortes para conter gastos e reduzir estoques e isso se reflete nas atividades no Brasil”, diz Wilson Périco, presidente do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus.

As empresas ligadas ao setor automotivo também não foram poupadas. Enquanto as montadoras esforçam-se para não demitir, algumas de suas fornecedoras não conseguiram segurar o baque.

A Midori Atlântica, que fornece couro para Toyota, Honda e Nissan e havia anunciado, em 2008, expansão da planta em Uberaba, Minas Gerais – com investimentos de até R$ 57 milhões –, suspendeu o projeto. Desde o começo da crise, ela já demitiu cerca de 150 funcionários. “O motivo da demissão foi a queda brusca de pedido de couro fornecido para o setor automotivo”, diz Antônio Morioka, gerente-administrativo da empresa no Brasil.

A Pilkington, braço da Nippon Sheet Glass, uma das maiores fabricantes de vidros do mundo, tinha planos de investir R$ 128 milhões no Brasil para ampliar a produção em 50%. Mas, com a crise, o que aconteceu foi o corte de 135 funcionários na planta da capital paulista. É possível que ainda ocorram demissões na fábrica de Caçapava. A multinacional não havia respondido, até o fechamento desta edição, aos pedidos de entrevista.

Na Bridgestone, em Santo André, a situação também é delicada. A fabricante de pneus vem se reunindo constantemente com o sindicato da categoria e chegou a anunciar um programa de demissão voluntária não aceito pelos trabalhadores. Segundo o presidente do Sindicato dos Borracheiros de São Paulo e Região, Terezinho Martins da Rocha, a fábrica vem mantendo férias coletivas desde novembro do ano passado para cerca de 700 funcionários dos 3 mil no total, que atuam em revezamento.

 
Trio Toyota–Honda–Nissan mantém investimentos e empregos

Notícias de cortes de emprego e prejuízos de empresas japonesas têm sido constantes desde o início da crise. Multinacionais anunciaram demissões aos milhares. No Brasil, no entanto, algumas dessas empresas conseguiram manter os postos de trabalho e os investimentos previstos para os próximos anos.

No setor automotivo, a Toyota anunciou um programa de demissão voluntária para os 25 mil funcionários nos Estados Unidos e previsão de perdas globais de ¥ 350 bilhões (R$ 7 bi) no ano fiscal de 2008. No Japão e na Inglaterra, os cortes acontecem nos empregos temporários e nos níveis de produção.

No Brasil, apesar da queda de produção, a maior montadora do mundo divulgou, em janeiro, recordes de vendas locais em 2008, ultrapassando as 80 mil unidades e já anuncia alta de 12% no primeiro bimestre de 2009 em relação ao mesmo período do ano passado. No Japão, os números mostram que as vendas caíram 22,5% em janeiro e 32% em fevereiro.

Na fábrica da Toyota em Indaiatuba, interior de São Paulo, houve corte de horas extras e férias coletivas mais longas no fim do ano. Mas não houve demissões, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos.

A empresa também mantém os planos de construção da fábrica em Sorocaba, a 95 km de São Paulo, com previsão de início das operações para 2011. “A Toyota atribui isso ao fato de o mercado brasileiro estar sofrendo os efeitos da crise em uma proporção menor que nos países desenvolvidos”, declara a empresa.

A Honda anunciou, só em janeiro, cortes de mais de 3 mil empregos temporários no Japão. A produção global da empresa caiu 33,5% no primeiro mês de 2009 em relação ao mesmo período do ano anterior. No Brasil, a queda foi de pouco mais de 20%.

Na planta em Sumaré, a produção de carros diária de 680 caiu para 470 desde janeiro. Também ocorreram cortes na jornada de trabalho de três para dois turnos. Mas os funcionários estão tranquilos em relação à manutenção do emprego. “Não há temor de demissão por enquanto”, disse José Donizete Ferreira, funcionário da fábrica e dirigente local do Sindicato dos Metalúrgicos.

O gerente comercial da Honda no Brasil, Alberto Tescumo, confirma que demissões não estão nos planos da empresa. Assim como as outras, a Honda também precisou pisar no freio em meio à crise. Mas medidas como a redução do IPI (Impostos sobre Produtos Industrializados) estão ajudando as empresas do setor.

No setor de motocicletas, também houve ajustes, mas os investimentos previstos para 2009 estão garantidos. “Serão investidos de R$ 20 milhões a R$ 30 milhões entre modernização da fábrica e desenvolvimento de produtos”, revela Sérgio Bruno Pagnanelli, gerente de Relações Públicas da Honda América do Sul.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Manaus, no Amazonas, onde fica a fábrica de motos, houve um acordo com a empresa de redução de jornada de trabalho para evitar demissões. Essas reduções “serão compensadas no futuro”, segundo Pagnanelli.

A Nissan, que, no Brasil, atua em parceria com a Renault na fábrica em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba, anunciou cortes de 20 mil postos pelo mundo. O Brasil não foi atingido pela medida. A própria Renault suspendeu o contrato de 844 trabalhadores. Desses, metade deve retornar ao trabalho.

Já a Nissan está prestes a lançar um novo carro no País e pretende elevar de 19% para 30% a participação no mercado brasileiro. Com o início da fabricação do novo veículo no dia 12 de janeiro, as atividades na planta da montadora deram um salto.

Segundo o vice-presidente comercial da Nissan no Brasil, Tai Kawasaki, a empresa segue, no País, a mesma estratégia global: “Reduzindo custos e despesas não essenciais, administrando melhor o fluxo de caixa e monitorando constantemente o cenário econômico”. Mas as expectativas futuras para os negócios no Brasil são boas. “A Nissan vive um momento promissor. Se analisarmos o tamanho do País e o número de carros percapita, há ainda uma importante oportunidade de crescimento no mercado local”, declara.

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