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Reaprendendo
a viver no Brasil
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Para
os brasileiros que retornam do Japão, a readaptação
social e ao mercado de trabalho é um processo delicado e demorado
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Caso
a pessoa não tenha iniciativa e opte por ficar muito reclusa,
introspectiva, a família deve estar atenta para possíveis
sinais de depressão
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(Texto: Cinthia
Yumi/NB | Foto: Divulgação)
Ficar no Brasil
ou voltar ao Japão? Para muitos brasileiros, que, durante anos,
labutaram nas linhas de produção de companhias nipônicas,
a crise financeira que atingiu em cheio a segunda maior economia do mundo
não deixa muitas dúvidas: o ideal é mesmo ficar por
aqui. Voltar neste cenário de crise é loucura. Não
dá para ir ao Japão para passar fome. Mas nunca é
uma palavra muito forte. Costumo não dizer que dessa água
nunca mais beberei, diz a paulista Adriana Yaeko Ono Sabioni,
39, analista de suporte que voltaria ao Japão, mas desistiu da
empreitada, iniciada em 2003, por conta da crise.
Para quem volta
do Japão, a readaptação ao Brasil é um processo
delicado. O ex-dekassegui enfrenta não só o problema da
questão financeira, já que não terá o salário
ao qual estava acostumado no Japão, mas a readaptação
à vida familiar e social. O brasileiro que volta do Japão
tem que zerar o coração. As comparações são
inevitáveis, mas é preciso fazer ponderações,
ter humildade, usar a sabedoria e estar atento às oportunidades,
diz Elisa Massae Sasaki Pinheiro, mestre em Sociologia pela Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp).
De maneira
geral, quem ficou por algum período longe do Brasil tem uma lacuna
deixada para trás. O Brasil que ele deixou há dois,
três ou cinco anos atrás não é mais o mesmo.
Não só a situação política e econômica,
mas as pessoas mudaram e o ex-dekassegui tem de se adequar a essa nova
realidade. Ele tem de reaprender tudo sobre o meio familiar, social, usos
e costumes da sociedade. A situação é mais delicada
para o chefe de família, que tem de se reinserir no mercado de
trabalho, analisa a pedagoga Estela Okabayski Fuzzi, diretora do
Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa da Universidade Estadual
de Londrina (UEL), no Paraná.
Na opinião
dela, a palavra de ordem para o dekassegui conseguir a readaptação
é ser ativo. Trocando em miúdos, deve partir
dele próprio a iniciativa de reinserção social. Ele
não deve esperar que alguma instituição ou alguém
faça tudo por ele. Tem de ser prático, checar o que mudou
no meio político, econômico, social do Brasil, não
só lendo a respeito, mas visitando amigos, conferindo o movimento
no comércio, ou seja, no seu cotidiano mesmo, continua.
A pedagoga
indica dois caminhos para que o ex-dekassegui faça sua reinserção:
o primeiro é procurar pelo meio social conhecido, ou seja, amigos
e familiares. E o segundo é criar um novo meio. Os amigos
mais antigos são importantes, porque trazem familiaridade, confiança
quando a amizade é sincera. Mas as novas amizades também
o são, porque ampliam os horizontes, o que ajuda no âmbito
social e no profissional. Mas é sempre bom ter cautela com os novos
contatos. Não precisa ir contando tudo sobre a sua vida,
explica.
Caso a pessoa
não tenha iniciativa e opte por ficar muito reclusa, introspectiva,
a família deve estar atenta para possíveis sinais de depressão,
que podem levar a consequências mais graves. E, antes que algo ruim
aconteça, buscar por auxílio profissional.
(*Com
Helder Horikawa/NB)
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| O
difícil recomeço para quem viveu nas fábricas |
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Adriana Yaeko
Ono Sabioni voltou ao Brasil em março de 2008 para resolver problemas
de saúde. Trouxe a tiracolo o filho Augusto, hoje com 1 ano e 7
meses. O marido, Alex Sandro Sabioni, 31, ficou no Japão, de onde
chegou no mês passado. Este último voltará a Soja,
província de Okayama, na madrugada do dia 31 de janeiro. Adriana
também voltaria. Mas desistiu depois que a crise estourou.
Com a certeza
de que o Japão vai, aos poucos, ficando no passado, Adriana começou,
há duas semanas, a corrida para a recolocação no
mercado de trabalho brasileiro. Desde que retornou, está com os
sogros em Praia Grande, litoral sul de São Paulo. Mas já
contatou seu último emprego, uma empresa de informática
na capital paulista. Ouviu que suas possibilidades de obter novamente
a vaga são grandes. A resposta deve sair até 15 de fevereiro.
Com isso, estou mais tranqüila. Nem que demore um pouco, sei
que conseguirei um trabalho, diz.
Adriana foi
ao Japão, pela primeira vez, em 2003. Por isso mesmo, está
desatualizada com o mercado de informática. Nada que alguns cursos
de qualificação não resolva. Se não voltar
à antiga empresa, pode ser contratada por uma companhia parceira.
Por isso, já se prepara para enfrentar, ainda que temporariamente,
o vaivém diário entre Praia Grande e São Paulo.
Alex Sandro
deixa a mulher já sabendo que também não ficará
muito tempo no Japão. A crise é, sim, um empecilho. A empresa
onde trabalha, no setor de autopeças, só está funcionando
de segunda a quinta. As horas extras de sábado e domingo não
existem mais. Se for para trabalhar assim, não dá
para ficar. Arrumo as malas e volto ao Brasil, afirma. Mas a certeza
de sua volta é mesmo o vencimento do visto de permanência,
em agosto.
Na volta definitiva,
dentro de seis ou sete meses, se tudo der certo, Alex Sandro já
planeja retomar a carreira de corretor de seguros. Ou, em último
caso, pode acabar trabalhando com o pai na administração
de um estacionamento na zona leste de São Paulo.
Na corrida
por emprego no Brasil também está Eder Mukayama Vieira,
de Vargem Grande Paulista, na Grande São Paulo, que voltou do Japão
no dia 12 de dezembro. Ele havia embarcado para Hamamatsu, província
de Shizuoka, em setembro do ano passado, para trabalhar em uma fábrica
de automóveis. O objetivo era ficar pelo menos um ano. O sonho
durou apenas três meses, o último deles desempregado. Já
sabia da crise antes de trocar o Brasil pelo Japão, mas não
imaginava que a coisa estava tão feia. Para mim, o risco de ser
cortado era pequeno. Como pode uma crise acabar com um país em
dois meses?, indaga.
Eder não
era um marinheiro de primeira de viagem no Japão. Como tantos outros
dekasseguis, já tinha uma certa experiência. Embarcou para
lá em 2004, para trabalhar em Toyota, província de Aichi.
Voltou no final de 2007. Na época, fez cursos para aumentar suas
chances no mercado de trabalho. Só no Senai fez Administração,
Contabilidade e Logística.
De duas a três
vezes por semana, Eder está em São Paulo. Aproveita a viagem
para deixar currículos em empresas. Até agora, não
obteve sucesso. Por enquanto, estou tranquilo. Casei-me recentemente
e acabei por tornar-me papai. Ainda tenho uma reserva da minha primeira
passagem pelo Japão, mas não posso queimá-la,
argumenta.
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Retorno
com planejamento para evitar erros do passado
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O marido Vitor
de Laurentis, 46, tem emprego garantido em uma indústria de filtros
de ar condicionado em Hiratsuka, província de Kanagawa, somente
até março. Mas isso não impedirá que Érika
Sakamoto de Laurentis, 42, e o filho Victor, 18, embarquem para o Japão
no final de fevereiro.
Essa não
será a primeira vez que Vitor e Érika estarão juntos
no Japão. Em 96, o casal trocou a esfiharia que tinha em Iguape,
no Vale do Ribeira, por uma fábrica em Hamamatsu. Na época,
os filhos ficaram. Eles trabalharam em fábricas com jornadas de
13 horas por dia, seis dias na semana e, aos poucos, conseguiram uma boa
poupança. A volta ao Brasil ocorreu em 2004.
O casal De
Laurentis instalou-se em São José dos Campos. Com as economias
do Japão, compraram carros 0 km e adquiriram dois apartamentos,
um em São José mesmo e outro na Praia Grande, litoral paulista.
A má administração do capital fez com que Vitor voltasse
às fábricas japonesas ainda em 2004. Um novo retorno ao
Brasil ocorreria dois anos depois.
Capitalizado,
o casal investiu na abertura de uma loja de utensílios domésticos.
Antes de abrirmos a loja, fizemos um curso básico no Sebrae
sobre empreendedorismo. Fomos instruídos a participar de outros
cursos, mas achamos que já estávamos preparados e seguimos
em frente. Imaginava que bastava ser simpática e oferecer grande
variedade de produtos nas prateleiras, que daria certo diz Érika,
lamentando a sua ingenuidade.
A falta de
preparo fez com que o sonho de uma vida tranquila e estável desaparecesse.
Só acumularam dívidas. Em maio de 2008, o marido voltou
ao Japão mais uma vez. Agora, no mês que vem, esposa e um
dos filhos vão atrás para retomar os sonhos. Estamos
indo sem emprego definido, é um risco. Minha filha, Talita, 17,
ficará aqui para terminar os estudos. Não temos outra opção.
Perdemos tudo, mas continuo com muita esperança de que, unidos,
conseguiremos novamente. Acredito em um futuro próspero no Japão,
mas, dessa vez, tudo será muito bem planejado, cada passo dado,
cada centavo gasto. Não pretendo passar por todo esse aperto outra
vez, relata Érika.
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