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O difícil recomeço dos ex-dekasseguis
Brasileiro que retorna do Japão fica, em média, até quatro meses desempregado por aqui; melhores oportunidades estão no comércio e nos serviços

Leda Shimabukuro: procura por serviços do Grupo Nikkei aumentou nos últimos meses
 

(Texto: Cinthia Yumi/NB | Foto: Edson Komiya/Arquivo NB)

De volta ao Brasil, conseguir uma recolocação profissional não é uma missão fácil para o ex-dekassegui e depende de caso a caso. Não há números sobre o tempo médio que se demora para conseguir emprego no Brasil, mas, segundo estimativas do Grupo Nikkei – Instituto de Promoção Humana, o tempo médio para um ex-dekassegui conseguir recolocação no mercado de trabalho é de três a quatro meses. O grupo, que existe há dez anos e tem sede em São Paulo, faz o trabalho de recolocação profissional voluntariamente e, entre os candidatos, conta com muitos trabalhadores que voltaram do Japão.

Segundo a presidente do grupo, a empresária Leda Shimabukuro, com a crise financeira mundial, as consultas aos serviços da instituição têm aumentado nos últimos meses. “O que notamos é que muitos parentes aqui no Brasil já estão nos consultando sobre oportunidade de trabalho para familiares que estão para retornar do Japão”, conta.

De acordo com um levantamento do Grupo Nikkei feito entre 1999 e 2008, cerca de 30% do público atendido por eles é formado por ex-dekasseguis. De maneira geral, a maioria das pessoas que procura pelos serviços do grupo tem entre 21 e 30 anos e ensino médio completo. O índice de recolocação é de cerca de 13%. “Há um mito de que o ex-dekassegui só procura por bons salários, mas isso não é verdade. Muitos estão atuando no setor de serviços e atendimento em geral”, complementa Leda.

Esse é o caso do encarregado geral Wagner Kushiyama, 33. Depois de um período de 11 anos no Japão, ele retornou ao Brasil em maio passado com a idéia fixa de permanecer no país e não hesitou em aceitar a proposta do antigo chefe para retornar ao posto de trabalho em uma rotisseria.

Antes disso, no entanto, Kushiyama procurou por emprego em agências e enviou currículos via internet, somando cinco meses de “batalha”. “Não tive muitas opções. Alguns trabalhos eram temporários, outros com salários muito baixos. Por isso, quando meu antigo chefe me chamou, não pensei duas vezes”, conta ele, que assumiu o posto em novembro.

A rotina de trabalho é árdua – cerca de 12 horas por dia – de domingo a domingo. Com tanto trabalho, sobra pouco tempo para os estudos. “Pretendo retomar os estudos e, no futuro, quem sabe, montar meu próprio negócio no setor alimentício mesmo ou em outro setor”, finaliza.

Na opinião da consultora Dilza Muramoto, vice-presidente da Case Consultores, o ex-dekassegui deve “se mexer”, participando de eventos diversos, como feiras, conferências, palestras ou mesmo atividades de associações para ampliar os contatos. Outro ponto primordial é a apresentação de um bom currículo, que, além dos itens obrigatórios, como escolaridade, carreira profissional e idiomas, deve descrever o tempo de permanência no arquipélago, mesmo que a pessoa tenha exercido trabalhos braçais.

 
Disciplina e ambiente de trabalho podem ajudar

A permanência no Japão pode, para muitos, significar chances menores no mercado de trabalho brasileiro. Afinal, o dekassegui que desembarca no Brasil ficou, em média, dois a três anos em fábricas.

Na opinião de Leda Shimabukuro, porém, o aprendizado do idioma japonês e de regras de disciplina do ambiente de trabalho nipônico podem compensar a desvantagem do ex-dekassegui de estar desatualizado do mercado de trabalho. Qualidades que, segundo ela, são valorizadas por empresas de turismo especializadas em Japão e lojas de produtos japoneses.

Em São Paulo, a Daiwa, empresa que presta serviços em restituição do imposto de renda, tem preferência por ex-dekasseguis na hora da contratação. Em dezembro, havia vagas para assistente administrativo e de marketing. “Trabalhamos com documentação entre o Brasil e o Japão, por isso, uma pessoa com conhecimento do idioma e que tenha vivido no país tem vantagem para conquistar a vaga”, conta Jorge Nakaoka.

Segundo a Associação Brasileira de Dekasseguis, com sede em Curitiba, Paraná, o setor comercial pode ser uma grande porta de entrada para os dekasseguis no retorno ao mercado de trabalho. No site da entidade, havia anúncio de vagas para vendedores em concessionárias de veículos, lojas de shoppings e recepcionistas para hospitais. A maioria das oportunidades exigia apenas o segundo grau completo.

O Consórcio Globo Renaut, por exemplo, tinha três vagas abertas para vendedores no final do ano. Era necessário ter um pouco de experiência na área, mas, segundo o gerente de vendas Hemerson Rodrigues, o perfil dinâmico do candidato é mais importante do que a experiência. “Às vezes, a pessoa tem experiência e tem vícios de trabalho. É melhor contratar alguém com menos experiência, mas muita vontade de vencer”, diz Rodrigues.

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