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Arquivo NippoBrasil - Edição 172 - 11 a 17 de setembro de 2002
 
Turismo Cultural em Paranapiacaba
Paranapiacaba, um patrimônio cultural, tecnológico e arquitetônico

Neblina, à tarde, na Ferrovia São Paulo Railway:
setembro é mês propício para curtir essa paisagem
 

Detalhe da arquitetura das casas inglesas,
de madeira, construídas em 1897

(Issao Minami / Fotos: Adauto Gonçalves Rodrigues / Arquivo Nippo)

Vila de Paranapiacaba, outrora Alto da Serra, é um núcleo urbano tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, em 1987, conjuntamente com o complexo ferroviário que deu origem à Vila e, também, com o entorno próximo, que é uma reserva biológica de grande importância para o ecossistema da Serra do Mar. Agora, neste ano, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) finalmente considerou também a Vila um patrimônio histórico nacional.

Este complexo foi planejado, empreendido, construído e mantido pela “São Paulo Railway Co. Ltd.”, uma “single-enterprise” ferroviária, de 1860 até 1946. Nesse período, Alto da Serra foi um modelo de vila operária que nasceu e sempre viveu em função de uma única atividade e onde imperou uma relação de paternalismo entre os trabalhadores e a empresa. Historicamente, Alto da Serra é composta pela junção de três partes: a Vila Velha, que é o núcleo original, a Vila Martin Smith, a parte projetada, e a Parte Alta ou a Vila dos Aposentados.


Cabine de controle da ferrovia desativada; ao fundo, o relógio trazido
pelos ingleses, ainda em funcionamento, uma espécie de Big Ben

Cenário para muitos filmes

Alto da Serra já em 1887 despertava o interesse de Júlio Ribeiro, que retratou, em seu romance “A Carne”, passagens neste lugarejo. Com a chegada do cinema, no entanto, a bucólica povoação, sempre envolta numa densa neblina, tornou-se locação preferida pelos cineastas e publicitários nacionais.


Locobreque que transportou os imigrantes; hoje, só para exposição. Também, ponte que separa o lado português do lado inglês da Vila, local da exposição fotográfica “Vistas da Ponte”, ao ar livre


Máquina fixa de 1921 e desativada na década de 80: em exposição no Museu Ferroviário

José Mojica Marins, o “Zé do Caixão”, utilizou Paranapiacaba para seus filmes de terror. João Batista de Andrade, inspirado num romance de Geraldo Ferraz, fez com que Paranapiacaba se transformasse na irrequieta cidade de Cordilheira, com suas casas de madeira e o trabalho ferroviário ao dirigir “Doramundo”, estrelado por Antonio Fagundes, Irene Ravache e Rolando Boldrin. Pelé também contracenou em “A Marcha” junto às casas de madeira da Vila. Da mesma forma, o cineasta José de Anchieta rodou seu “Parada 88”, um filme explorando tema ecológico e estrelado por Regina Duarte. Um filme de curta metragem, “Alerta Final”, também foi filmado no povoado.

As cenas de desembarque dos imigrantes japoneses em “Gaijin”, de Tizuka Yamazaki, também foram rodadas na antiga estação. Muitos filmes para publicidade e até uma novela, “Um Homem muito Especial”, se utilizaram da cidade, dos cenários naturais que ela oferece, como a antiga estação e as casas de madeira da Martin Smith.

Aula de arquitetura e engenharia

Naturalmente, Paranapiacaba não só oferece o seu cenário. Possui vegetação exuberante, formando uma imensa reserva biológica. Um clima agradabilíssimo como também uma boa água colhida da serra são requisitos que a torna rota de excursionistas e escoteiros, além de centro de atenções de estudantes, de todos os níveis, à procura de um pouco de história. Eles acabam por encontrar uma verdadeira aula de história da técnica e da engenharia nas obras de arte da construção ferroviária mostradas in loco na Vila e na Serra do Mar e também de uma mostra de exemplos significativos da arquitetura e do sistema construtivo em madeira da Vila Martin Smith e sua implantação exemplar. Oferece, assim, um roteiro de visitação interessante pelo seu aspecto pedagógico-cultural .

 

Para não deixar a Vila acabar

Após a encampação, em 1946, pelo governo federal, aos poucos os sistemas ferroviários originalmente construídos em 1867 e 1901, para a subida e descida da serra, foram sendo substituídos e desativados. Hoje, este patrimônio cultural imenso, constituído pelos equipamentos ferroviários, funiculares, vila operária e seu entorno próximo, formando o Sistema Paranapiacaba, apesar de tombado como um bem cultural, padece, necessitando de urgente intervenção no sentido de inverter o seu rápido estado de degradação física. Atualmente, sérias e contínuas ameaças de descaracterização, instituídas, comprometem irreversivelmente todo este complexo.

Portanto, em respeito a pelo menos seu memorável passado, necessita-se com urgência repensar e redirecionar sua destinação e medidas que impeçam a deterioração de seu espaço constituído pelo patrimônio arquitetônico e ferroviário. A gravidade da situação exige uma postura da sociedade como um todo, pois tomando a Vila de Paranapiacaba como exemplo, o momento exige seriedade de todos os órgãos que têm o dever de zelar pelas condições de preservação dos nossos bens culturais. A SPR Paranap, por meio da Semana do Ferroviário, está fazendo a sua parte.

 
* Prof. Dr. Issao Minami da FAU (Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da Universidade de São Paulo)
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