Karatê Kyokushin: a arte de aprofundar-se na verdade

Por Suzana Sakai

O golpe deve ser certeiro, são milhões à espera do resultado. Mais que uma batalha com o adversário, é uma disputa consigo mesmo. Força, expectativa, emoção, e muita torcida. Assim pode ser descrito um campeonato de karatê Kyokushin no Japão, que encanta os japoneses tanto quanto o futebol vibra para os brasileiros.

O Kyokushin foi criado no Japão por Masutatsu Oyama, há mais de 50 anos e se espalhou por todo o mundo. Kyokushin significa "aprofundar-se na verdade" e traz em sua ideologia o espírito de guerreiro, o sentimento de contribuição na sociedade, o auto-controle, o fortalecimento interior e a luta consigo mesmo.

Foi o próprio Oyama quem se encarregou de demonstrar o Kyokushin para o mundo. O esporte se destacou e ganhou muita força. De sua criação até os dias atuais, já foram realizados oito mundiais. Sete títulos ficaram no Japão e apenas um foi para um país estrangeiro: o Brasil.

A vitória brasileira ocorreu no sétimo campeonato, na categoria super pesados, com Franscisco Filho. O campeão acredita que o Brasil foi o único a conseguir essa vitória por ter a mesma garra que o Japão. "A garra e a determinação de japonês e brasileiro é praticamente a mesma. O mestre Shihan Isobe ensinou o Kyokushin que é ensinado no Japão, e isso deu muita força para o Brasil", explicou Franscisco.

 
Kyokushin no Brasil

O Kyokushin chegou ao Brasil em 1972, pelo professor Shihan Isobe, que montou a primeira academia brasileira. Isobe manteve firmemente os ideais japoneses da arte marcial, o que favoreceu o esporte no país. A garra japonesa fez com que o Brasil se tornasse um dos destaques mundiais. "O Kyokushin no Japão é muito forte. As pessoas torcem e vibram muito. É tão emocionante quanto um jogo de futebol aqui do Brasil", conta Ulisses Ryuji Isobe, filho do divulgador do Kyokushin no Brasil.

Campeão Sul-Americano na categoria leve, Ulisses, de 27 anos, acredita que sua melhor qualidade é a determinação, pois nunca desiste de alcançar a vitória. Além de competir, ele trabalha na administração de sua academia.

Na vida pessoal, o atleta sonha em casar e ter filhos. A escolhida é a apresentadora nikkei Joana, da Rede TV!. "Se tivesse apenas 24 horas de vida, sem dúvida passaria ao lado da minha noiva", revela.

Para quem está começando, Ulisses, 3º Dan do Kyokushin, dá a dica: "muito treino e determinação". O sensei Francisco Filho acha fundamental a força da mente. "Se você colocar na cabeça que vai conseguir e não ceder, você vai conseguir e sempre vai querer ultrapassar os obstáculos", ensinou.

 
Regras e golpes

Segundo Francisco Filho, o forte dos lutadores do Brasil é o chute. "O brasileiro é muito temido pelo chute, ele chuta melhor do que os outros atletas", afirmou o sensei. O Kyokushin se difere dos demais estilos de karatê pelo contato. No entanto, existem algumas restrições. No esporte não é permitido agarrar, soco no rosto e golpe no genital. O chute no rosto é válido para chamar a atenção do atleta, pois o rosto é o meio mais fácil de ocasionar o nocaute.

Os golpes mais usados são:


- Chudan Tsuki - soco na altura do ombro

- Gedan Mawashi Geri - chute na perna

- Kakato Geri -
chute de cima para baixo

- Ushiro Geri - chute girando

- Mae Tobi Geri - que é o chute pulando

"A base do japonês é muito soco e chute na perna. A base do europeu é o pé, ele fica pulando e entra e sai muito, mas a base do brasileiro é o chute, por isso há uma grande variação desse golpe", explicou Francisco Filho.

 
Graduação, treino e vestimenta

O Kyokushin é dividido em sete faixas: branca, laranja, azul, amarela, verde, marrom e preta. O exame até a faixa marrom é realizado de quatro em quatro meses. A partir da faixa preta, apenas uma vez por ano, sempre no mês de dezembro.

A vestimenta utilizada é o doguí, aquela roupa branca que é presa pelo obi (faixa). Durante o treinamento, é usada apenas a calça do doguí e uma camiseta.

Os treinos são realizados com duas a três aulas por dia. Quando o atleta está prestes a participar de algum campeonato, passa a ter aulas especiais. Não há restrição para praticar a arte marcial. É aberto para todas as idades e sexos. "Começou a andar, falar, raciocinar já pode treinar", explicou Francisco Filho ao lembrar de um menino que começou a treinar com 2 anos, e aos 5, já era faixa preta.

Na preparação para o campeonato, além dos treinos mais puxados, os atletas devem ficar dois meses sem sair, sem ingerir bebidas alcoólicas e com uma dieta rigorosa. A equipe brasileira, ao ser questionada sobre as privações, foi unânime na resposta: "Vale a pena!".

 

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