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O poço das violetas

(Crédito das imagens: Divulgação)



Pela abundância de cerejeiras na primavera e por ter sido cenário de batalhas sangrentas ao longo da história. Ao pé da montanha, fica o penhasco Shimizu, apelidado de poço das violetas, por estar cheio de flores.

Há muitos e muitos anos, Hime, uma bela princesa de 16 anos, filha de Asano Zembei, o senhor feudal da região, chegou ao vale, acompanhada de suas damas para colher flores campestres.

Quando Hime esticou sua mão para colher as violetas roxas, uma grande serpente da montanha surgiu entre as plantas, fazendo-a gritar e desmaiar de susto.

Matsu, uma das acompanhantes, ouviu o grito da princesa e, ao vê-la desmaiada, constatou que uma serpente verde estava enrolada ao lado de sua cabeça. Instintivamente, atirou seu cesto de flores na serpente, que fugiu, deslizando pela relva.

As meninas esfregaram as mãos da princesinha e tentaram recuperar seus sentidos. Porém, ela foi ficando mais pálida.

Nesse momento, ouviram uma voz:

– Não se desesperem. Posso ajudar a princesinha, se me permitirem.

Quando elas levantaram as cabeças, viram um belo jovem vestido como onmyoji (mestre do Ying e Yang em chinês).

– Parece um tennin (anjo celeste) – comentou baixinho uma das meninas.

O jovem tomou o pulso da princesa. No pé esquerdo, encontrou marcas das presas da serpente. Tirou do bolso um frasco com um remédio que, com a ajuda de Matsu, fez a Princesinha beber.

Algum tempo depois, Hime despertou e, aos poucos, foi ficando boa.

– Graças ao seu medicamento, estou salva. Posso saber o seu nome?

O curandeiro não respondeu, mas deu um sorriso de satisfação e afastou-se até desaparecer nas névoas da primavera.

No palácio e sabendo do ocorrido, os pais de Hime ficaram satisfeitos pela recuperação da filha. Nos quatro dias que se seguiram, Hime recuperou a saúde. Mas, no quinto dia, ficou acamada. Não conseguia dormir, não tinha vontade de falar e foi enfraquecendo dia a dia.

Asano Zembei e sua esposa fizeram de tudo para salvar a filha. Naquele clima de lamúrias Matsu pediu audiência com o senhor feudal. Diante das circunstâncias, ele consentiu em ouvi-la.

Matsu contou ao senhor feudal que a doença de Hime não se curava com remédios. Disse que ela estava completamente apaixonada pelo seu jovem benfeitor.

– E quem é esse moço? Qual é o nome dele? – perguntou Asano.

– É um curandeiro jovem, educado, mas não disse seu nome. Deve ter nascido nas classes sociais mais baixas. A classe dos párias, dos etas. Seu nome deve ser Yoshisawa, estava escrito no frasco de remédio que ele deu à Princesinha.

A mãe de Hime sugeriu ao marido dizer à filha que entrevistariam o moço como pretendente à sua mão em casamento.

– Sabemos que esse casamento é impossível. Porém, devemos guardar segredo e ganhar tempo para que ela se recupere. Isso vai devolver as energias a nossa filha!

Hime soube por sua mãe que seu pai entrevistaria seu amado como seu pretendente e sua vida voltou ao normal. Então, ela foi à sala de audiências do palácio.

– Minha querida – disse Asano – é impossível sua união com seu amado. Embora ele seja um moço de excelente qualidade, tem origem eta. A partir de hoje, o nome dele não deve ser mencionado.

Na manhã seguinte, Hime havia desaparecido. Três dias depois, encontraram seu corpo coberto pelas violetas do vale. Inconsolável, Yoshisawa, atirou-se do penhasco Shimizu.


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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