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Caderno Lendas do Japão

Jirohei no Sakura no Ki - Parte I

Cláudio Seto*

Na região norte de Quioto, existe um santuário xintô (religião nativa do Japão) de nome Hirano Jinja. Esse rincão sagrado é conhecido por suas preciosas árvores de cerejeiras. Entre essas árvores, existe uma centenária cerejeira (sakura), apelidada de Jirohei no Sakura. Essa árvore é, atualmente, uma atração turística. Durante sua floração, na primavera, muitas pessoas vão ao santuário para apreciar as flores e fazer pedidos de graças.

Antigamente, havia uma grande e próspera casa de chá próximo dessa cerejeira, cujo dono se chamava Jirohei. Ele iniciou seu negócio com um modesto casebre e ganhou dinheiro rapidamente. Assim, atribuía sua prosperidade às virtudes daquela velha árvore e não parava de agradecer. Sua veneração ia além das orações e agradecimentos; também a cercava de cuidados, aguando-a, estercando e impedindo que os garotos da localidade escalassem ou quebrassem seus galhos. Assim, a árvore foi prosperando junto com a casa de chá de Jirohei.

Certo dia, um samurai chegou ao templo de Hirano e resolveu descansar na casa de chá. Sentou-se num banco e ficou apreciando a floração da cerejeira. Era um homem mal-encarado, forte e de grande estatura.

– Você é o dono desta casa de chá? – perguntou o samurai.

– Sim, senhor, sou eu mesmo, deseja alguma coisa? – respondeu Jirohei.

– Não obrigado. Você tem uma bela cerejeira diante seu estabelecimento.

– Sim, senhor. Esta é uma árvore auspiciosa, a ela devo minha prosperidade. Agradeço que o senhor tenha expressado sua admiração por ela.

– Eu quero um galho bem florido dessa árvore, vou levar de presente para uma gueixa!

– Sinto muito, senhor, mas não posso atender seu pedido. Os sacerdotes do santuário me ordenaram a não deixar que nenhum galho desta árvore seja cortado, não importando quem quer que faça o pedido. De modo que peço sua compreensão. No mais, existe um velho ditado que diz: “Podemos cortar o galho florido da ameixeira para enfeitar o vaso, mas nunca o galho de cerejeira”.

– Você é um tipo de pessoa bem falante, desagradável e um tanto ingênuo; quando eu digo que quero uma coisa, você simplesmente deve ir buscar correndo. Portanto, vá cortar um belo galho da cerejeira para mim.

– Compreendo que o senhor é uma pessoa determinada, mas, ainda assim, devo recusar seu pedido – disse Jirohei educadamente.

– Não estou fazendo um pedido, meu caro, estou lhe dando uma ordem. Mas, como sua recusa é dita educadamente e com muito respeito, não vou obrigá-lo a cortar-me um galho de cerejeira. Eu mesmo o farei com minha afiada espada.

Assim dizendo, o samurai levantou-se e sacou sua espada. E foi junto à árvore para decepar um belo galho florido da cerejeira. Jirohei correu atrás e agarrou o braço do guerreiro, tentando impedir que ele cortasse tal ramo.

– Por favor, senhor samurai, não faça isso, não macule a árvore. Ofereço minha vida em troca do galho de sakura.

– Você é um idiota. Ninguém em sã consciência desvia um samurai de seu objetivo.

Assim dizendo, cortou um galho florido de sakura . Jirohei, tentando proteger o galho, entrou na frente do samurai. O golpe de espada, além de cortar o galho, rasgou o peito e a barriga do dono da casa de chá. Ensangüentado, Jirohei abraçou a cerejeira depois do golpe fatal. O samurai, vendo que o homem estava morrendo, afastou-se do local o mais depressa possível...


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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