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Caderno Lendas do Japão

Jirohei no Sakura no Ki - Parte Final

Cláudio Seto*

Quando a esposa de Jirohei e os empregados da casa de chá saíram para ver o que estava acontecendo, encontraram-no morto abraçado firmemente à árvore.

Daquele dia em diante, a casa de chá foi declinando pela falta de fregueses. O fato de alguém ter sido assassinado bem em frete a casa causava desconforto aos tradicionais freqüentadores que, aos poucos, foram sumindo, até desaparecerem completamente. Paralelamente, também a árvore começou a perder folhas até secar por inteiro. Obrigada a fechar a casa de chá, a viúva de Jihorei ficou sem razão para continuar vivendo e resolveu ir ao encontro ao seu marido, enforcando-se num galho seco da árvore moribunda.

Ela foi encontrada pendurada na enorme árvore seca numa noite de lua cheia. O cenário era horripilante. Depois disso, correu a notícia de que alguém tinha visto um fantasma circundando a cerejeira seca. Assim, ninguém se atrevia passar por lá após o anoitecer.

A casa de chá tornou-se uma ruína e começou a despencar. Então, o povo resolveu levantar um templo no local para ver se conseguia exorcizar o fantasma da árvore seca. Como o fantasma continuou aparecendo, o templo tornou-se impopular e praticamente sem freqüentadores. Por outro lado, ninguém tinha coragem de cortar a árvore que Jirohei havia defendido com a própria vida.

Como ninguém tinha visto sua cara, o samurai que matou Jirohei ficou calado e ninguém soube de seu segredo. Acontece que seu filho, um jovem samurai, intrigado com essa história de aparição, resolveu tirar o caso a limpo. Assim, comunicou aos amigos e familiares sua intenção de permanecer à noite perto da cerejeira seca. Caso o jovem samurai conseguisse, de alguma forma, exorcizar o fantasma, ganharia fama e garantiria um bom salário em algum castelo da redondeza.

Consta que, na noite do terceiro dia do terceiro ano da Era Keio (1865), o jovem samurai, apesar da tentativa de seu pai em não o deixar ir, foi sozinho e bem armado ao templo. Lá chegando, ficou escondido atrás de uma lanterna de pedra (ishidoro) observado a cerejeira seca.

Para seu espanto, quando chegou a hora do boi, a cerejeira seca repentinamente tornou-se coberta de flores, como no dia em que Jirohei foi assassinado. Vendo aquele fenômeno assombroso, o jovem samurai sacou de sua espada e atacou com fúria a árvore. Deu golpes violentos, cavando enormes sulcos no tronco da cerejeira. Nesse momento, ouviu gritos agonizantes que lhe pareceram vir de dentro do tronco. Depois, bastante exausto dos golpes, revolveu descansar à espera da aurora, para ver os danos que tinha causado na árvore assombrada.

Quando o dia clareou, o jovem samurai encontrou o corpo de seu pai retalhado junto ao tronco da cerejeira. Certamente, seu pai veio ao local com medo de que algo de mal pudesse acontecer ao filho. O jovem ficou desesperado ao ver o que tinha feito a seu pai.

Depois daquela noite, o fantasma da cerejeira nunca mais apareceu. Dizem que a cerejeira voltou à vida e continuou florindo todos os anos. Ninguém até hoje sabe explicar se o fantasma que apareceu era de Jirohei ou de sus esposa, que morreu enforcada. E existem teorias de que a cerejeira, quando teve o galho cortado pelo samurai, entrou em estado de choque, permanecendo numa espécie de hibernação até que o jovem samurai fizesse sulcos no tronco.


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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