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(Texto e Ilustração:
Cláudio Seto)

Dádiva da deusa Kichijoten ao jovem
e humilde Yotsune tirou o rapaz da miséria |
Há
muitos e muitos anos, havia em Ikue, província de Echizen, um jovem
muito pobre chamado Yotsune, que nada tinha para comer. Diante de tamanha
penúria, rezou com toda a força que lhe restava para a deusa
Kichijoten, pedindo ajuda para se livrar daquela situação
miserável. Pouco depois, uma linda mulher veio em sua direção,
estendeu tigela de arroz cozido e disse:
Coma devagar, pois vejo que faz dias que você não come.
Agradecido,
Yotsune recebeu a tigela e um pouco que comeu se deu por satisfeito. Então,
guardou a tigela para comer mais tarde. Porém, o pouco que comeu
daquela tigela foi o suficiente para passar três dias sem ter fome.
No quarto dia, comeu o restante, o que foi suficiente para passar o resto
da semana sem fome.
Na
semana seguinte, a fome voltou e já não havia arroz na tigela
para comer. Então, Yotsune novamente orou pedindo ajuda a deusa
Kichijoten. Mais uma vez, a linda mulher surgiu em sua frente e disse
lamentar muito, pois, desta vez, não poderia ajudá-lo diretamente.
Ele deveria ir buscar o arroz pessoalmente. Assim, entregou-lhe um papel
que continha um certificado autorizando a retirada de arroz equivalente
à produção de três alqueires.
Onde devo buscar esse arroz? perguntou Yotsune.
Vá até o Kitayama (Serra do Norte) e procure pelo
pico mais alto. Escale o pico e grite, dizendo que veio buscar arroz.
Alguém vai aparecer e lhe entregar o arroz.
Com muito esforço, Yotsune conseguiu chegar ao ponto mais alto
da serra e gritou várias vezes:
Tem alguém aí? Vim buscar o arroz!
A
resposta veio através de uma voz medonha e, em seguida, um vulto
enorme veio em sua direção. Yotsune, que já estava
pálido de fome, ficou mais pálido ainda de tanto medo. O
vulto era uma criatura demoníaca com um só olho na meio
da face e um chifre na testa. Seu corpo enorme e musculoso estava coberto
apenas por uma tanga vermelha. No ombro, trazia um saco de arroz.
Yotsune,
apesar de estar muito assustado, procurou mostrar calma e autoridade,
numa demonstração de coragem, dizendo:
Vim buscar arroz. Aqui está o certificado.
O demônio pôs o saco de arroz no chão, apanhou o papel
e deu uma olhada:
Aqui diz arroz equivalente a três alqueires, porém
só tenho um saco. Se estiver bem assim, pode levar este saco. Caso
queira tudo de uma vez, deve reclamar à deusa Kichijoten.
Um saco de arroz já é mais do que tive em toda minha
vida, não devo reclamar por ganância, e sim agradecer por
tudo que a deusa tem feito por mim dizendo isso, Yotsune agradeceu
ao demônio e levou o saco para casa. Ora carregando e ora rolando
a carga, voltou feliz da vida.
Os
dias foram passando e Yotsune aos poucos foi consumindo o arroz. Porém,
um fato chamou sua atenção. À medida que ele tirava
cada tigela de arroz, o mesmo tanto era reposto no saco, como magia. Assim,
o rapaz descobriu que aquele saco nunca acabava, porque tornava a encher
sozinho. Diante desse milagre, passou a vender arroz para a vizinhança
e ganhou muito dinheiro. O saco de arroz encantado ganhou fama e pessoas
de várias cidades passaram a vir comprar arroz de Yotsune, atraídas
pela curiosidade. Assim, Yotsune acabou tornando um homem rico.
A
milagrosa história de Yotsune chegou ao ouvido do governador da
província. Este quis a todo custo comprar o saco encantado e ofereceu
em troca arroz equivalente a produção de cem alqueires em
sacas de arroz. Sem poder recusar, pois o dono das terras de toda região
era do governador, Yotsune foi obrigado a aceitar a oferta. Isso o tornou
um milionário de uma vez.
Levado
para o castelo feudal, o saco continuou auto-enchendo como antes. O governador
ficou muito feliz, pois, agora, haveria arroz garantido, mesmo que houvesse
inundações ou seca em suas terras. Porém, passado
algum tempo, quando foi retirado do saco arroz equivalente a produção
de cem alqueires, o saco parou de repor o produto tirado e tornou-se vazio.
O
governador ficou furioso e pensou em mandar degolar o rico Yotsune, porém,
nessa ocasião, estava em visita ao seu castelo o conhecido mago
e andarilho, onmyoji Shamon, e o governador consultou-o a esse respeito.
Mestre, o que acha? Devo mandar cortar a cabeça desse jovem
que se atreveu a me enganar?
Jamais, meu caro governador. Quem quis o saco que era dele foi
o senhor. Foi tolice de sua parte querer para si o prêmio dado especialmente
ao rapaz como mérito por sua devoção à deusa
Kichijoten. Considere-se justiçado pelo fato de o saco ter devolvido
o arroz que o senhor pagou para o rapaz.
Dizem
que o governador devolveu o saco a Yotsune e, uma vez na casa dele, o
saco voltou a encher, tornando-se novamente inesgotável.
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