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Caderno Lendas do Japão

Kin no ono (O machado de ouro)

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Há muitos e muitos anos no Japão, havia, num vilarejo ao pé da montanha, um casal de velhinhos muito bondoso. Certa ocasião, o velhinho foi cortar lenha como de costume. Embrenhou-se na mata e começou a trabalhar perto de uma bela cachoeira, cuja queda d’água formava um lago.

Quando o velhinho estava picando galhos secos de árvores para fazer lenhas, a cabeça do machado desprendeu-se do cabo e voou para dentro do lago. Com muita dificuldade, o velhinho desceu até a margem do lago, preocupado em recuperar aquela importante ferramenta de trabalho. Como o lago era fundo, o velhinho ficou sem saber o que fazer.

Então, ocorreu-lhe fazer uma prece pedindo ao deus do lago que lhe ajudasse a recuperar seu instrumento de trabalho. Antigamente, os japoneses desconheciam religiões estrangeiras e todos, influenciados pela religião nativa xintoísta, acreditavam que em todas as coisas da natureza existia um deus que nelas habitava. Assim que acabou de rezar pedindo a graça de recuperar seu machado, o velhinho viu uma enorme carpa dourada saltando sobre a água com algo de intenso brilho na boca. Em seguida, o peixe veio em direção ao velho trazendo a cabeça de um machado. Quando ele chegou junto à margem, o velhinho ficou surpreso ao ver que o machado era de ouro.

O peixe fez um gesto com a cabeça e o ancião entendeu que estava lhe oferecendo o machado dourado. Mas o velhinho era honesto demais para aceitar aquilo que não lhe pertencia.

– Obrigado, mas não posso aceitar. Este machado de ouro não é o meu. O meu é um machado é de ferro, um tanto gasto, de tanto me ajudar no trabalho.

Então, a carpa deu meia-volta, mergulhou para o fundo do lago e voltou com a velha cabeça do machado de ferro na boca.

O velhinho esticou a mão apanhou o machado. Em seguida, fez reverências agradecendo respeitosamente a grande carpa, que ele sabia que era o deus do lago. Assim que o peixe voltou a mergulhar, o velho lenhador voltou para casa feliz por ter recuperado seu bom machado.

Em casa, contou à sua esposa o ocorrido e ela sentiu grande alegria ao saber que o deus do lago ajudou seu marido a recuperar o machado de ferro. O velhinho pensou em colocar um cabo novo, mas a velhinha aconselhou-o a deixar para o dia seguinte, pois o dia havia sido muito cansativo.

Na manhã seguinte, quando acordaram, os dois tiveram uma bela surpresa. O machado de ferro havia se transformado em uma peça de ouro maciço.

– Se é da vontade insistente do deus do lago, devemos aceitar de bom grado – disse o velhinho agradecido.

Na casa vizinha, morava um casal de velhos muito preguiçoso. Diariamente, a vizinha vinha emprestar lenha, pois achavam muito trabalhoso buscar na mata. Assim, como de costume naquela manhã, a vizinha veio emprestar lenha e deparou com os velhinhos admirando o machado de ouro. Ao ver aquela peça dourada, os olhos dela quase saltaram de tenta cobiça.

– Meu Deus! Esse machado deve valer uma fortuna! Como conseguiram esse tesouro?

Então o velhinho contou todo o ocorrido no dia anterior. A vizinha voltou correndo para casa, contou a história para o marido e mandou que ele fosse ao lago da cachoeira, fazer encenação de que estava cortando lenha e derrubar o martelo na água.

O vizinho chegou no mesmo local e fingiu que estava cortando lenha. De repente, deixou o machado cair na água.

Em seguida, rezou alto:
– Deus do lago, por favor, ajude-me a recuperar meu machado que afundou na água.
De repente, surgiu na superfície uma carpa grande trazendo o machado dele na boca.
Vendo que se tratava de seu machado de ferro, o vizinho reclamou, mentindo:
– Mas esse não é o meu machado, o meu machado é de ouro.

A carpa mergulhou para o fundo do lago e voltou com um machado de ouro na boca. Vendo aquela peça reluzente, os olhos do homem brilharam de cobiça e, sem conseguir se conter, ele correu em direção à carpa tentando apanhar o machado dourado. Na ânsia desenfreada de possuir aquele tesouro, ele esqueceu a profundidade do lago e acabou precipitando-se para o fundo, onde morreu afogado.

 

Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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