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Caderno Lendas do Japão

Shirafuji Guenta e o Kappa - Parte Final

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Na primeira parte desta lenda, foi contado que um kappa costumava criar muitos problemas na aldeia de Kawashino, na cidade de Saga. Lá, vivia um samurai chamado Shirafuji Guenta, que, em uma noite de verão, resolveu pedir a seu empregado que prendesse seu cavalo em uma árvore próxima à beira do rio. Após descansar brevemente, o samurai surpreendeu o Kappa tentando arrastar seu cavalo para dentro do rio. Habilmente, Guenta conseguiu não só impedir a morte de seu cavalo, como também capturar o Kappa, ao qual disse...

– Você é uma criatura insolente, que usa seus poderes sobrenaturais para roubar cavalos de seres humanos. Vou matá-lo degolando seu pescoço e deixar você pendurado aqui como exemplo a outros kappas que pensarem em roubar cavalos desta aldeia – disse o samurai, encostando o fio de sua espada na cara da criatura.
– Perdoe-me, por favor, senhor, nunca mais vou roubar cavalos! Juro que vou recompensá-lo pelo prejuízo que causei até hoje, mas, por favor, solte-me.
Chorando de dor, o Kappa pedia clemência várias vezes.

Guenta era um homem de bom coração e sentiu piedade da estranha criatura. Disse:
– Se você jurar com toda a sinceridade que está arrependido, eu o perdoarei. Também você deve confessar todos os atos maléficos que praticou contra nós, da aldeia, sem fazer restrições.

– Eu confesso a você que pratiquei muitas coisas erradas. Estou muito arrependido de tudo que fiz. Sua autoridade é extraordinária, assim eu prometo que, quando rio transbordar na estação chuvosa, não puxarei os habitantes da aldeia para dentro da água. Prometo também nunca mais fazer coisas erradas. Se o senhor poupar a minha vida, prometo que transmitirei a todos kappas deste rio a minha promessa.
Depois que o Kappa fez o juramento, Guenta perdoou-o, descendo-o e desatando os nós da corda. Depois, o Kappa ajoelhou diante de Guenta e, abaixando a cabeça humildemente, agradeceu e perguntou se poderia ir embora para sua morada no fundo do rio.

– Pode ir, mas, antes de partir, recite o juramento três vezes, para nunca esquecer.
Assim que repetiu o juramento três vezes, o Kappa retirou-se para dentro do rio.

A partir desse dia, nunca mais ouviram falar da presença do Kappa naquela aldeia. Os anos se passaram, e Guenta tornou-se legendário como o homem que dominou os kappas.
O pinheiro onde Guenta teria pendurado o Kappa foi motivo de curiosidade durante quase um século. No entanto, hoje, a árvore já não existe; acabou secando, porque estava muito velha.

 
Comentário

O kappa é um duende aquático do folclore japonês que habita em rios e lagoas. Tem cheiro de peixe, corpo de tartaruga, cabeça de macaco, membros escamosos, cabelos longos que circundam a cabeça, membranas natatórias nos pés e nas mãos e a pele amarelo esverdeada.

Uma das características do kappa é a cabeça afundada. Trata se de uma cavidade com água que tem em cima da cabeça. Quando essa água é derramada, ele perde a força. Algumas lendas contam que ele chupa o sangue de cavalo e de crianças.

A maioria dos kappas é tida como malvada, porém muitas lendas ensinam que eles transmitiram aos seres humanos muitas habilidades médicas e que são mestres em soldar ossos quebrados.


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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