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(Texto
e Ilustração: Cláudio Seto)
Antigamente,
havia uma pequena aldeia japonesa ao lado de um lago e no meio da floresta.
Esse lago ficou conhecido na região porque diziam que um kappa
morava nela.
Kappa
é um duende aquático do folclore japonês que vive
pregando peças em seres humanos. Quando alguém nadava no
lago, Kappa puxava-o pelas pernas, dando um susto. A simples aparição
do Kappa, que é do tamanho de um menino e de aparência de
um macaco com tartaruga, era suficiente para que as pessoas corressem
de medo. À noite, ele saía e arrancava as verduras que os
aldeões plantavam.
Certa
ocasião, apareceu na aldeia o mago Shamon, da seita Zenchi. Ao
saber das travessuras do Kappa, o gyoja (mago) foi até a beira
do lago e chamou o duende aquático.
Hei, Kappa travesso, apareça, quero falar com você!
O
Kappa, que estava no meio das plantas aquáticas, resolveu, então,
dar um susto no mago. Fazendo uma barulheira infernal, saltou da água
diante o religioso. Porém, o mago não demonstrou nenhum
medo:
Escute aqui, Kappa, porque você vive aprontando com o pessoal da
aldeia? Existe algum motivo para essa má-criação?
O
Kappa ficou surpreso. Era a primeira vez que alguém dirigia palavras
a ele sem medo, sem raiva, calmamente e com voz carinhosa. Ele experimentou
uma sensação que nunca tivera e respondeu, emocionado:
Sou infeliz e solitário. Sou o único Kappa da região.
Há muito tempo, tentei fazer amizade com os seres humanos, mas
todo tem nojo de mim, atiram pedras, correm de mim. Não sou peixe,
nem gente, por isso estou sempre sozinho. A solidão é tanta,
que me revolto e faço travessuras para extravasar minha angústia.
Compreendo, é uma medida de desespero. Mas, se você continuar
fazendo maldade, na próxima encarnação, nascerá
em uma forma pior ainda.
E o que devo fazer para nascer em forma de gente?
Terá que praticar boas ações. Coisas que ajudem os
outros respondeu o mago.
Em
seguida, o monge continuou sua peregrinação, deixando o
Kappa pensativo.
No
verão daquele ano, houve uma grande estiagem. As plantações
secaram e, nos poços, poucas águas restaram. Desesperados,
os moradores da aldeia reuniram-se na praça central e fizeram várias
orações para que a Divindade da Chuva fizesse chover. O
povo estava desesperado. Se a situação permanecesse imutável,
todos morreriam de fone e sede.
De
repente, da lagoa, cujas águas haviam desaparecido quase por completo,
surgiu o Kappa e dirigiu-se à praça da aldeia. O povo, que
estava rezando e lamentando a falta de chuva, ficou assustado, olhando
a aproximação daquela criatura.
Olhem, o Kappa vem em nossa direção!
O
Kappa vinha abaixando a cabeça em sinal de cortesia, cumprimentando
a todos pacificamente. Porém, quando chegou na praça, os
aldeões pularam em cima dele com paus e pedras. Deram uma surra
homérica, com chutes, socos, pauladas e pedradas, porém
a criatura não reagiu. Deixou-se castigar pelas travessuras que
tinha aprontado aos moradores.
Completamente
arrebentado, o Kappa ainda foi amarrado com cordas. Com grande esforço,
conseguiu levantar a cabeça e disse:
Eu vim para rezar junto com os senhores...
O
pessoal ficou boquiaberto com a afirmação. Porém,
acostumados às suas travessuras, concluíram que se tratava
de algum truque para enganá-los.
Não pense que vamos cair na sua armadilha. Se quiser rezar, pode
rezar à vontade, mas não vamos desamarrar a corda. Assim
dizendo, os aldeões levaram o Kappa para o yagurá (palanque
de tocar tambor) no centro da praça e deixaram-no amarrado onde
todos poderiam ver.
Continua...
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