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(Texto
e Ilustração: Cláudio Seto)
Há muitos
anos, em uma região montanhosa do Japão, vivia uma mãe
com duas filhas moças. Comentários da vizinhança
davam conta de que a mais velha era bondosa e querida por todos da aldeia,
enquanto a mais nova era egoísta, gananciosa e muito antipática.
Apesar disso, por ser a caçula, a mãe tratava melhor a mais
nova, empurrando para a mais velha todos os serviços sujos e pesados
da casa.
Certa ocasião,
a mãe mandou que as duas fossem à floresta catar kuri (castanha).
E ordenou que só voltassem quando estivessem com embornal cheio
de castanhas. Assim, entregou para cada uma delas um embornal do mesmo
tamanho. Acontece que a sacola da mais jovem era nova e a da mais velha,
muito usada e cheia de furos.As duas andaram bastante na mata, até
que encontraram um velho castanheiro esparramando sementes pelo chão.
Então, começaram catar as sementes para encher logo o bornal.
Apesar de a mais velha se empenhar no trabalho, à medida que colocava
as castanhas por cima, elas iam vazando pelos furos e nunca ficava cheio
por completo. Já a mais nova conseguiu encher com facilidade seu
novo embornal.
Assim, a mais
nova foi embora, enquanto a mais velha continuou catando para completar
seu trabalho. Enquanto repetia o gesto de catar e ao mesmo tempo tapar
os buracos com as mãos, o sol se foi e a noite chegou. Sentindo
medo, resolveu voltar para casa, mas a escuridão a impedia de enxergar
o caminho de volta. Andou durante algumas horas sem rumo, com temor de
lobos, até que chegou a um pequeno santuário abandonado.
Quase na frente
do pequeno templo havia um Jizô estátua de pedra representando
um anjo budista, protetor dos pobres e dos honestos. A moça aproximou-se
da estátua e, juntando as mãos em gesto de oração,
pediu ao anjo que permitisse passar a noite no santuário.
E a estátua
de pedra respondeu:
Pobre
menina, se você quiser pode passar a noite aqui, porém existe
um grande problema. Este local abandonado se tornou ponto de reunião
dos oni, esses demônios de chifre vêm todas as noites nesta
clareira para beber saquê e fazer uma grande barulheira.
Deve
ser muito perigoso, mas o que vou fazer? Não posso voltar para
casa com o embornal de castanhas incompleto e corro o risco de ser devorada
pelos lobos no caminho. Se eu ficar, esses demônios podem me ver
e estarei perdida do mesmo modo. Que dilema. Salve-me, Jizô-san,
por favor disse a moça com lágrimas nos olhos.
Você
terá que ser corajosa. Descansará escondida atrás
de mim, com aquele chapéu de palha que está pendurado no
santuário. Quando os oni chegarem e estiverem fazendo festa, você
deverá imitar o canto do galo batendo o chapéu de palha,
para simular o bater das asas. Assim, eles irão embora pensando
que vai amanhecer. E depois você poderá dormir sossegada.
A moça
pegou o chapéu e sentou-se encostada atrás do Jizô,
e ficou descansando. No meio da noite, conforme tinha dito o anjo budista,
os demônios começaram a vir de todos os lados, cada um com
um garrafão de saquê. Pouco depois, eles bebiam, cantavam
e faziam jogatina... Soltavam gazes e palavrões para todos os lados.
A garota estava dura de medo e rezava baixinho para não ser descoberta.
Quando a festa
estava de bom tamanho, ela criou coragem e começou a imitar o canto
do galo, batendo o chapéu de palha como farfalhar de asas. Os oni
levaram um susto com o canto do galo.
O galo
está cantando, vai amanhecer. Vamos depressa para nossas cavernas,
Amaterasu Oomikami, a Augusta Deusa Sol, vem aí.
Foi uma confusão
geral. Os demônios saíram correndo para todos os lados e
desapareceram dentro da mata. Assim, a moça pôde dormir sossegada
no pequeno santuário.
Quando o dia
chegou, diante do Jizô, a garota juntou as palmas das mãos
em agradecimento e se despediu do anjo budista.
- Se você
quer demonstrar gratidão, não pode ir embora deixando toda
essa sujeira que os demônios fizeram na clareira do santuário.
Coloque tudo no seu embornal e leve para bem longe daqui.
Na clareira,
havia garrafas de saquê cheias e vazias, papéis, e muitas
moedas de ouro usadas na jogatina pelos oni. A garota esvaziou seu embornal
de castanhas, forrou o fundo furado com papéis e garrafas e repôs
as castanhas junto com as moedas de ouro. Assim, voltou para casa feliz,
pois a sacola, agora sim, estava cheia.
Continua...
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