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(Texto
e Ilustração: Cláudio Seto)
Em Mimasaka
no Kuni (país de Mimasaka), hoje província de Okayama, havia
uma pequena aldeia de nome Kagami, onde até hoje existe um solo
sagrado com um templo centenário shintô dedicado à
divindade Musubi no Kami, deus do amor e da união.
Nesse solo
sagrado ao redor do templo havia uma velha e magnífica cerejeira
chamada Kanzakura, ou cerejeira sagrada. Próximo dela foi construído
o templo dedicado ao deus do amor.
Na pequena
vila de Kagami morava um homem muito rico chamado Sodayu. Ele era viúvo
e tinha uma encantadora filha, de 17 anos, chamada Hanano. Um dia, Sodayu
achou que a filha estava na idade de contrair matrimônio.
- Minha menina
- disse o pai - devemos proceder como manda a tradição.
O tempo passou e minha criança já está na idade de
encontrar um marido. Minha obrigação é arranjar um
bom noivo para você.
Hanano contou
a novidade à governanta Yuka, pedindo que ela encontrasse alguém
para gostar. Yuka respondeu que era difícil encontrar uma pessoa
que a merecesse, porém sugeriu que sua jovem patroa fosse rezar
no templo de Musubi no Kami.
- Para isso,
terá que orar 21 dias seguidos no terreno sagrado.
Hanano gostou
da sugestão e, nesse mesmo dia, partiu em companhia de Yuka em
direção do santuário. Dia após dia ela orou,
até que chegou o 21º dia. Terminadas as orações,
elas voltavam passando sob a grande cerejeira sagrada, que estava em plena
floração. Viram que perto do tronco havia um jovem, com
cerca de 21anos. Era um belo rapaz com olhos expressivos e tinha na mão
um galho de cerejeira carregada de flores. Para surpresa das duas, ele
deu um agradável sorriso para Hanano e veio ao encontro dela. Gentilmente,
entregou as flores para Hanano, curvando em reverência, e afastou-se
em seguida.
Hanano vibrou
de emoção. Ficou muito feliz, pois sentiu que o deus do
amor e da união havia mandado aquele belo jovem em resposta às
suas preces.
- Yuka, eu
estou muito feliz. Como você disse, o deus Musubi me enviou esse
lindo rapaz. Valeu a pena ficar orando durante 21 dias.
Na cidade vizinha,
havia um samurai de nome Tokunosuke que, ao ficar sabendo que Sodayu procurava
um noivo para a filha, resolveu ir pessoalmente se apresentar como pretendente.No
dia seguinte, o moço foi visitar o pai de Hanano. A certa altura
da conversa, Hanano foi chamada para servir chá ao visitante. Depois
que ele foi embora, o pai disse que aquele é o rapaz que ele escolheu
para ser seu esposo.
- Ele é
de uma família rica. Seu pai é meu amigo. E o rapaz diz
que já faz um tempo que está apaixonado por você.
Hanano nada
disse, pediu licença a seu pai e retirou-se para seu quarto de
cabeça baixa. Sodayu comentou com Yuka:
- Encontrei
um ótimo pretendente para minha filha, mas ela em vez de mostra-se
feliz, saiu às pressas para o quarto. Você pode explicar-me
a razão? Você deve saber seus segredos.
Yuka a princípio
vacilou em responder, mas achou que para o bem da menina devia contar
toda a verdade. Assim, relatou o encontro da Hanano com o jovem desconhecido.
Na manhã
seguinte, Tokunosuke veio a casa de Sodayu e ouviu de Hanano que não
poderia casar-se com ele, pois amava um rapaz desconhecido.
O jovem que
amava Hanano ficou desesperado. E revolveu segui-la para saber quem era
seu rival.
Na tarde desse
mesmo dia, Hanano e Yuka foram ao templo. Mais uma vez o jovem estava
sob a cerejeira florida e, vendo a garota, se aproximou com um ramo florido
e a ofereceu sem dizer uma palavra.
Tokunosuke,
que estava escondido atrás de um torô (lanterna de pedra),
assistiu a tudo com o coração apertado.
Quando Hanano
e Yuka foram embora, Tokunosuke saiu de seu esconderijo e abordou o jovem
em tom rude.
- Quem é
você, seu conquistador barato? Dê seu nome e endereço,
quero saber se é digno ao amor da bela Hanano.
O jovem nada
respondeu, limitou-se a fitá-lo com seu olhar penetrante. Isso
deixou Tokunosuke mais irritado. O samurai sacou de sua espada e atacou
com um violento golpe em direção do jovem. Agarrando um
galho pendente numa esquiva rápida, o jovem misturou-se às
fartas flores de cerejeiras. Nesse momento, uma chuva de pétalas
caiu sobre o samurai, cegando-o momentaneamente.
Quando a chuva
de pétalas acalmou, Tokunosuke pôde perceber que o jovem
havia desaparecido e sua espada estava clavada no tronco da cerejeira.
Nisso, um dos sacerdotes do templo veio correndo e gritando:
- Seu malfeitor
desalmado! Feriste o tronco da cerejeira sagrada. Por que tanta violência?
Tokunosuke
pediu desculpas de joelho e contou ao religioso o que tinha acontecido.
E o sacerdote explicou:
- Esta árvore
é sagrada porque tem um espírito sagrado. Às vezes,
o espírito da árvore se manifesta sob forma de um jovem
diante do tronco. É a esse espírito que você tentou
ferir com sua espada.
Tokunosuke
deixou o solo sagrado e foi direto para casa de Sodayu. E contou a ele
tudo o que tinha visto e ouvido.
- Talvez agora
sua filha aceite casar-se comigo, pois não pode se casar com um
espírito sagrado, não é mesmo?
Hanano foi
chamada para saber do acontecido. O resultado foi o mais inesperado possível.
- Não
sei o que dizer. Cometi uma blasfêmia, fui me apaixonar por um deus
da natureza - gritava completamente fora de si. - Tenho que orar bastante
no templo para ser perdoada.
Assim, Hanano,
mais uma vez, recusou-se a casar com Tokunosuke e resolveu se internar
em um templo e se dedicar à vida religiosa. Com o consentimento
de seu pai, foi viver num templo, raspando a cabeça e vestindo
um hábito branco. Hanano passou a viver sua nova vida varrendo
o chão do jardim, cuidando das plantas e fazendo muitas orações.
Dizem que quando ela morreu, foi enterrada no solo sagrado e, de seu túmulo,
nasceu uma nova cerejeira. Hoje, essa cerejeira floresce todos os anos
ao lado da cerejeira grande sagrada.
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