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(Ilustração:
Cláudio Seto)
Numa época
muito distante, quando alguns animais selvagens tinham o poder de transmutar
em seres humanos, havia um tanuki (texugo) cujo maior prazer era pregar
peças nas pessoas da região em que vivia. Esse tanuki já
havia enganado várias pessoas, transformando-se em um perigoso
samurai assassino e assustando os viajantes que cruzavam a mata. Também
já tinha enganado quase todos os moradores de uma aldeia próxima
com diversas artimanhas. Ele tinha orgulho de suas malandras peripécias,
porém não se sentia plenamente realizado, porque nunca havia
conseguido enganar um garoto de nome Hikoichi que morava na aldeia. O
fato tornou-se uma questão de honra e, por toda a lei, o texugo
queria, com algum truque bem-feito, iludir o menino ou, no mínimo,
fazer alguma maldade para o garoto.
Certa ocasião,
quando Hikoichi e sua mãe estavam trabalhando na horta, o texugo
ficou escondido em uma moita de capim para observá-los. Percebeu,
então, que Hikoichi e sua mãe trabalhavam com afinco, cavando
a roça para não perder a época de deitar as sementes.
Então, o texugo teve uma idéia maligna.
Quando a noite
chegou, o texugo botou em ação o seu plano. Catou todas
as pedras que havia na região e jogou-as na roça de Hikoichi.
Aquela obra malvada certamente ia atrapalhar muito o trabalho de Hikoichi
e sua mãe. O texugo vibrava de alegria só de pensar que,
na manhã seguinte, Hikoichi ia chorar de raiva. É verdade
que foi um plano trabalhoso, pois o texugo carregou pedra por pedra até
a horta durante toda a noite. Ao amanhecer, estava prostrado de tanto
esforço, porém satisfeito pelo serviço que certamente
deixaria Hikoichi com muita raiva.
Não
tardou muito e Hikoichi chegou para trabalhar na horta. Vendo a roça
forrada de pedras, o garoto logo percebeu que aquilo havia sido obra do
texugo. Desconfiando de que ele pudesse estar por perto para saborear
o resultado da sua obra maligna, disse, em voz alta, para sua mãe,
que se aproximava da horta.
Veja
que maravilha, mamãe! Alguma pessoa bondosa forrou nossa horta
com adubo de pedra. Isso vai poupar nosso trabalho. Podemos voltar para
casa e continuar dormindo. Imagine se tivessem jogado estrume de cavalo
ou gado, ia ser desagradável e difícil de remover.
Assim, puxando
a mão de sua mãe, Hikoichi foi embora para casa. O texugo
ficou se remoendo de raiva e jurou vingança. Ato seguinte, passou
para a ação. Apesar de cansado do trabalho da noite anterior,
começou a retirar todas as pedras que havia jogado na horta. Isso
durou grande parte do dia e foi necessário muito esforço.
À tarde, o texugo já estava arrastando as pernas de cansaço.
Mas era tanta a sua vontade de se vingar, que ele empreendeu muito esforço
e foi até o estábulo e depois ao campo, recolhendo todo
o estrume de cavalo e de gado que encontrou pela frente. Era um trabalho
muito desagradável, mas, decidido a atrapalhar a vida de Hikoichi,
fez várias viagens para espalhar estrumes por toda a horta. Depois,
esgotado, foi para a mata descansar, certo de que havia causado tremenda
dor de cabeça para Hikoichi.
Meses depois,
chegou a época da colheita na roça de Hikoichi e de sua
mãe. Para a surpresa de toda a aldeia, a horta deles apresentou
a maior fartura de toda vizinhança.
Nossa,
mamãe, a colheita foi ótima, graças ao adubo que
o texugo espalhou em nossa roça.
É
verdade, meu filho, acho que devemos agradecer a ele.
Enquanto isso,
na mata próxima da aldeia, o texugo estava completamente arrasado
ao descobrir que a colheita de Hikoichi havia sido muito boa. Em vez de
pregar uma peça no garoto, foi ele quem o enganou direitinho. Aquilo
era humilhante para um texugo tão cheio de artimanhas. Sim, ele
teria que se vingar de alguma forma. Enquanto tentava articular um plano
vingativo, ouviu uma voz que o chamava:
Hei,
Tanuki-san, mamãe mandou milho cozido para você. Nossa safra
foi muito boa e achamos que você merece nosso agradecimento. Vou
deixar os milhos aqui. Até logo e obrigado.
O texugo saboreou
o milho cozido com muito prazer. Esqueceu-se de toda a maldade que fizera
até então e deixou de pregar peças no pessoal da
aldeia. E mais, anualmente, passou a adubar a roça de Hikoichi
e sua mãe e, conseqüentemente, a saborear milho cozido após
todas as colheitas.
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