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(Ilustração:
Cláudio Seto)
Há muitos
e muitos anos, numa pequena aldeia rural do Japão, viviam um garoto
e sua bondosa mãe. O garoto era muito inteligente e, por isso,
todos o chamavam de Hikoichi, que significa o primeiro dos inteligentes.
Na mata perto de sua casa, existia um tanuki (texugo) que gostava de pregar
peças nas pessoas, principalmente nos viajantes que cruzavam o
matagal. Como se sabe, no folclore japonês, o texugo assim
como a raposa, a serpente e o bagre tem o poder mágico de
se transformar em ser humano ou em objetos. E a arte principal do texugo
dessa história era a de assustar as pessoas transmutando-se em
um famoso samurai assassino, que tinha a fama de matar as pessoas para
treinar sua habilidade no manejo da espada.
Sempre que
um viajante passava pela estrada da mata, em um ponto chamado curva do
bambuzal, era surpreendido pela aparição repentina do samurai
assassino com espada em punho e seu famoso nirami (olhar fulminante),
que provocava arrepios. Ele sacava a espada e dizia ameaçadoramente:
Ei,
você, chegou a hora de sentir o fio de minha espada em seu pescoço!
Veja esse bambu à minha frente e imagine que é o seu pescoço.
Ato seguinte,
sacava a espada e, no movimento do saque, o bambu era cortado num gesto
rápido e quase imperceptível. Quando o bambu caía
cortado ao meio, os viajantes saíam correndo apavorados. Largando
seus pertences, fugiam apressadamente, sem imaginar que aquilo não
passava de uma ilusão criada por um texugo. Ao ver as pessoas fugindo
de medo, o animal encantado morria de rir e, com essa brincadeira, vivia
se divertindo todos os dias.
Com o passar
do tempo, a peça que pregava nas pessoas no caminho da mata foi
perdendo a graça. Então, o texugo resolveu ir até
a aldeia e assustar as pessoas em suas próprias casas. Seria para
ele um novo desafio. Numa noite de inverno, saiu da mata e foi até
a aldeia próxima. Parou diante da casa de Hikoichi e espiou por
uma fresta. O menino estava sentado sonolento perto de um aquecedor à
base de brasas chamado irori.
A mãe
de Hikoichi, que também se aquecia junto ao filho, percebeu que
alguém estava batendo à porta e disse ao garoto para atendê-la.
Quando o garoto
abriu a porta, lá estava o temido samurai empunhando sua espada
sanguinária. Hikoichi, que morava na entrada da aldeia, várias
vezes deu abrigo a viajantes que apareciam correndo apavorados dizendo
que foram ameaçados pelo samurai assassino. Vendo que a figura
do samurai à sua frente era igual à descrição
dada pelos viajantes, não foi difícil concluir que se tratava
de um truque do texugo, pois ninguém até aquela data tinha
sido morto ou ferido pela aparição.
Mas, fingindo
de nada desconfiar, Hikoichi convidou o samurai a entrar.
Por
favor, meu bom homem, entre e venha se aquecer no irori.
Surpreendido
pela inesperada reação do garoto, o samurai sanguinário
entrou meio constrangido e sentou à beira do aquecedor. O garoto
ofereceu-lhe saquê (vinho de arroz) e alguns tira-gostos. Depois
de comer e beber, o texugo transformado na figura de bandoleiro perguntou:
Você
me parece um jovem que nada teme, ou será que estou enganado?
Hikoichi percebeu
que estava sendo sondado pelo texugo e usou de uma artimanha:
Bem,
para falar a verdade, não tenho medo de quase nada... porém,
de uma coisa morro de medo. Mas trata-se de um segredo e não posso
contar para ninguém.
Ora,
pode confiar em mim. Não contarei nada a ninguém. Palavra
de bandoleiro!
Bem,
sendo assim... não vai dizer para ninguém mesmo?
Pode
confiar, seu segredo ficará trancado a sete chaves!
Hikoichi estava
ganhando tempo para bolar alguma idéia genial e lembrou que sua
mãe gostava de manju (doce à base de feijão azuki)
e disse:
Não
conte para ninguém que eu tenho medo de manju.
Que
brincadeira é essa? Como uma pessoa pode ter medo de manju?
Por
favor, não fique repetindo esse nome. Só de ouvir falar
de manju, fico tremendo de medo.
Vendo que o
menino estava com tremedeira, o texugo deu-se por satisfeito. Assim, despedindo-se
do menino, o texugo foi embora.
Na manhã
seguinte, quando Hikoichi abriu a porta, deu de cara com um prato cheio
de manju, que foi deixado ali pelo texugo.
Assim, Hikoichi
enganou o texugo, e ele e sua mãe saborearam o doce dando boas
risadas do animal.
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