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(Ilustração:
Cláudio Seto)
Há muitos
e muitos anos, havia uma mocinha meiga e delicada em uma pequena aldeia
japonesa. Com a morte de seus pais, ela vivia sozinha e contava com a
ajuda dos aldeões para sobreviver. Porém, sentia-se muito
sozinha e, em suas orações, vivia perguntando à deusa
Kannon se um dia ela voltaria a ter uma família.
Um dia, ao
sair de casa, encontrou um monge budista muito pálido, caído
do outro lado da rua, em frente à sua casa.
Monge,
o que o senhor tem? perguntou a menina, colocando a mão
na testa do rapaz.
Nossa,
tem febre alta! disse para si mesma.
Com muito esforço,
a mocinha arrastou o monge para dentro de sua casa. Em seguida, acomodou-o
em um dos quartos e resolveu fazer um mingau de arroz para o religioso,
que estava muito debilitado. Mas, na cozinha, viu que o cereal tinha acabado.
Foi, então, à casa vizinha para conseguir um pouco de arroz.
Desculpe-me,
vizinha, a senhora pode me dar um pouco de arroz?
Claro,
mas quero que me ajude quando eu for plantar as mudas de arroz.
Sim,
pode contar com minha ajuda.
A garota foi
à outra casa na vizinhança e pediu:
O senhor
teria algum remédio para febre? Será que poderia me dar
um pouco?
Sim,
naturalmente, mas, por favor, no dia do plantio das mudas de arroz, quero
que me ajude.
Está
bem, agradeço pelo remédio.
Assim, visitou
várias casas para conseguir missô (pasta de soja para fazer
sopa), tofu (queijo de soja), peixe, vegetais, leite e assim por diante.
Dessa forma,
visitou 20 casas, nos três dias em que o monge ficou acamado. Em
todas elas, os aldeões pediram à menina que os ajudasse
no dia de plantação de mudas de arroz.
Quando o monge
já havia recuperado a saúde e partiu para continuar sua
peregrinação, deu a menina uma estatueta.
Obrigado
por seus cuidados amáveis. Agora estou muito bem e vou lhe dar
esta deusa Kannon (deusa da Misericórdia) como símbolo da
minha gratidão.
Uma semana
depois, um vizinho avisou a garota:
Amanhã
é o dia em que minha família vai plantar mudas de arroz.
Vamos esperar sua ajuda. Assim, um após outro, os lavradores vieram
trazendo o mesmo recado. No total, 20 vizinhos disseram a mesma coisa:
Amanhã conto com sua ajuda.
Oh,
que devo fazer? Eu não posso ajudar os 20 vizinhos a plantar mudas
ao mesmo tempo. Deusa Kannon, ajude-me, por favor. O que devo fazer, afinal?
Assim, rezou com grande fervor diante da pequena estátua de Kannon.
Enquanto isso,
o monge também rezava por ela no alto de uma montanha. De repente,
um clarão surgiu no ar e uma bela figura da deusa Kannon apareceu.
Ouça-me,
monge. Neste momento, a menina que lhe ajudou está com sérios
problemas. É a sua vez de ajudá-la. Leve consigo 19 garotas
para a aldeia dos plantadores de arroz dizendo isso, a deusa da
Misericórdia desapareceu.
O monge visitou
várias casas da cidade vizinha, perguntando em cada uma se não
tinha alguma jovem que pudesse ajudar na plantação das mudas
de arroz. Assim, conseguiu várias mocinhas dispostas a ajudar na
plantação.
Na véspera
do dia de plantar arroz, a menina ajoelhou-se diante da estatueta de Kannon
e rezou:
Eu não
posso ajudar todos ao mesmo tempo. Então, terei que optar por ajudar
um dos vizinhos. Se eu trabalhar duramente, é certo que a deusa
Kannon vai me ajudar.
Nessa noite,
choveu bastante, e amanheceu chovendo no dia seguinte. A menina levantou
cedo e bem disposta. Apanhou um chapéu de mino (palha) e um mino-kasa
(capa de palha de arroz) e saiu em direção à horta,
que ficava no final da aldeia.
Para ela, toda
a vizinhança era muito boa, porém, foi trabalhar na última
horta da aldeia, porque ali havia um rapaz de quem ela gostava muito.
Enquanto isso, o monge e as 19 garotas, igualmente vestidas com chapéu
e capa de palha, chegaram à aldeia e se dirigiram cada uma para
uma horta. Assim, todas ajudaram na plantação de mudas de
arroz, que no Japão é quase um ritual.
No final do
dia, com a missão cumprida, cada aldeão agradeceu a respectiva
menina pela ajuda. O monge havia ficado na casa da menina, rezando para
a estatueta da deusa Kannon.
Quando a noite
vinha chegando, a menina voltou para casa, e as 19 meninas e o monge retornaram
à aldeia vizinha.
Na manhã
seguinte, conforme costume local, os 20 aldeões vieram agradecer,
trazendo um presente como símbolo de gratidão.
Muito
obrigado pela ajuda de ontem! disseram todos eles.
Ela não
entendeu direito o que tinha acontecido, porém, vendo que a estatueta
da deusa Kannon estava molhada, agradeceu a ela, dizendo:
Muito
obrigada, deusa Kannon, não sei exatamente como, mas tenho a impressão
que você plantou as mudas de arroz no meu lugar. Ajoelhada em frente
à estátua, a menina agradeceu profundamente.
Nesse momento,
apareceu por lá o rapaz que tinha a última horta da aldeia.
Vim
agradecer pela ajuda de ontem e dizer que tenho mais um pedido a lhe fazer.
Sim,
pode dizer...
Quero
pedir que se case comigo.
A garota olhou
para a deusa Kannon, e ela estava sorrindo.
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