No
folclore japonês, existem várias criaturas encantadas com
poderes de se transformar em seres humanos, ou capazes das mais diversas
peripécias além da imaginação. Entre essas
criaturas, as mais conhecidas são o kitsune (raposa), o tanuki
(texugo), o hebi (cobra) e o namazu (bagre). Existem várias lendas
a respeito de bagres no Japão, e uma das características
desse peixe é que ele tem a sensibilidade de prever terremotos.
Quando está para acontecer um terremoto, dizem que os bagres se
comportam de maneira estranha.
Uma lenda conta
que, abaixo das ilhas do arquipélago japonês, mora o Rei
dos Bagres, uma criatura gigantesca que, quando se movimenta, provoca
calamidade na superfície. Felizmente, sua movimentação
está controlada, pois o deus Kashima mantém o bagre gigante
sob controle, graças a uma rocha sagrada que ele colocou sobre
o animal. Porém, às vezes, Kashima se distrai, e o bagre
consegue se movimentar, causando terremotos na superfície e levando
sofrimento ao povo.
Takei
Watatsu e o bagre
Esta lenda
tem origem na pré-história japonesa, na planície
perto do Monte Aso, em Kumamoto, na Ilha de Kyushu. Uma história
do tempo mitológico em que os deuses habitavam a terra. Naquela
distante época, a planície de Aso não passava de
um grande lago enlameado. Certa ocasião, o deus Takei Watatsu-no-Mikoto,
inspecionando a região, concluiu que o lago transformado em planície
seria uma boa área para a plantação de arroz. Decidiu,
então, que drenaria o local, cavando um canal para extravasar a
água na extremidade ocidental do lago.
Na manhã
seguinte ,Takei Watatsu cavou com muito esforço um canal perto
da localidade de Teno, a nordeste do lago. A água começou
a vazar em profusão, produzindo um belo espetáculo. Satisfeita,
a divindade foi descansar depois de um duro dia de trabalho.
No dia seguinte,
ele voltou ao lago certo de que toda água já havia escoado
pela vazante, porém, para sua surpresa, somente metade da água
havia saído. Procurando saber a causa, Takei logo descobriu que
um namazu (bagre) gigante, de mil anos de idade, havia obstruído
a passagem da água.
O enorme bagre
enrolou seus barbilhões em torno de grandes pinheiros ao sul do
lago, e sua cauda debulhou um dos picos mais elevados na montanha Aso.
Após
algumas ponderações de como se livrar daquele gigante, Takei
passou cipós de videira nas narinas do bagre gigante e amarrou-o
numa enorme pedra perto da vila de Katsumi. O gigante retorceu-se em dor,
e os abanos de sua cauda foram sentidos em Hebi-no-o, a mais de 13 quilômetros
de distância. Aos poucos, o bagre gigante foi ficando sem força
e parou de se debater. Depois acabou falecendo.
O problema
era como removê-lo de lá, já que era grande e pesado
demais. Takei, então, cortou o bagre em três pedaços,
que foram levados pelas águas. Os pedaços foram rolando,
e um deles parou perto da aldeia de Kamimashiki, que, desde então,
ficou conhecida como Namazu. As outras partes rolaram mais um tanto e,
onde pararam, as partes foram picadas e colocadas em seis rokka (cestas).
Nesse local, nasceu uma vila, que foi chamada de Rokka.
Na planície
onde existia o lago, foi plantado um grande arrozal. Apesar de verdejantes,
quando chegou a época da colheita, Takei Watatsu verificou que
quase não havia espigas carregadas. Foi completa frustração.
Então, a divindade consultou seu amigo celeste Zenchi-no-Mikoto,
o deus da Graça Divina. Ele lhe disse que aquela planície
jamais daria bom arroz enquanto o espírito do milenar namazu estivesse
inconformado vagando por lá.
Então,
Takei mandou erigir um santuário para cultuar o bagre como deus
do lago. Depois disso, o espírito do bagre encontrou a paz, e o
arroz começou a prosperar na planície de Aso. Ainda hoje,
na localidade de Teno, existe um santuário dedicado ao deus Namazu.
Em conseqüência disso, até a Restauração
Meiji, os fiéis do santuário de Aso não pescavam
nem comiam o bagre.
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