|
Há
muitos anos, um homem deixou a hospedaria no meio da noite para seguir
viagem a Nagóia. Quando ainda estava nos subúrbios de Quioto,
numa encruzilhada, viu uma mulher sozinha, bonita e muita bem vestida.
Era hora do boi, muito tarde para uma mulher sair para a rua sozinha.
O homem pensou que provavelmente tivesse acontecido alguma coisa e ela
precisasse de ajuda. Porém, continuou andando sem interromper sua
viagem. Mas a mulher, dirigindo-se a ele, perguntou.
Para
onde o senhor vai?
Vou a Nagóia respondeu.
O senhor deve estar com pressa, com traje de viagem tão
tarde da noite. Mas, por favor, poderia parar um pouco, pois tenho de
fazer uma pergunta que é muito importante para mim.
Tudo bem, em que posso servi-la? perguntou.
Sabe onde fica a casa de Minbu-no-Taihu? Quero fazer-lhe uma visita,
mas estou completamente perdida.
A casa dele fica para aquele lado disse, apontando para
a direção Gostaria de lhe ajudar, mas estou com muita
pressa e não posso acompanhá-la.
É muito importante para mim, por favor, leve-me até
lá.
Constrangido,
o homem saiu de seu roteiro e acompanhou a mulher. Ao mesmo tempo, sentiu
certa satisfação por ajudá-la. Ela o seguiu silenciosamente
até a porta de uma casa depois de caminhar cerca de uma hora.
Aqui
é a casa de Minbu-no-Taihu.
Ela agradeceu,
disse que morava em Shiga com a filha e deu seu endereço.
Quando
o senhor passar em Shiga, por favor, faço questão que nos
visite. Assim, terei a oportunidade de lhe oferecer um chá como
agradecimento.
O homem abaixou
a cabeça como cumprimento de despedida e saiu andando, porém,
ao voltar a cabeça, a mulher havia desaparecido. Achou estranho,
pois não a viu bater à porta, nem ninguém a abrindo.
Então, voltou uns passos, examinou a porta e viu que ela estava
fechada como antes. Olhou ao lado da casa, mas não havia ninguém.
Ficou intrigado e pensou em bater à porta da casa, porém
não queria incomodar ninguém àquela hora da noite.
De repente, ouviu um grito horripilante no interior da casa. Chegou a
ter impressão que alguém havia morrido de susto lá
dentro. Porém, achou por bem esperar um pouco. Não seria
prudente de sua parte entrar e se intrometer em questões alheias.
Esperou ansiosamente que alguém abrisse a porta. Enquanto isso,
começou a amanhecer.
Quando um criado
abriu a porta, o homem perguntou o que aconteceu lá dentro na madrugada.
Meu
mestre tinha uma esposa em Shiga, mas a abandonou porque se juntou com
outra mulher e mudou-se para cá contou o criado. O ikiryô
(espírito) da mulher anterior veio atrás do meu patrão,
e a nova esposa dele ficou seriamente doente.
Nesta madrugada,
a nova esposa deu um grito horrível, tentou correr e caiu morta
no fundo da casa. Fico pensando, um ikiryô (espírito ou fantasma
de uma pessoa viva) pode matar uma pessoa desse jeito?
Então,
o viajante compreendeu. Depois que Minbu-no-Taihu abandonou a esposa,
ela deixava seu corpo enquanto dormia para caçar a mulher que havia
roubado seu marido. Ao se apresentar diante da mulher, em seu corpo espiritual,
teria causado um susto capaz de lhe tirar a vida.
O viajante
ficou atemorizado e arrependido de ter ajudado aquele fantasma, mas o
que havia acontecido não havia como desfazer. Deu meia volta e
seguiu sua viagem para fora de Quioto.
Alguns dias
depois, recuperado do susto e descansado da viagem de volta, o assunto
voltou à sua cabeça. Então, para satisfazer sua curiosidade,
resolveu ir até Shiga e buscou pelo endereço fornecido pela
mulher fantasma. Quando achou a casa, ele entrou e conversou
com ela. A mulher novamente agradeceu a ajuda e disse:
Jamais
esquecerei da sua ajuda, aquela noite me deu uma grande alegria.
Lembrarei disso até a próxima encarnação.
Ato seguinte,
a mulher deu ao homem doce finos e ricas peças de seda. O presente
era valioso demais para se recusar, e o homem aceitou tudo de bom grado
assim conta o livro Konjaku Monogatari, compilado em 1120 no Japão.
|