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No
Japão, existem várias lendas que contam façanhas
de cachorros. E todas elas testemunham que ele é o melhor amigo
do homem. A julgar pelas descrições das lendas, elas foram
acontecendo ao longo do tempo, até chegar a grande quantidade que
hoje existem. A lenda que escolhemos para esta edição aconteceu
na Era Heian (794~1192), envolvendo o ministro plenipotenciário
Fujiwara-no-Michinaga (966~1027). Em 1022, Mizunoe Inudoshi (Ano do Cachorro
de Água-Yin), Michinaga mandou construir, em Quioto, o Templo Hojoji,
tendo ao redor o Jardim da Terra Pura. Contam os historiadores
que ele gostou tanto do jardim, que deixava seu palácio para visitar
o templo diariamente e sempre levava consigo seu fiel cachorrinho branco.
Certa ocasião,
naquele mesmo ano, quando o carro de boi que levava Michinaga aproximou-se
do templo, o cachorrinho correu na frente, parou na entrada e latiu tanto,
que impediu a carruagem de continuar. Michinaga desceu da carruagem, ficou
observando o comportamento do animal e concluiu, pela reação
do cachorro, que havia algo de errado. Então, mandou um de seus
criados chamar Abe-no-Seimei, o astrólogo e adivinho da Corte.
Não
tardou muito, e Seimei chegou ao local. Michinaga queria saber o que o
cachorrinho estava querendo dizer com seu estranho comportamento. Seimei
andou para frente, mas o cachorro não tentou impedi-lo. Pediu,
então, que um dos criados fosse em direção ao templo,
mas, igualmente, o cachorro não esboçou reação.
Quando Michinaga tentou andar para frente, o cachorro começou a
latir e a impedir sua passagem. Então, Seimei concluiu:
Em algum
lugar desta estrada existe um feitiço enterrado. Essa mandinga
foi elaborada com o objetivo de prejudicá-lo. Se Vossa Excelência
pisar o local em que ela está enterrada poderá ser acometido
por uma terrível doença. Ainda bem que seu cachorro farejou
esse instrumento do mal.
Sabe me dizer onde o feitiço está enterrado? perguntou
o regente Michinaga.
Ali disse Seimei, fazendo gesto mágico e atirando um guiso
no ar.
O local onde o guiso caiu foi cavado pelos criados de Michinaga. Foram
encontradas duas tigelas unidas pelas bocas e amarradas em cruz com um
fitilho amarelado.
Conheço esse tipo de magia, acho que é obra do mago
Doman Ashiya, meu desafeto.
Abe-no-Seimei
pegou um pedaço de papel e fez origami em forma de tsuru (garça
grou). Sacudiu o tsuru no ar e disse palavras sagradas. A dobradura de
garça transformou-se em garça de verdade e voou na direção
sul. Seimei ordenou que dois fortes criados de Michinaga seguissem a garça
para ver onde ela pousaria.
Pouco tempo
depois, os dois criados voltaram trazendo um velho monge à força.
O regente Fujiwara-no-Michinaga fez questão de interrogá-lo
pessoalmente. Interrogado por tão ilustre figura, o monge confessou
que Akimitsu, o ministro da esquerda, ordenou que ele fizesse um feitiço
para impregnar o regente de praga.
Michinaga tirou
o cargo de Akimitsu e o exilou na distante Harima. Dizem que Akimitsu
maldisse o regente pelo resto de sua vida. E, ao falecer, teria se transformado
em um fantasma vingativo que andava assombrando Michinaga.
O cachorrinho
que salvou a vida de Michinaga foi tratado como nobre pela criadagem de
seu senhor e viveu como um rei para o resto de sua vida.
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