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Os
cães são protetores naturais dos homens, são fiéis
aos seus donos e estão sempre ao seu lado, com a incrível
capacidade de detectar situações perigosas às quais
estão sujeitos no cotidiano. Antigamente, os japoneses acreditavam
que os cães tinham faro para identificar os oni (demônios),
que, muitas vezes, se disfarçavam em forma humana para infiltrar-se
em povoados e praticar o mal. A crença popular nipônica conta
que os cachorros são associados à proteção
de crianças, por isso existe um talismã antigo, que até
hoje é muito popular, chamado Hariko Inu; trata-se de um cachorrinho
feito de papel machê e pintado com cores fortes. Dizem que esse
talismã traz sorte, saúde e proteção. Por
isso, as mães, quando vão ganhar um filho, ou quando a família
tem bebê em casa, deixam o Hariko Inu enfeitando o quarto, para
que a criança cresça com saúde e esteja sempre protegida
dos demônios.
Existem algumas
versões sobre a origem do Hariko Inu, mas esta é particularmente
interessante, porque envolve o grande mestre Kukai (nascido no Ano do
Tigre de Madeira 774) que ficou conhecido, após a sua morte,
como Kobo Daishi, o fundador da seita budista Shingon.
Durante sua
peregrinação na ilha de Shikoku, o monge Kukai passou a
noite na cabana de um lavrador. O dono da casa era um senhor muito amável
e o hospedou com grande alegria e cordialidade. Kukai, então, disse
que gostaria de recompensá-los pela hospedagem e pediu que dissessem
como ou quanto deveria pagar.
O lavrador
recusou pagamento, mas, devido à insistência do monge, disse
que gostaria de receber um amuleto e justificou:
- Nós
não tivemos sorte com o tempo nesses últimos anos. Nossa
plantação de arroz tem sido devastada por javalis selvagens
e, quando os cachos de arroz estão madurando, são devorados
pelos pássaros. Sem dizer que, às vezes, existem secas em
época de crescimento ou enchentes antes da colheita.
O monge, então,
rabiscou alguma coisa em um pedaço de papel, depois dobrou-o cuidadosamente
em forma de envelope. Essa dobradura foi pregada na porta do celeiro.
Naquele ano,
a colheita foi normal, nenhuma intempérie veio a prejudicar a boa
safra. No ano seguinte, a mesma felicidade. Os agricultores festejaram
a boa colheita com um festival de tambores e danças. No terceiro
ano, a mesma coisa.
O agricultor
e a esposa estavam muito felizes com a simpatia que o monge Kukai havia
lhes presenteado. Porém, durante os três anos a curiosidade
foi crescendo, crescendo e até que, não agüentando
mais, abriram o papel para ver o que o monge havia rabiscado ali.
Não
deu tempo de o casal ver o que estava escrito no papel. Bastou começar
abrir a dobradura e um cachorro pulou para fora do papel. O cachorro sumiu,
nunca mais voltou, e ninguém sabe para onde ele foi. O papel estava
em branco, mas o lavrador e sua esposa haviam visto Kukai rabiscar alguma
coisa nele. Desde então, a colheita não foi mais boa. Como
se houvesse perdido a proteção divina, a plantação
de arroz passou por toda sorte de dificuldades, até mesmo ataque
de insetos.
O pessoal da
aldeia raciocinou que o cachorro estava protegendo a casa e a plantação
de arroz. E, desde então, passaram a confeccionar pequenos cachorros
de papel machê, para ficar de guarda, protegendo a casa e as crianças
enquanto os pais trabalhavam na roça.
Restou a curiosidade
do povo. Alguns disseram que o monge teria escrito simplesmente a palavra
inu (cão); outros disseram que ele fez desenho de um cachorro,
pois, além de monge, calígrafo e poeta, era excelente desenhista.
Há também estudiosos de seitas que afirmam que Kukai escreveu
Inukami, que pode ser traduzido como deus cão (inu=cão
e kami = deus). Uma vez que papel também é kami em japonês,
quando o casal abriu a dobradura, a palavra ganhou vida e materializou-se
em animal.
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