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Há
muitos e muitos anos, em uma pequena aldeia japonesa, vivia um casal muito
pobre. Com idade consideravelmente avançada, marido e mulher trabalhavam
bastante, mas continuavam sempre pobres.
Eu estou
cheio de ser pobre. Quero beber e comer do bom e do melhor, comprar roupas
bonitas e ir passear em uma grande cidade disse o marido à
sua mulher.
Isto é um sonho impossível. Para não morrer
de desgosto, a melhor coisa a fazer é continuar trabalhando seriamente
em nossa lavoura, sem perder as esperanças respondeu a esposa.
É...acho que você tem razão.
Assim, o casal continuou trabalhando duramente na lavoura. Labutavam de
cedo até a noite. Mas, por mais esforço que fizessem, não
sobrava dinheiro nenhum. Quando a época da colheita chegava, as
espigas de arroz que pareciam carregadas não apresentavam grandes
resultados.
Porém,
um certo ano, na véspera do ano-novo, em contraste com os anos
anteriores, a mulher estava feliz. Havia um farto banquete sobre a mesa.
Devemos agradecer a Zenchi-no-Mikoto, o deus da Graça Divina,
pois, este ano, depois de fazer um pedido a ele, consegui guardar algumas
moedas. Todos os meses, eu guardava algumas moedas na horta, dentro de
um pote, e agora temos uma boa quantia. Pude comprar iguarias e arroz
glutinoso para fazer moti, o bolinho da sorte.
Nossa, que bela surpresa! Enquanto eu ficava lamentando todos os
dias a nossa pobreza aqui dentro de casa, você conseguiu juntar
um bom dinheiro na horta! disse o marido, olhando para dentro do
pote de barro onde a mulher tinha guardado as moedas.
Agora, temos bolinho da sorte e vamos comer amanhã no primeiro
dia do ano. Assim, teremos um ano de fartura! Pois, dizem por aí
que quem come moti no primeiro dia do ano pode tornar-se kanemochi (possuidor
de dinheiro), zaisanmochi (possuidor de herança), fukumochi (possuidor
de sorte), tochimochi (possuidor de terras) e possuidor de muitas coisas
mais.
Nisso, eles ouviram um grito que veio do sótão. Era Binbogami,
o deus da Pobreza, que havia botado a cara para fora do sótão.
Ah, então é isso! Temos um Binbogami morando em nossa
casa. É por isso que trabalhamos muito, mas de nada valeu! Por
sua causa, nunca conseguimos ganhar dinheiro disse o dono da casa
ao deus da Pobreza.
Vocês me enganaram. Guardaram dinheiro longe da casa, por
isso ficou fora do alcance do meu poder empobrecedor. Fizeram um rico
banquete para o ano-novo e isso vai atrair o Daikoku, o deus da Fortuna.
Aliás, tenho que ir embora, porque ele já deve estar chegando.
Nossa vida vai melhorar daqui para frente. Ele vai embora
disse a mulher.
Já vai tarde disse o marido.
Isso são modos de tratar quem viveu com vocês por
tanto tempo? Saibam que existem valores mais importantes que o dinheiro.
A verdadeira riqueza está no coração, e não
num cofre cheio de moedas.
Binbogami continuou
falando e começou a chorar, porque não queria ir embora.
Disse que adorava os dono da casa, por isso sempre se sentiu à
vontade e nunca os incomodou; que gostava de cantar a mesma música
que os dois sempre cantavam. Aos poucos, o casal foi ficando com pena
do deus da Pobreza e passou a consolá-lo.
Reconsidere
sua decisão de partir e continue morando aqui disse o dono
da casa, penalizado.
Mas o deus da Fortuna vai chegar a qualquer momento, é impossível
dois deuses viverem na mesma casa.
Se chegar, expulse-o. Empurre-o para fora da casa.
Mas eu não tenho força. Vivo com fome e não
tenho energia para lutar com ele.
Pois, então, coma à vontade. Temos peixe, verduras
cozidas e bolinhos de arroz disse a mulher, oferecendo uma tigela
e um par de hashi (pauzinhos para levar comida à boca).
Nossa! Nunca comi uma refeição tão gostosa!
Por favor, mais uma tigela de arroz.
Com a barriga cheia, Binbogami se sentiu em condição de
enfrentar o deus da Fortuna. Então, vestiu uma tanga de sumô
(luta japonesa) e fez exercícios de alongamento, enquanto esperava
a vinda de Daikoku.
De repente,
na rua, diante da casa estava o deus da Fortuna.
- Oh! Essa é a casa onde vou morar a partir de hoje! a divindade
abriu a porta e foi entrando.
Com licença, sou Daikoku, o deus da Fortuna. Vim aqui para
morar e vou fazer os donos da casa muito ricos. Binbogami, você
já não é hóspede desta casa, portanto, caia
fora logo.
Não, eu nunca vou sair desta casa. Quero ficar aqui para
sempre! Meu amo e sua mulher me disseram para empurrá-lo para fora.
Vou mostrar do que sou capaz. Desta vez, a pobreza não será
derrotada pela fortuna.
Dizendo isso, Binbogami atacou Daikoku com toda a força. Surpreso,
o deus da Fortuna, olhando para o casal, disse:
Não dá para acreditar que vocês preferem viver
com o deus da Pobreza. Estão malucos.
Como num golpe
de sumô, Binbogami deu um empurrão em Daikoku e o jogou para
fora da casa. Daikoku caiu sentado no meio da rua e, ainda atordoado com
a queda, saiu resmungando e foi embora.
Nunca mais volto para esta casa. O Binbogami que mora aqui é
metido a lutador de sumô, e os donos da casa, excêntricos
demais, preferem a pobreza à riqueza.
Assim, Daikoku foi embora sem perceber que tinha derrubado seu Uchide
no kozuchi, o malho mágico da fortuna. Vendo aquele objeto caído
perto da porta, Binbogani pegou-o e disse:
Nossa, é o martelo mágico da fortuna! Basta malhar
com este martelo que moedas de ouro vão surgindo a granel. Se Daikoku
perdeu seu martelo mágico, ele não é mais o deus
da Fortuna. Eu, sim, que tenho o martelo, agora sou o deus da Fortuna.
Olhando para
os donos da casa, o ex-Binbogami disse, enquanto se dirigia ao sótão:
Peçam o que quiserem, que agora posso lhes dar. Nunca mais
serei o deus da Pobreza.
O casal continuou trabalhando, levou uma vida feliz e nunca mais faltou
dinheiro.
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