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Há
muitos e muitos anos, viveu numa aldeia japonesa um homem muito preguiçoso
e pobre. Ele vivia se queixando de sua condição de pobreza,
sem raciocinar que, se trabalhasse, poderia amenizar pelo menos um pouco
a sua situação financeira.
Inconformado
com a situação em que vivia, foi para a casa do homem mais
rico da aldeia e perguntou:
- Não
entendo por que sou tão pobre e não estou conformado com
isso. Por favor, diga-me como devo agir para resolver minha situação.
- Quando a pessoa é pobre por muito tempo, é sinal de que
em sua casa mora um Binbogami, o deus da Pobreza. O único modo
de melhorar a situação é expulsando essa criatura
de sua casa.-
Mas, senhor, eu nunca vi nenhuma criatura estranha morando em minha casa.
- Ele nem sempre é visível, principalmente quando a casa
está suja demais. Dizem que, quanto mais suja a casa, mais ele
gosta, e mais invisível se torna, porque seu espírito encosta
em algum objeto, animal preguiçoso ou pessoa pessimista e fica
o tempo todo morando na casa sem que ninguém desconfie.
- E como devo agir para expulsar essa criatura de casa?
- Primeiro, você tem que fazer uma limpeza na casa, já que
ele gosta da sujeira. Depois, você continua limpando diariamente,
para manter a casa sempre limpa. Binbogami vai sentir-se pouco à
vontade com tanta limpeza.
- Não existe um jeito mais fácil?
- Se você quer vencer na vida, terá que trabalhar bastante
e sem reclamar. Quando chegar o dia 15 de novembro, cerque sua casa com
um shimanawa (corda sagrada da religião xintô que separa
o terreno sagrado do profano). Quando a noite chegar, dance cantando:
Para fora, Binbogami! Para dentro, riqueza! Vá dançando
e cantando por todos os cômodos da casa, sem parar. O deus da Pobreza
não vai suportar ouvir essa música repetidamente e sairá
de seu esconderijo. Assim, assustado com a limpeza que encontrará
em sua casa, certamente irá embora. Depois, sua situação
financeira irá de ruim para boa, e de boa para melhor.
Entusiasmado,
o homem voltou para casa certo de que, a partir daquele conselho, sua
vida se transformaria de água para saquê (vinho de arroz).
Porém, como era muito preguiçoso, deixou a limpeza para
o dia seguinte.
No dia seguinte,
e nos outros que se seguiram, estava com muita preguiça e foi adiando
a limpeza da casa. Na verdade, ele, em vez de começar a limpeza,
ficou apenas preocupado em contar os dias que faltavam para 15 de novembro.
Quando a data esperada chegou, o preguiçoso estendeu um shimenawa
em volta da casa e começou a cantar dançando, como o ricaço
havia lhe ensinado.
Para
fora, Binbogami! Para dentro, riqueza! Apesar do jeito desajeitado
de dançar e da voz pouco agradável de ouvir, sua performance
era até interessante e, principalmente, muito engraçada.
Enquanto dançava por toda a casa, tropeçou no cachorro preguiçoso
que ele tinha.
O cachorro, que vivia o dia inteiro dormindo e tinha preguiça até
de latir, esticou o pescoço lentamente e ficou assistindo a seu
dono dançar. De repente, ficou de pé e começou a
dançar, contracenando com seu dono. O homem ficou assustado vendo
o cachorro dançando de pé. Porém, a surpresa maior
veio quando o cachorro foi transformando, diante de seus olhos, num ser
estranho com um chifre na cabeça e que lembrava o oni (demônio).
Na verdade, o cachorro voltou a andar de quatro patas e o ser demoníaco
desprendeu-se dele e foi em direção à porta.
Nossa! Você deve ser o Binbogami, deus da Pobreza, e estava
encostado no meu cachorro. Agora que deixou o cachorro, vai embora da
minha casa, não é mesmo?
Eu vou dar uma saída e volto logo. Assistindo e participando
de sua dança, gostei demais. Aliás, bom demais para guardar
só para mim. Por isso, vou chamar outros Binbogami para participarem
também. Continue cantando e dançando. Meus amigos vão
adorar essa casa suja e pobre.
Conta a lenda
que, depois desse dia, a casa ficou tão cheia de Binbogamis, que
nenhuma reza brava conseguiu exorcizar essas entidades malevolentes.
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