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Texto
e desenhos: Claudio Seto
Há
muitos e muitos anos, em algum lugar do Japão, vivia um casal que
tinha muitos filhos. Apesar de a família trabalhar bastante, vivia
na miséria. Um dia, desgostosos da situação, que
nunca melhorava, decidiram deixar de trabalhar.
Quando
o inverno chegou, já não havia nem arroz nem verduras para
comer. Todos estavam sentindo muita fome, e os filhos disseram:
Papai, nós temos muita fome, queremos comer alguma coisa.
Perdão, eu e a mamãe trabalhamos muito, sempre demos
duro, mas não sei por que sempre fomos pobres. Falei com a mamãe
e decidimos deixar tudo por conta do seja o que deus quiser.
Se vocês concordarem, saímos desta cidade e vamos tentar
a sorte em outro lugar.
Sim, nós vamos embora. Se continuarmos aqui, vamos morrer
de fome disse o filho mais velho.
Assim, resolveram que se mudariam dentro de três dias e começaram
a arrumar as bagagens que levariam. Nessa noite, o pai viu uma criatura
estranha em sua casa e levou um tremendo susto.
Quem é você? O que faz aqui?
Ora, sou o Binbogami, o deus da Pobreza, e moro aqui respondeu
o ser, que era meio homem e meio oni (demônio).
Deus da Pobreza?
Sim. Vivo há muito tempo nesta casa, mas nem sempre sou
visível para vocês.
E o que está fazendo agora?
Eu vou embora com vocês, por isso estou confeccionando tabizori
(calçado para viagem) de palha de arroz para mim. A viagem pode
ser longa.
Você também vai embora?
Sim, vamos continuar vivendo em harmonia numa nova casa.
Surpreendido com tudo aquilo, à noite, o homem confidenciou tudo
para a esposa, contando detalhadamente o ocorrido.
Então é por isso que sempre fomos pobres! O deus
da Pobreza mora em nossa casa.
O pior disse o marido é que ele quer ir com
a gente.
Se ele for conosco, de nada vai adiantar, vamos continuar na miséria.
Nesse caso, é melhor ficarmos aqui.
Ao amanhecer, o deus da Pobreza já estava esperando a família
na varanda, pronto para partir com o pessoal.
Puxa, estão demorando demais. Vou fazer mais calçados
de palha, para matar o tempo enquanto espero.
O
deus da Pobreza esperou o dia inteiro e nada de a família sair
com as malas. No dia seguinte, aconteceu a mesma coisa, e ele continuou
fazendo calçados para passar o tempo. Assim, esperou durante alguns
dias e acabou fazendo muitos calçados. Ele até gostou de
fazer sandálias e fazia-as com prazer.
Ao ver os calçados prontos, alguns vizinhos elogiaram, porque eram
bem-feitos e pareciam ótimos para andar na neve. Ao ouvir os elogios,
o deus da Pobreza ficou entusiasmado e passou a produzir mais ainda.
O
dono da casa, vendo que todos os achavam bem-feitos, resolveu vender os
calçados. Assim, levou-os até o centro do povoado, trocou-os
alguns por alimentos e vendeu outros por bom preço. Porém,
lembrou-se que, se o deus da Pobreza continuasse morando com eles, de
nada ia adiantar ganhar algum dinheiro, que logo ficaria pobre de novo.
Então, resolveu se livrar de vez de Binbogami.
Com a venda das sandálias, recebi muito dinheiro. Por isso,
vamos fazer bastante comida disse o homem ao deus da Pobreza.
O jantar dessa noite foi regado a saquê (vinho de arroz) e muitas
iguarias. O homem convidou Binbogami para jantar com a família.
O deus da Pobreza, vendo toda aquela fartura, disse:
Agora que vocês têm muito dinheiro, eu não posso
continuar vivendo nesta casa. Só vou aceitar um pouco de saquê
e esta noite mesmo vou embora.
Assim, pouco depois, ele calçou uma bota de palha e foi embora.
O casal ficou muito feliz em se livrar do deus da Pobreza.
Antes de dormir, o pai resolveu tomar um banho de ofurô (banho quente
de imersão) para amenizar o efeito do saquê. Porém,
no corredor, deu de cara com Binbogami.
Você ainda está aqui?
Eu fui para outra casa, mas não me senti muito bem, por
isso resolvi voltar.
O
casal se entreolhou e pensou: O que vamos fazer? Será que
nossa sina é morar sempre com o deus da Pobreza? Pensando bem,
já estamos acostumados com a presença dele aqui.
Assim, Binbogami passava o dia inteiro fazendo sandálias e tomando
goles de saquê. Como a produção era grande, concluíram
que logo ia faltar palha de arroz para fazer sandálias e dar continuidade
ao trabalho. Então, o casal resolveu semear arroz, para poder aproveitar
a palha.
Passados alguns meses, não só o arrozal produziu belas palhas,
como enormes cachos de arroz.
Pelo menos sabemos que, agora, não vai mais faltar arroz
para comer disse o dono da casa para a esposa.
Acho que, sobre o efeito alcoólico do saquê, o poder
empobrecedor de Binbogami foi amenizado.
Contam que eles nunca chegaram a se tornar ricos com a venda das sandálias
ou do arroz, mas pelo menos não faltou mais dinheiro e viveram
felizes para sempre.
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