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Caderno Lendas do Japão

Uri sennin

Texto e desenhos: Claudio Seto

No folclore japonês, existem seres imortais chamados sennin. São eremitas que vivem nas montanhas, dotados de poderes mágicos. A eles são atribuídos vários truques ilusionistas ou feitos milagrosos, como voar montados em animais e nuvens. Nos antigos casos que o povo conta, os sennin são citados em várias regiões do Japão, sendo conhecidos mais de 500 deles. Eles aparecem aos humanos em estradas montanhosas ou em sonhos caracterizados como um velhinho de barba branca que porta um cajado. Existem também muitos personagens reais, que, após acumular sabedoria durante toda a vida, se tornaram sennin em idade avançada.

Certa ocasião, há muitos e muitos anos, um carregamento de melões (uri) saiu de Yamato (antiga capital do Japão) rumo a Heian-kyo (nova capital) em uma carroça coberta por um pano grosso e puxado por três homens. No meio do caminho, a norte de Uji, os transportadores resolveram parar para um bom descanso, sob a sombra de um pé de caqui. Devido ao forte calor de verão, resolveram comer um melão cada um e deliciaram-se com a doce e cheirosa fruta.

Nesse momento, apareceu por lá um velhinho portando bastão que parou, de olho nos melões que os homem saboreavam.
– Estou com muita sede, será que não podem me presentear com um pedaço de melão?
– Gostaríamos de lhe oferecer um melão inteiro, mas a carga desta carroça é uma encomenda do palácio imperial, portanto, não podemos desfalcá-la – respondeu um dos homens, em tom de deboche.
– Vocês deviam ser mais educados com as pessoas de idade. Mas tudo bem, vou cultivar meus próprios melões para matar minha sede.
– O senhor vai morrer de sede antes de os melões madurarem – disse um dos rapazes, rindo do velhinho.
O ancião, sem se importar com a risada dos homens, fez o desenho de um canteiro com o bastão, juntou as sementes de melão que os homens haviam espalhado pelo chão e plantou no canteiro improvisado.

Os homens pararam de rir quando perceberam que as sementes recém-plantadas começaram a brotar, e as folhas foram se abrindo diante dos olhares de espanto. Os cipós cresciam sem parar e, em seguida, as flores se abriram e os frutos foram nascendo por toda parte. Em questão de minutos, o velhinho estava colhendo grandes melões maduros e de agradável aroma.

Os homens ficaram boquiabertos com o milagre que acabaram de assistir. Nem tiveram tempo para raciocinar sobre o que estava acontecendo, pois o velhinho disse:
– Vamos comer o melão que plantei e distribuí-lo para todas as pessoas sedentas que por aqui passarem.
Os homens pediram desculpas por terem sido egoístas e aceitaram de bom grado os melões que o bom velhinho estava oferecendo. Fartaram-se de comer e distribuíram a todos os transeuntes. Em dado momento, o velhinho disse:
– Vou continuar minha caminhada, porque já matei minha sede – assim, continuou em frente, até desaparecer nas curvas da estrada.
Quando os três homens voltaram também a seguir para a capital, perceberam que a carroça estava mais leve. Tiraram a lona que cobria os melões e perceberam que eles haviam desaparecido. Concluíram, então, que haviam cruzado com um sennin. E o truque ilusionista do sennin fez com eles comecem e distribuíssem os próprios melões.

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