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(Texto
e desenhos: Claudio Seto)
Antigamente
as florestas japonesas eram habitadas por criaturas chamadas tengu. Eram
gênios da montanha com aparência humana. Uma de suas características
era que tinham um leque mágico e à medida que abanava, seu
nariz ia crescendo.
Nessa
época, morava no alto da montanha um tengu vermelho chamado Vermelhão
e um tengu azul chamado Azulão.
Certa
ocasião, os dois sentados em cima de um enorme pinheiro, no pico
da montanha, conversavam na maior descontração.
-
Sabe amigo Vermelhão, estive pensando... Nós ficamos todos
os dias daqui de cima, observando os seres humanos lá embaixo.
-
É verdade amigo Azulão.
- Será que nós tengu gostamos de observar os seres humanos,
amigo Vermelhão?
- Sei lá amigo Azulão, nunca pensei nisso. Observamos os
humanos porque todos os tengu fazem isso.
- É verdade amigo Vermelhão.
- Amigo Azulão, quanto tempo faz que observamos eles daqui de cima?
- Acho que uns quinhentos anos, amigo Vermelhão.
- Os homens mudaram muito durante esse tempo, mas nós não
mudamos nada - observou o tengu vermelho.
- Vira e mexe, eles constróem cidades, depois brigam e destróem.
Depois constróem de novo, um pouco diferente, depois brigam e destróem.
Vale dizer que de guerra em guerra, eles vão mudando um pouco e
hoje estão completamente diferentes de quinhentos anos atrás
- comentou o tengu azul.
- Acho que já sei amigo Azulão, temos que brigar e xingar.
Nós nunca brigamos nestes quinhentos anos de convivência,
por isso que nós estamos sempre na mesmice.
- Mas brigar para que se somos bons amigos? Para nós tengu, briga
e guerra são coisas totalmente desnecessárias.
- Pois é, nunca brigamos, por isso nunca progredimos!
- Está bem, vamos brigar então. Assim, imitando os humanos,
um passou a xingar o outro e ficaram de mal.
Certo
dia Azulão estava, como de costume, observando as pessoas. De repente,
viu alguma coisa muito bonita lá embaixo no castelo. Como ficou
com vontade de tocar no belo objeto que via ao longe, começou a
fazer vento no nariz com seu abanador mágico. O nariz começou
a crescer, a crescer e foi crescendo na direção do castelo.
O nariz atravessou rios, montes, ruas e muros do castelo, e passou em
um quintal, onde uma criada estava estendendo formosos quimonos de uma
princesa para secar. Distraída, a criada pendurou o quimono no
nariz do tengu, pensando que era a vara de secar roupas.
Assustado
com o repentino peso sobre seu nariz, o tengu recolheu seu nariz, abanando
ao contrário. Como os quimonos estavam presos por grampos, foram
levados para as copas das árvores. O tengu vermelho chegou no local
para observar e perguntou:
-
Quantos quimonos bonitos, como conseguiu?
- Alonguei meu nariz até o castelo, aí penduraram vários
presentes. Vou te dar a metade.
- Não quero, estamos de mal, lembra-se? - dizendo isso Vermelhão
foi para outro lugar.
Na verdade o tengu vermelho ficou com inveja de Azulão e resolveu
fazer o mesmo.
- Eu também quero roupas bonitas. Vou alongar meu nariz até
o castelo!
E assim, Vermelhão foi abanando e abanando seu nariz, até
que esse atingisse o castelo. Alguns samurais praticavam kenjutsu, a arte
do manejo da espada. Vendo aquele nariz avançando na direção
deles, não tiveram dúvida, cortaram aquela coisa estranha
que mais parecia uma cobra cega.
Vermelhão
ao sentir uma dor aguda, recolheu o nariz mais do que depressa.
Azulão se aproximou do colega e perguntou o que havia acontecido.
Vermelhão chorando de dor contou a tragédia.
Azulão
penalizado disse novamente para Vermelhão não chorar mais
e deu metade dos quimonos para ele. Assim os dois viveram em harmonia
por mais quinhentos anos.
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