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(Texto
e desenhos: Claudio Seto)
No
século XII, duas poderosas famílias disputaram o poder político
do Japão durante décadas de guerra civil. De um lado, os
Minamoto conhecidos por clã Genji ; e do outro, os
Taira conhecidos como clã Heike. Na primeira fase, os Heike
foram vitoriosos e dominaram o país por muitos anos. Porém,
mais tarde foram derrotados pelos Genji, comandados por Minamoto- no-Yoritomo
(1147~99). Durante uma série de batalhas em mar e terra, na guerra
que ficou conhecida como Genpei, destacou-se um jovem general chamado
Minamoto-no-Yoshitsune (1159~89), meio-irmão do comandante Yoritomo.
Os
feitos de Yoshitsune durante a guerra ganharam grande popularidade, e
ele se tornou um grande herói para o povo japonês. Nessa
época, Yoshitsune tinha uma namorada chamada Shizuka, que era filha
de Iso-no-Zenshi. A bela Shizuka Zenshi entrou para a história
como Shizuka-gozen, pois gozen era um termo usado para identificar a mulher
de um guerreiro. Shizuka era considerada uma das melhores shirabyôshi
(praticante de dança sagrada) de Quioto.
Como
reconhecimento por sua bravura, o imperador aposentado Goshirakawa presenteou
Yoshitsune com um tsuzumi (tamboril instrumento musical em forma
de ampulheta). Como esse instrumento tem duas faces de couro, comentavam
na corte que uma representava Yoshitsune e outra seu meio-irmão,
o comandante Yoritomo.
Esses
acontecimentos levaram Yoritomo a desconfiar que, devido à incrível
popularidade conseguida por Yoshitsune, este poderia insurgir-se contra
ele e tomar o poder. Então, ordenou que seu exército fosse
ao encontro de Yoshitsune e acabasse com a vida dele. Realmente, havia
comentários na corte que, se Yoshitsune batesse o tamborete tsuzumi,
presenteado pelo imperador, uma rebelião seria conduzida com apoio
da corte imperial contra o xogum Yoritomo. Entretanto, apesar de saber
que seu irmão enviara um exército para matá-lo, Yositsune
não bateu o tamboril, porque não queria guerrear com seu
próprio irmão e com ele procurava conciliação.
Naquele
dias, ocorreu um imprevisto: Mussashi-bo Benkei, monge guerreiro e fiel
servidor de Yoshitsune, matou um soldado de Yoritomo, tornando quase impossível
um entendimento entre os irmãos. Yoshitsune ficou furioso com Benkei
e mandou que ele desaparecesse de sua frente, porém Shizuka intercedeu
pelo amigo, dizendo a Yoshitsune que Benkei matou o servidor de Yoritomo
por fidelidade a ele e deveria ser perdoado.
Como
Yoshitsune não queria que seus fiéis guerreiros enfrentassem
os soldados de Yoritomo, a única alternativa foi fugir para evitar
o confronto.
Acompanhado
de Shizuka e de cinco fiéis guerreiros: Mussashi-bo Benkei, Kamei
Rokurô, Kataoka Hachirô, Ise Saburô e Suruga Jirô,
para não chamar atenção por onde passasse, Yoshitsune
empreendeu uma fuga e chegou ao santuário Inari (raposa) em Fushimi,
localidade ao sul de Quioto.
Esse
episódio envolvendo Shizuka e o tamboril deu origem a uma das mais
famosas lendas do Japão.
Os
cinco fiéis guerreiros de Yoshitsune reuniram-se e resolveram que
Shizuka não devia mais acompanhar o grupo, pois estava retardando
a fuga e pondo em risco a vida de todos. Se continuasse assim, seriam
alcançados e exterminados pelo exército de Yoritomo.
Mas
Shizuka queria acompanhar seu amado de qualquer modo e estava inflexível
sobre a questão. Então, como prova de seu amor, Yoshitsune
deixou sob a guarda dela o precioso tamboril que recebeu do imperador.
Mesmo assim, Shizuka insistia em segui-lo. Não restou outra opção
a Yoshitsune senão mandar seus guerreiros amarrarem as mãos
de Shizuka num pilar do santuário.
Logo, os sacerdotes estarão de volta e vão te libertar.
Entenda que isso é para seu próprio bem, pois, se o exército
de Yorimoto nos alcançar, não vão deixar ninguém
vivo para contar a história.
Assim, Yoshitsune e seus guerreiros partiram do santuário Inari.
Porém, antes que os sacerdotes voltassem, uma tropa comandada pelo
capitão Hayami-no-Tota encontrou Shizuka.
Mas que boa surpresa! A mais bela dançarina do Japão
abandonada pelo seu herói e amante Yoshitsune.
Abandonada nunca! Tenho comigo a prova do grande amor de Yoshitsune
por mim: o tsuzumi imperial. Aconteceu que os guerreiros concluíram
que eu estava atrasando seus passos e me forçaram a ficar aqui
no santuário, sob a proteção dos sacerdotes
disse Shizuka, irritada.
Soltem as mãos dela e vamos levá-la como prisioneira.
Para mim, foi um presente dos deuses, eu não pretendia mesmo enfrentar
os valentes guerreiros de Yoshitsune. Mas, levando sua amante e o famoso
tamboril imperial, serei fartamente recompensado pelo comandante Yoritomo.
Os soldados de Tota agarraram Shizuka e arrastaram-na para fora do santuário
Inari. A dançarina gritava a todo pulmão, resistindo violentamente
à ação dos brutamontes. Naquele momento, surgiu um
valente guerreiro. E, com incrível força e agilidade, foi
derrubando um por um os soldados inimigos.
O
guerreiro em questão era Sato Tadanobu, um fiel servidor de Yoshitsune.
Assustados com a força sobre-humana de Tadanobu, os soldados saíram
correndo de medo. O capitão Hayami estava fugindo com o tamboril.
Vendo o instrumento musical sendo levado pelo inimigo, Tadanobu ficou
furioso e perseguiu-o com incrível velocidade. Tomou o tamboril,
matando Hayami-no-Tota a chutes, socos e golpes de artes marciais.
Yoshitsune
e seu grupo, que ouviram os gritos de Shizuka ecoando montanha acima,
voltaram a tempo de assistir de longe a façanha de Sato Tadanobu.
Sou eternamente grato por ter salvado Shizuka e o tamboril. Mostrou uma
valentia digna de um guerreiro Genji. Mas você não estava
na sua terra natal, cuidando de sua mãe doente?
Quando soube do desentendimento entre você e seu irmão,
vim correndo para juntar-me a vocês.
Tenho dois pedidos a lhe fazer: primeiro, aceite esta armadura
como símbolo de minha gratidão. Segundo, peço que
retorne a Quioto levando Shizuka. Seja a sombra dela, protegendo-a até
que haja conciliação entre mim e meu irmão.
Sato Tadanobu abaixou a cabeça, expressando sua fidelidade, e Yoshitsune
partiu confiante que sua amada estava segura sob a guarda do valente Tadanobu.
(Continua...)
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