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(Texto
e desenhos: Claudio Seto)
Na
primeira parte desta lenda, o kozo de um templo japonês aos pés
de uma montanha foi enviado por seu mestre para colher flores na floresta
para o Shunbun no Hi (Dia do Equinócio da Primavera). Entretanto,
o menino se distraiu enquanto tentava cumprir sua missão e, perdido,
quando a noite chegou, resolveu pedir abrigo em uma cabana. Para o seu
azar, lá morava uma Yamanbá (bruxa). Agora, Kozo precisa
fugir da velha para voltar ao templo. Tentando enganar a bruxa, o garoto
pediu para usar o banheiro e aproveitou a deixa para fugir.
A Yamanbá pensou que o aprendiz de monge demorava em fazer suas
necessidades, tanto quanto são demoradas as rezas budistas. Porém,
como a demora já estava demais, gritou irritada:
Kozo, que demora é essa? Volte logo, seu...
Nisso, uma voz apertada respondeu da casinha:
Um minuto que já vou... (bost! bost!)
Como não havia outra alternativa senão esperar, resmungando,
a Yamanbá deu um tempo. Passado esse tempo, o garoto ainda não
havia retornado. Cada vez mais irritada, a Yamanbá gritou chamando
Kozo três ou quatro vezes. Entretanto, cada vez que gritava ouvia
a mesma resposta:
Um minuto que já vou... (bost! bost!)
Como a demora estava exagerada, a Yamanbá deu um puxão na
corda, dizendo:
Não importa o que você está fazendo, volte
já para cá.
O puxão foi com tal força que a velha e malfeita casinha
desmoronou, fazendo um barulho escandaloso.
Caramba, acho que, com o puxão da corda, derrubei o menino
para dentro da fossa! pensou a Yamanbá, levantando-se. Quando
chegou com a lamparina na casinha desmoronada, viu que o menino lhe havia
enganado.
Aquele Kozo pestinha me passou a perna!
Imediatamente, saiu correndo atrás do menino. Kozo estava perdido
e havia andado em círculos pela floresta. Com seu faro aguçado,
a Yamanbá logo localizou o menino.
Kozo! Kozo! Me espera, seu pestinha! gritou a bruxa às
costas do menino.
O aprendiz de monge ficou arrepiado de medo ao ver a Yamanbá se
aproximando em incrível velocidade. Quando ela já estava
para botar as mãos nele, o garoto tirou um dos talismãs
que o monge havia lhe dado, atirou-o no chão e disse:
Transforme-se num rio, um rio grande!
De repente, seu omamori (talismã) transformou-se num enorme rio,
cheio de fortes correntezas, e a Yamanbá ficou do outro lado. Kozo,
então, tratou de fugir correndo.
A Yamanbá, com um gesto mágico, arrancou um pêlo do
nariz e deu um tremendo espirro que derrubou uma árvore. O tronco
caiu transversalmente sobre o rio, improvisando uma ponte. Então,
a velha recomeçou a perseguição. Kozo não
teve tempo nem para descansar. Logo ouviu atrás de si a voz cadavérica
da Yamanbá:
Kozo, Kozo! Seu pestinha, espere!
O aprendiz de monge então atirou no chão o segundo omamori
e gritou:
Transforme-se numa montanha muita elevada!
Nesse momento, surgiu uma montanha alta, mas a Yamanbá, que sempre
morou em montanhas, sabia que, para chegar ao outro lado, bastava contorná-la,
ao invés de subir ao pico e descer. Então correu em direção
contrária à que Kozo fugia.
Horas depois, quando Kozo pensou ter se livrado dela definitivamente,
deu de cara com a bruxa que vinha correndo em sua direção:
Kozo, Kozo! Seu pestinha! Agora te peguei.
O aprendiz de monge imediatamente lançou mão de seu último
talismã protetor. Atirou-o na direção da Yamanbá,
gritando:
Transforme-se em fogo! Um mar de fogo!
Naquele instante, uma labareda surgiu, e as chamas logo subiram tão
altas como as árvores. Uma cortina de fogo impedia a passagem da
Yamanbá. Com gestos mágicos, ela apanhou um ramo de árvore.
Em seguida, recitando palavras incompreensíveis, começou
a atravessar o fogo agitando o ramo.
Kozo pensou em fugir, mas, de repente, com a claridade do fogo, descobriu
que estava quase em frente do templo.
Oh! É o nosso templo! disse, aliviado, o Kozo.
O garoto correu para a porta, mas, como era noite, estava trancada. Então,
bateu com toda a força, chamando o monge.
Osho-san, Osho-san! Abra a porta depressa! Estou sendo perseguido
por uma Yamanbá. Abra depressa! Depressa!
De dentro do templo, Kozo ouviu a voz do monge.
Calma menino, já vou abrir, espere um pouco que preciso
fazer xixi primeiro.
Osho-san, o senhor não entendeu! A Yamanbá está
chegando perto da porta, abra logo, porta favor!
Não seja impaciente, esqueceu os ensinamentos de Buda?!
Estou lavando a mão e logo vou abrir.
Finalmente a porta abriu e Kozo, que já estava branco de medo,
entrou correndo e se escondeu no cesto das roupas sujas da lavanderia,
pedindo que o monge lhe escondesse da Yamanbá. Então, o
monge içou o cesto para cima do telhado do poço. Nisso,
ouviu a voz da Yamanbá, que havia chegado ao templo.
Osho! Osho! Onde foi parar o Kozo?
Yamanbá-don, aqui não apareceu nenhum Kozo.
Osho, como não está, se eu vi com meus próprios
olhos quando ele entrou aqui?
Deve ser engano, Yamanbá-don. Se duvida, pode procurar à
vontade.
A Yamanbá percorreu todo o templo, mas nada encontrou. No quintal,
com seu faro aguçado, sentiu cheiro de criança. Foi seguindo
a direção indicada pelo faro e chegou ao poço. Olhou
para dentro dele e viu algo refletido na superfície da água.
Como era noite, ela não percebeu que via o seu próprio reflexo.
Ah! Descobri, o pestinha está escondido dentro do poço!
Assim, ela saltou para dentro do poço para pegar o Kozo. Vendo
aquilo, o monge tratou de tampar o poço colocando uma pesada rocha
sobre a tampa.
Desde então, ninguém mais removeu a rocha, que ainda hoje
está sobre o poço, no quintal de um templo na montanha do
Japão.
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