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Caderno Lendas do Japão

A história de Shiro – parte 1
(Lendas do Japão em Literatura de Cordel)

Texto e desenhos: Claudio Seto

Papai Noel você conhece
É o velhinho de Natal
Mas muita gente desconhece
Um velhinho quase igual

Ele viveu em outra era
No outro lado do mundo
É o Velhinho da Primavera
Que tinha sentimento profundo

Hanasaka Jiji era o seu nome
Literalmente o “Velhinho Floração”
É personagem de renome
De uma lenda do Japão

Os japoneses adoram esse velhinho
E por ele tem muito carinho
Pois quando existem dificuldades
Ele indica um florido caminho

Se sua vida é um galho seco
E seu pedido não tem eco
Peça ao velhinho o que quiser
Para uma graça receber

Esta história começa assim:
Há muitos e muitos anos
Vivia um casal de velhinhos
Muito além dos oceanos

Não tinha filho o casal
E para amenizar a solidão
Tratava Shiro como tal
Com carinho e devoção

Shiro não era gente, não,
Era um animal de estimação
Um cachorro de pêlo branco
Dócil, meigo e muito franco

É bom que seja lembrado
Porque assim era chamado
Era branco como suspiro
E branco em japonês é shiro

Certo dia quando o velhinho
Capinava devagarzinho
Shiro cavava sem parar
Latindo no mesmo lugar

Como era tanta a barulheira
Num esforço sem brincadeira
Para o osso desenterrar
O bom velhinho foi ajudar

Cavando o local indicado
Para o osso encontrar
O velho ficou assustado
Com o que acabara de achar

Eram muitas moedas
Todas elas de ouro!
Uma vez desenterradas
Um verdadeiro tesouro!

O velhinho encheu a cesta
Com o reluzente achado
Comemorou dando uma festa
Ao cachorro venerado

Com avanço da idade
E o empenho esforçado
A labuta diária na roça
Tornou-se um fardo pesado

Por isso aquele rico achado
Encontrado no local indicado
Foi uma dádiva divina
Que veio de uma ação canina

Foi assim que de repente
O casal que era tão pobre
Mudou completamente
E até parecia nobre

Acontece que na casa vizinha
Morava um velho ranzinza
Que tinha um coração maldoso
E a fama de ganancioso

Sem perguntar se era bem-vindo
Dirigindo-se a casa do lado
O ganancioso foi logo pedindo
O cachorro Shiro emprestado

Não sabendo dizer não
O bom velhinho à contra-gosto
Deixou o vizinho levar o cão
Para o terreno oposto

Sempre sendo maltratado
Por uma corda foi puxado
Pelo pescoço amarrado
Shiro foi levado arrastado

Na roça do velho malvado
Ainda que solicitado
Shiro permaneceu calado
Deixando o homem irritado

Seu cachorro teimoso
mostre-me onde tem ouro.
Dizia o velho asqueroso
Bufando como um touro

Arrastado por toda horta
Puxando sempre na marra
Em seu lombo chicotadas
O cachorro sentiu a barra.

Numa tremenda agonia
Shiro se esperneava e debatia
A beira de uma taquicardia
Brecando com as patas, resistia.

Mesmo assim o velho maldoso
Num gesto covarde e vergonhoso
Arrastou o cachorro feito escravo
Ferindo seu corpo com agravo

Não suportando o sofrimento
E para expor o seu tormento
Shiro, bravo como nunca se viu
Mostrou os dentes e latiu

Porém, cego pela ganância,
O latido soou com relevância
O cérebro do velho malvado
Pensou ser o local indicado

O invejoso com uma pá na mão
E olhos estalados de ambição.
Cavou feito um doidão
Fazendo logo um buracão

Delirando e suando sem parar
Depois de muito cavar
Ouro que queria não achou
Mas muitas pedras encontrou

Quando já estava desistindo
Viu algo na terra à cintilar
Cavou com as mãos insistindo
Indagando: – Seria ouro a brilhar?

Nisso, a seus pés a terra cedeu
E tudo em sua volta fedeu
O malvado se viu atolando
Num poço de fezes afundando

O desastrado havia encontrado
Uma velha fossa enterrada
E banhado na podre sujeira
Sentiu na pele a fétida meleira

Quando o velho do saiu do buraco
Com expressão de maldito carrasco
Tendo uma pá assassina na mão
Golpeou Shiro sem perdão

No crânio em cheio a pá atingiu
O violento impacto os ossos esmagou
Enquanto o malvado de lá fugiu
Shiro sem vida estendido ficou

O bom velho ao ser notificado
Do ocorrido sentiu-se culpado
Pois um animal muito estimado
Sem recusar ele havia emprestado

Recolhendo o corpo na cesta
Ao cachorro pediu perdão
Pois filho não se empresta
Nem mesmo por milhão

Ao ver o cadáver descer à cova
A velhinha acendeu um incenso
Ao sopro do vento magoada trova
Sentindo na alma vazio imenso

Regado a lágrimas o velho plantou
Semente de pinheiro na sepultura
E o casal chorava diariamente
Lagrimejando na árvore futura

Junto a sepultura do amigo fiel
Chorar todo dia virou ritual
Lágrimas tantas a terra umedeceu
E um fenômeno inesperado acontece

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