|
(Texto
e desenhos: Claudio Seto)
As folhas de
momiji (acer), que da cor verde passaram para o amarelo e depois para
o laranja, agora ganhavam uma cor vermelho vivo. Não só
as árvores como o chão, forrado de folhas caídas,
davam a impressão de que todo o jardim do castelo de Nabeshima
havia pegado fogo. Era final de outono no Japão.
O príncipe de Hizen, um membro da família honrada de Nabeshima,
tinha como sua concubina favorita uma mulher charmosa, cujo nome era Otoyo.
Certa ocasião, os amantes passeavam no jardim do castelo e permaneceram
apreciando as flores até o pôr-do-sol. No retorno, sem que
eles percebessem, foram seguidos por um enorme gato negro.
Otoyo dirigiu-se para o seu quarto e sentiu uma inesperada indisposição.
Tentou manter-se acordada, mas logo dormiu. À meia-noite, foi despertada
por uma estranha sensação e viu dois olhos enormes que a
fixavam brilhando na escuridão. Prestando bastante atenção,
percebeu que se tratava de um enorme gato negro. Porém, antes que
ela pudesse gritar pedindo ajuda, o animal saltou em sua garganta e mordeu-a
profundamente, estraçalhando seu pescoço até a morte.
O gato, então, foi lambendo o sangue da moça e adquirindo
forma humana, ficando igual a sua vítima. Então, arrastou
Otoyo para baixo do assoalho e enterrou o corpo sob a varanda.
O príncipe, que de nada sabia, não desconfiou nem um pouco
da bela mulher que naquela noite o procurou para fazer amor. Assim, nos
dias seguintes, como um ritual, ela o procurava no meio da noite e ia
sugando seu sangue sem que a vítima percebesse. Em poucos dias,
o príncipe de Hizen perdeu toda a força e seu rosto estava
mais pálido que uma vela. Permanecia o dia todo deitado, pois já
não tinha força para se levantar.
Os médicos do palácio prescreveram vários medicamentos,
mas nenhum fez o efeito desejado. Suspeitaram então que alguém
estava envenenando o príncipe.
Vários samurais montaram guarda ao redor de seu quarto. Porém,
quando chegou o meio da noite, todos pegaram no sono e só acordaram
na manhã seguinte. Nas noites que se seguiram, as mesmas coisas
aconteceram. Nenhum soldado conseguia ficar acordado.
Os conselheiros concluíram que alguma força estranha, de
poder sobrenatural, estava agindo naquela alcova. Chamaram monges budistas
e sacerdotes xintoístas para fazer exorcismo no quarto, já
que a saúde do príncipe ia piorando dia a dia. Foram semanas
de orações e rituais diversos, mas de nada adiantou, a saúde
do príncipe de Hizen ia de mal a pior.
Naquela ocasião, um samurai de nome Ito Soda, que serviu na infantaria
de Nabeshima, atravessou o jardim de inverno e invadiu as proximidades
do quarto do príncipe. Ele solicitou aos conselheiros que permitissem
a ele permanecer escondido no quarto do enfermo, para desvendar como agia
o espírito maligno que estava prejudicando seu senhor.
Seu pedido foi prontamente aceito, já que todas as tentativas tinham
se mostrado infrutíferas. Ito ficou firme em seu posto, no entanto,
como aconteceu com os guardas que o antecederam, a partir das dez horas,
começou a sentir um sono irresistível. Para espantar seu
sono, espetou sua faca profundamente em sua coxa, de modo que a dor aguda
o mantivesse acordado.
De repente, as portas deslizantes do quarto do príncipe abriram-se,
e uma linda mulher entrou e dirigiu-se ao leito. Ela agachou na cabeceira
do príncipe e esticou o pescoço como quem vai beijar o adormecido.
Porém, a mulher, pressentindo a presença de mais alguém
no quarto, virou a cabeça e, com olhos brilhantes, disse:
Tem alguém aí?
Ito permaneceu escondido e em silêncio, espiando pela fresta da
porta do quarto ao lado. Percebendo que alguém a observava, ela
levantou e saiu do quarto às pressas.
Na noite seguinte, a cena se repetiu. Assim, por não ter sido subjugado
por duas noites seguidas enquanto dormia, a saúde do príncipe
melhorou consideravelmente. Para Ito Soda, ficou claro que Otoyo era alguma
entidade maligna tentando acabar com a vida do príncipe de Hizen.
Diante disso, traçou um plano para acabar com ela.
Fingindo ser um mensageiro do príncipe, foi até o quarto
dela, para entregar um bilhete que sua alteza lhe enviara. Ao aproximar-se
da falsa Otoyo para entregar o suposto bilhete, Ito sacou da espada e
desferiu um golpe na direção dela. Porém, com percepção
felina, ela esquivou-se da lâmina pulando para trás. Na seqüência,
assumiu a forma de um gato preto e saltou pela janela. Ganhou o telhado
do castelo e, segundos depois, fugia em direção à
montanha.
Esse gato que gostava de lamber sangue humano passou a incomodar os habitantes
da montanha. Tempos depois, o príncipe de Hizen, completamente
recuperado, organizou uma caçada ao gato maldito de Nabeshima.
Um exército com milhares de samurais vasculhou a montanha. Somente
no oitavo dia, finalmente, o gato maldito foi liquidado e a paz voltou
à região.
|