|
Texto
e desenhos: Claudio Seto
No capítulo
anterior, a princesa Aya foi prometida, por seu pai, ao segundo filho
do senhor do castelo de Ako. Entretanto, ao passear pelos jardins do palácio
onde morava, numa noite de lua cheia, Aya foi salva de uma queda por um
jovem misterioso, no canteiro das peônias. Desde então, a
princesa apaixonou-se pelo rapaz e acabou adoecendo.
Senhor, acho que a doença da princesa Aya é uma doença
de amor. Ela está profundamente apaixonada pelo jovem que viu por
alguns instantes e depois desapareceu misteriosamente. Tenho medo de que,
se não conseguirmos encontrar o tal jovem, ela definhe dia a dia
até morrer disse Sadayo, a dama de companhia da princesa.
Mas o nosso castelo é muito vigiado, é humanamente
impossível que alguém consiga entrar e sair sem ser visto
pelos guardas dos portões... murmurou o pai de Aya, Naizen
no Jô.
Está sugerindo alguma coisa senhor?! Bem sabes que raposas
e texugos têm o poder de se transformar em seres humanos e nos enganar.
Será possível que algum desses bichos tenha entrado no castelo
por alguma pequena abertura no muro?!
Nessa noite, para tentar reanimar a princesa, foi trazido da capital o
famoso músico Yashakita Kengyo, mestre num instrumento de cinco
cordas chamado biwa. A noite estava quente, e o concerto musical foi ao
ar livre. Os acordes espalharam-se pelo ar, tomando conta do belo jardim
do castelo. De repente, no canteiro das peônias, um jovem de ar
nobre apareceu para ouvir a música. Desta vez todos o viram, e
ele trajava a mesma roupa com bordados de peônias em fios de ouro.
É ele! gritaram todos os que assistiam o concerto.
Diante da reação das pessoas, o jovem desapareceu instantaneamente.
A princesa ficou visivelmente excitada. Levantou-se e foi procurar pelo
moço no jardim, mas nada encontrou. O pai dela, senhor do castelo,
ficou muito confuso com a situação. No dia seguinte, mandou
fazer uma busca minuciosa no jardim, revirando pedras, removendo canteiros
de arbustos e procurando em cima das árvores, porém, não
encontrou ninguém escondido, nem mesmo raposa ou texugo.
Nessa mesma noite, quando dois músicos da castelo, Yaesan e Yakumo
tocavam seus instrumentos, respectivamente a shakuhachi (flauta) e o koto
(instrumento de cordas), o jovem novamente apareceu e desapareceu ao ser
notado. O mistério aumentou, pois a vigilância tinha sido
triplicada, e tudo no castelo foi vasculhado palmo a palmo.
Yuki Naizen no Jô resolveu chamar, então, o renomado Maki
Hyogo, um veterano oficial do exército que atuava como conselheiro
na corte do Shogun, para capturar o jovem misterioso. O astuto Maki, que
adorava desafios, aceitou prontamente a missão. Vestiu-se de preto,
como um ninja, para fazer-se invisível e escondeu-se no canteiro
das peônias.
Todos tinham percebido que a música exercia certo fascínio
sobre o jovem misterioso. Conseqüentemente, os músicos Yaesan
e Yakumo fizeram um concerto naquela noite. O público presente
prestou mais atenção no canteiro das peônias do que
na música. A certa altura, um belo jovem surgiu no jardim, com
magnífica veste ornada de peônias bordadas.
Maki Hyogo levou um susto, pois o jovem surgiu do nada exatamente a um
passo de onde ele estava escondido. Em seguida, agarrou o jovem por trás,
na altura da cintura. Manteve-o apertado por alguns segundos, quando sentiu
uma baforada de vapor na cara e caiu no chão agarrado firmemente
ao jovem.
Os guardas e o pessoal do castelo que assistiram à cena correram
para o canteiro e deparam-se com Maki Hyogo no chão:
Vejam, consegui agarrá-lo disse Maki, mas, vendo
o que estava abraçando, descobriu que se tratava apenas de uma
enorme peônia. Como Hiogo também era astrólogo, logo
descobriu do que se tratava.
Raposas e texugos não conseguiriam passar pelos portões
e os guardas do castelo, porém, o jovem sim, pois ele é
o espírito da peônia e nasceu aqui mesmo.
Os videntes que estavam no local concordaram plenamente com Maki Hiogo.
O espírito da peônia manifestava-se sob aparição
de um belo jovem, porém não era na verdade um ser material.
Esclarecido o caso, a princesa Aya levou a grande flor de peônia
para seu quarto e colocou-a num vaso com água. Dia a dia, ela foi
melhorando de saúde, até recuperar-se completamente. Inexplicavelmente,
a grande peônia do vaso também ficava cada vez mais radiante,
não dando nenhuma mostra de murchar, apesar de o tempo ir passando.
Como a princesa estava agora com ótima aparência, seu pai
não via nenhum motivo para continuar adiando o casamento dela.
Então, dias depois, o senhor de Ako e sua família chegaram
com uma luxuosa comitiva, para realizar o casamento de seu segundo filho.
A princesa Aya despediu-se da grande peônia e foi para a cerimônia
de casamento. Após o ofício, seguiu com seu marido para
o castelo de Ako. As camareiras que acompanharam a princesa viram a incomparável
beleza da flor quando foram para a cerimônia. E, após o evento,
quando passaram pelo quarto da princesa novamente, viram a peônia
murchar e despetalar-se. A alma da flor, não suportando a dor de
ver sua amada princesa casando-se com outro, despedaçou-se de tristeza.
O povo local, quando contava o caso da princesa Aya ou Aya Hime, passou
a referir-se a ela como Botan Hime, ou princesa Peônia.
|