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Caderno Lendas do Japão

A Gata Encantada

Texto e desenhos: Claudio Seto

Há muito, muito tempo, existia um lavrador que, por mais honesto e trabalhador que fosse, sempre vivia na pobreza. Já estava na casa dos 40 anos e ainda não havia conseguido uma esposa.

Numa noite chuvosa, ouviu um miado na porta de sua casa.

– Deve ser algum gato que perdeu o caminho de casa devido à forte chuva – pensou o homem.

Ao abrir a porta, deparou-se com uma gata molhada e logo conheceu a bichana. Pertencia à família mais rica da aldeia.

O homem apanhou a gata e enxugou seus pêlos molhados com uma toalha. Em seguida, deu-lhe uma tigela de arroz.

– Sou pobre, não tenho comidas gostosas como as da casa em que você mora, porém, não posso deixá-la passando fome.

Cuidou da gata da melhor maneira possível e tratou de arrumar um cantinho quente para a bichana dormir. Como o homem não tinha com quem conversar, disse à gata, brincando:

– Se você moesse as sementes de trigo enquanto eu cuido da lavoura, eu seria um homem feliz, pois adiantaria bastante o meu serviço.

No dia seguinte, quando retornou do trabalho, logo percebeu que a gata não tinha ido embora. Viu, com grande surpresa, que ela havia moído as sementes de trigo e produzido farinha usando pilão e almofariz.

– Oh, meu Deus! Que gata maravilhosa! Você moeu o trigo e fez farinha! Como sou feliz em ter uma gata tão agradável como você!

O homem preparou bolinhos de chuva e comeu junto com a gata.

– Que coisa engraçada, parece que você entende o que digo, só falta falar.

Três dias depois, a gata falou, de repente, umas palavras:

– Caro mestre, eu fui chutada pelos meus donos anteriores, porque não tinha nenhuma serventia para eles. Eles são ricos e têm bastante serviçais, nada restando para eu fazer. Aqui, encontrei a felicidade de poder servir meu novo amo. Porém, como gata, meu trabalho pode ser limitado, por isso, gostaria de ir ao Santuário de Ise para rogar por minha transformação em ser humano.

O rapaz não acreditou muito que isso fosse possível, porém, amarrou um amuleto em torno do pescoço da gata e disse:

– Isso é para eu reconhecê-la quando virar humana.

Dias depois, uma linda mulher apareceu na casa do rapaz.

– Não está me conhecendo? – perguntou a bela donzela.

Vendo o amuleto no pescoço dela, o rapaz foi tomado de uma grande sensação de felicidade. Os dois se casaram e trabalharam muito dia e noite. Dizem que, anos depois, ele era um dos homens mais ricos da aldeia.


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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