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(Texto e foto:
Helder Horikawa/NB)
Andar compassado,
polidez nas palavras e muita humildade. Assim é Kokei Uehara, presidente
da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social
(Bunkyo) e da Associação das Comemorações
do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (ACCIJB).
No dia 2 de setembro, por quase duas horas, ele manteve a mesma postura
de sempre em uma conversa reservada com o NB sobre os festejos oficiais
que marcaram a chegada do navio Kasato Maru e seus 781 nipônicos.
O professor,
como é carinhosamente chamado pelos funcionários das duas
entidades, não disse, mas pessoas próximas a ele comentam
que o presidente está chateado com as constantes críticas
ao seu trabalho e à sua equipe (na última edição,
o NB apresentou uma matéria sobre erros e acertos acerca dos festejos).
O semblante, de fato, parece mais triste. Perdi noites de sono pensando
nos festejos. Mas o saldo foi bastante positivo. Tivemos alguns imprevistos,
sim, mas faria tudo da mesma forma, com a mesma equipe, justificou.
Aos críticos,
Uehara balança os ombros como quem dissesse fazer o quê?.
As críticas partem de uma meia dúzia de inconformados
que ficou de fora das festas, argumentou. Os números dos
festejos no Sambódromo são mesmo assustadores. Quatro mil
voluntários, 16 mil participantes e um público de quase
30 mil no sábado e outros 30 mil no domingo. A todos esses,
tenho uma imensa gratidão. Eles foram os responsáveis pelas
festas. Não trabalhei para agradar meia dúzia de pessoas,
disse. Mas tão grandiosos quanto essas estatísticas foram
os problemas.
Calejado de
outras administrações (ele presidiu a Associação
Cultural e Esportiva Piratininga na década de 70 e a Aliança
Cultural Brasil-Japão), Kokei Uehara é extremamente político
quando questionado, por exemplo, sobre a falta de união na comunidade
nikkei e seus rumos nos próximos cem anos. E sobre a sua falta
de liderança, fato muito mencionado nos bastidores? Para
muita gente, liderar é gritar. Isso eu não faço e
nunca fiz em toda minha vida acadêmica, destacou ele, fundador
da Fatec e do curso de Engenharia da Universidade Paulista (Unip) e professor
da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP)
há 54 anos. Broncas ele deu, sim. Foi em quatro estudantes, ainda
quando era mais atuante na USP. Em meio aos 7 mil alunos que já
diz ter formado, é pouquíssimo. Sempre fui assim,
não mudaria agora, disse.
A ACCIJB, a
princípio, é uma entidade criada para organizar e executar
as ações do centenário. Teoricamente, segundo seu
presidente, encerraria suas atividades ao final de 2008, quando termina
o Ano do Intercâmbio Brasil-Japão. Mas isso ainda deve levar
algum tempo. Meses, talvez anos. Precisamos fazer todos os acertos
e resolver as pendências, afirmou. Entre as pendências,
correm os boatos de que a associação já contabiliza
um prejuízo que ultrapassa a casa de R$ 1 milhão. Ele não
confirma. Nossos gastos ainda estão sendo contabilizados,
adiantou.
De todos os
problemas, o professor Uehara disse que ficam as lições
para o futuro. Ele mesmo já sabia que os festejos não agradariam
a todos. Problemas acontecem, é impossível fazer tudo
100% certo. Mas fizemos tudo dentro das nossas possibilidades, mencionou.
Os contratempos com a entrega dos convites e os concursos da logomarca
e da mascote também são minimizados.
Uehara solta
um largo sorriso quando fala dos aspectos positivos do centenário.
Ele sonhava em divulgar a cultura japonesa aos brasileiros e homenagear
dignamente os pioneiros. Isso, disse que conseguiu fazer. De sua gaveta
da escrivaninha da sala da presidência do Bunkyo, ele retira um
exemplar do jornal Liberation, da França. Aponta com orgulho para
um editorial de duas páginas falando sobre o centenário.
O Le Monde [jornal também francês], e as TVs BBC e
até a Al Jazeera deram o mesmo espaço, enumerou.
De fato, o
centenário, aos olhos da mídia, foi um verdadeiro sucesso.
Nunca se viu a grande imprensa, escrita e televisiva, dar tanto espaço
a um grupo étnico. Isso demonstra quanto os imigrantes e
seus descendentes são adorados neste país, alegou.
Independentemente
das críticas, Uehara avisa que deixará o comando do Bunkyo
em março do ano que vem. Em abril, ocorrem as eleições.
Ele disse que não concorrerá. Primeiro, porque quer descansar.
E, segundo, porque, pelo estatuto, não pode partir para um terceiro
mandato. E, mesmo que pudesse, pondera: Já cumpri minha missão.
Certo ou errado, fiz minha parte.
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