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Caderno Especial

Nossas pioneiras

(Texto: Susy Murakami/NB | Fotos: Susy Murakami/NB e Arquivo Pessoal)

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o NB mostra a trajetória de nikkeis pioneiras que fazem parte da história nipônica, prestes a completar cem anos no Brasil. Em comum, elas têm a origem – em cidades do interior paulista –, a dedicação e o sucesso.

 
Emília Sato no comando da Unifesp

Emília: seu maior desafio, hoje, é conseguir tempo para si mesma

Para Emília Inoue Sato, andar pelos corredores do Hospital da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) sem ser interrompida parece missão impossível. Chefe do Departamento de Medicina da universidade desde 2005, ela acumula respeito, admiração e muito trabalho na função que exerce. Emília é pioneira não só entre as nikkeis. Ela foi a primeira mulher a assumir tal cargo. Antes disso, também já havia feito história ao ser a primeira presidente da Sociedade Paulista (1990) e depois da Brasileira (1999) de Reumatologia.

Nascida em Miracatu, interior de São Paulo, Emília sempre quis ser médica. Aos 8 anos, deixou a família para vir a São Paulo ajudar uma tia a cuidar dos primos. Aos 16, já trabalhava para entrar na faculdade. Foi nessa época, que, segundo ela, sentiu pela primeira e única vez discriminação por ser mulher.

Para fazer medicina, curso integral, teria que trabalhar à noite, mas o banco no qual atuava se recusou a transferi-la para o período noturno, porque não permitia mulheres em tal horário. A saída foi conseguir um outro emprego e ela passou, então, a trabalhar na escola onde havia concluído o ensino médio. Entrou para faculdade em 1972 e, ao terminar, fez pós-graduação e doutorado em reumatologia. A escolha pela área aconteceu após a morte da irmã, causada pela doença. Em 1986, Emília entrou para o grupo de docentes da Unifesp.

Além do hospital, Emília também atende em consultório particular na capital paulista. O seu dia começa por volta das 8 horas, quando chega ao hospital, e vai até às 22 horas, quando retorna a casa. Divorciada e mãe de dois filhos, ela assume que o maior desafio, hoje, é conseguir tempo para si mesma. “A maior dificuldade é conseguir fazer tudo o que eu quero, porque o tempo é curto”, explica.

 
Geny Sanematsu, a primeira Miss Colônia

Geny com os netos em sua casa: atividades físicas e boa alimentação para continuar bela

Há um ano de completar bodas de ouro, Geny Yoshie Sanematsu esbanja a mesma beleza e elegância da época em que foi eleita Miss Colônia no dia 19 de janeiro de 1957. Foi o primeiro concurso de Miss Nikkei realizado no Brasil.

Natural de Lins, interior de São Paulo, Yoshie trabalhava com o pai, que tinha uma fábrica de leques. Ela fazia a pintura do abano. Foi, então, convidada para participar do concurso que seria realizado na capital paulista. Recebeu o convite com certo receio, já que teria que vir para cidade grande e achava difícil concorrer com belas garotas de todas as partes do Brasil.

Mas, com o incentivo dos pais, aceitou o desafio. Durante o concurso, conheceu o marido, o artista plástico Yutaka Sanematsu, que fazia parte da diretoria do Clube Piratininga, um dos organizadores do evento. Um ano depois de um namoro a distância, ela em Lins e ele em São Paulo, os dois se casaram e Geny, então, mudou-se para a capital.

Geny foi eleita miss deixando para trás outras 12 moças. Com 71 anos, a primeira miss nikkei diz que o segredo de manter a beleza e a jovialidade é fazer atividades físicas e ter boa alimentação. “Desde pequena, sempre gostei muito de esportes”, diz ela, que também já fez dança flamenca e sapateado. Hoje, Geny dedica-se ao tai chi chuan e é adepta da dieta macrobiótica, que adotou após ter problemas de saúde por causa da perda do único filho há nove anos.

 
Sunao Taga Takami, professora titular da Fousp

Sunao, com o marido, Tadashi, e os filhos na formatura

Sunao Taga Takami expressa nos olhos o orgulho pela família. Motivos para isso não faltam. O marido, Tadashi Takami, é um dos nomes de maior destaque da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (Fousp). Os dois filhos, bem-sucedidos, já lhe deram netos que seguem o mesmo caminho. “Somos abençoados por Deus”, costuma dizer.

A primeira nikkei a se formar em Odontologia na USP, em 1953, e a se tornar professora titular da faculdade, em 94, é um exemplo de força e dedicação. Quem vê a serenidade com que fala de sua família, não imagina as dificuldades que teve de enfrentar.

O pai imigrante sempre valorizou a educação. Sunao foi a única de sua família a conseguir se graduar, já que os irmãos mais velhos não puderam terminar os estudos quando escolas foram fechadas por causa da Segunda Guerra. “Na época da guerra, sofremos muito. Achávamos que só com trabalho e o estudo iríamos conseguir superar as dificuldades”, diz.

Segunda mais nova de nove irmãos, Sunao veio à cidade de São Paulo com 17 anos para fazer a faculdade. Inicialmente, pensava em clinicar, mas mudou de idéia para acompanhar e ajudar o marido. Começou a trabalhar no departamento de prótese da Fousp de Bauru. Em 1970, fez seu doutorado e, em 1994, tornou-se professora titular da faculdade em São Paulo.

 
Nobue Miyazaki: doutorado no exterior

Nobue fez doutorado na Universidade de Tóquio e tem um livro publicado no Japão

Na década de 50, enquanto para maioria das mulheres uma vida bem-sucedida significava casa e filhos, Nobue Miyazaki já se embrenhava Amazônia adentro para trabalhar. Filha de Hachiro Miyazaki, reponsável pela introdução de imigrantes japoneses nas regiões de Birigüi, Bilac e Araçatuba, ela chegou a São Paulo aos 8 anos com a família, que veio em busca de melhor formação para os filhos.

Formada em Geografia e História pela USP em 1952, Nobue foi a primeira nikkei a se doutorar fora do País. Pós-graduada em Etnologia e Antropologia, ela também fez estágio do Museu do Ipiranga, hoje Museu Paulista. Nobue recorda que, na época, havia apenas ela e mais uma mulher na faculdade de filosofia da USP.

A oportunidade de ir ao Japão surgiu quando um grupo de japoneses veio ao Brasil e Nobue os acompanhou na pesquisa que fariam na Amazônia. Conseguiu uma bolsa e viajou, em 1958, a bordo do Brasil Maru rumo ao Japão, onde ficou por quatro anos.

Em 1963, ela fez doutorado no Departamento Cultural da Universidade de Tóquio com uma tese sobre a região do Xingu, índios com os quais conviveu em trabalho de pesquisa em Mato Grosso. O trabalho também lhe rendeu um livro publicado em japonês.

Aposentada, Nobue continua com sua pesquisa no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, a pedido da universidade, já que é a única especialista em etnologia na instituição.

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