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(Texto:
Helder Horikawa/NB | Fotos: Divulgação)
Ela nasceu
em Osaka há 39 anos. De longos cabelos avermelhados, é bonita,
mas não se julga vaidosa. É mãe de uma menina de
apenas 1 ano e 8 meses. Até aí, nenhuma surpresa. Mas Shoko
Tendo, filha do ex-mafioso Hiroyasu Tendo, que morreu há dez anos,
lançou um livro no qual conta sua vida dentro da maior organização
criminosa do Japão: a Yakuza, a temida máfia japonesa.
Em 165 páginas
e nove capítulos de Yakuza Moon: Memories of a Gangsters
Daughter (Lua da Yakuza: Memórias da Filha de um Gângster),
Shoko faz relatos de como aproveitou os privilégios da posição
que seu pai ocupava como chefe do grupo Tendo-gumi, que pertencia à
facção Yamaguchi-gumi. Também alega que cansou de
ser maltrada pelos amigos de escola. Sofri muito preconceito. Os
pais dos meus colegas diziam: não brinquem com a Shoko, o
pai dela é yakuza, lembra.
O livro de
Shoko faz sucesso no mercado japonês, no qual tem o título
Yakuza na Tsuki, publicado pela Editora Bungeisha e vendido a ¥ 2,4
mil. Na primeira edição, foram apenas 1,5 mil exemplares.
Mas, na última, a 11ª, já contabilizava 75 mil unidades
vendidas. Recentemente, a obra ganhou a versão em inglês
pela Kodansha International. Já está na quarta edição
e perto de cem mil exemplares vendidos. Versão em português?
Quem sabe, diz.
Além
de abandonar a vida no meio da máfia, onde chegou a ser amante
de um ex-líder em troca do perdão de dívidas de seu
pai, Shoko garante que deixou as drogas e as noitadas de sexo para trás.
Está limpa faz tempo e não guarda saudades da época.
Me curei sozinha, sem procurar tratamento em clínicas,
jura. Foi, como ela mesma diz, tudo na base da força de vontade.
Shoko concedeu
uma entrevista exclusiva ao NB. Nela, fala de seu passado e os projetos
para o futuro. De cara, avisa que odeia as tatuagens espalhadas praticamente
por todo o seu corpo. Afinal, os dragões desenhados e uma cortesã
medieval com um seio à mostra e faca entre os dentes, são
as únicas lembranças evidentes dos tempos em que era conhecida
como a Princesa da Máfia, justamente por ser filha
de um gângster.
(*Colaborou
Andreano Takahashi/NB)
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Shoko:
Consegui largar as drogas sem recorrer a nenhuma clínica
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O que a
fez escrever o livro Yakuza moon?
Como não tinha amigos, desde criança lia livros, desenhava
e me divertia brincando com o mundo da imaginação. Isso
despertou o desejo de ser escritora. Quando tinha 22 anos, perdi minha
mãe, me separei aos 27 e, aos 29, meu pai morreu. Quando me vi
sozinha, pensei: quero ser mesmo escritora.
O que significa
o título?
A lua que podemos ver das grades do reformatório juvenil parece
estar próxima, mas está longe. Na minha época como
delinqüente, a lua sempre me observava. A lua sabe tudo sobre minha
vida. Meus pais, que estão no céu, continuam a me proteger
e a me iluminar calorosamente, assim como a lua. Foi por isso que escolhi
esse título.
Como seu
pai entrou na Yakuza?
Não sei exatamente. Meu pai era chefe do grupo Tendo-gumi,
em Osaka, que pertencia à facção Yamaguchi-gumi,
a maior máfia do Japão. Minha família também
tinha empresas de construção e imobiliárias. No exterior,
as pessoas acham estranho mafiosos possuírem sua própria
empresa, mas, no Japão, isso não é raro.
Como era
ser filha de um chefe de um mafioso?
Quando criança, as empresas do meu pai iam muito bem, portanto
eu tinha uma vida regada de riqueza. Tínhamos uma bela casa, com
nishikigois (carpas japonesas) nos jardins, piscina e, na garagem, por
causa do gosto por carros de meu pai, sempre tínhamos modelos novos
da Mercedes-Benz e motos Harley-Davidson.
Você
recebeu muitas ameaças de morte?
Eu, particularmente, não recebi. Mas lembro que, quando saíamos
para comer fora, mesmo meu pai dizendo que não era necessária
a companhia dos seus subordinados, eles sempre estavam atrás. Por
isso, minha família nunca teve a oportunidade de comer tranqüilamente
em locais públicos.
Você
foi maltratada na escola. Porque isso acontecia?
Era maltratada e sofria preconceito dos colegas, porque era filha
de um membro da Yakuza. Mas isso aconteceu porque os pais dos meus colegas
falavam aos seus filhos: Não brinquem com a Shoko, o pai
dela é yakuza!. Acho que isso ocorria porque os pais tinham
ciúmes da nossa família, que era rica.
Você
se viciou em drogas e foi amante de um líder criminoso?
Quando tinha 16 anos, meu pai ficou gravemente doente e acabou hospitalizado
durante um longo período. Ficou difícil continuar a administração
das empresas sem a presença dele. Além disso, a pessoa que
meu pai deixou como fiador sumiu e nossa família caiu imediatamente
na pobreza. Meu pai perdeu a força que tinha e aposentou-se da
Yakuza. Os cobradores de dívidas visitavam nossa casa diariamente.
Minha família chegou a passar dias sem ter o que comer. Foi nessa
situação que um ex-yakuza que ajudava financeiramente nossa
família falou: Se você se tornar minha mulher, vou
zerar todas as dívidas de sua família. Que tal?. Assim,
eu me tornei amante desse homem. Íamos todos os dias ao motel.
Ele era usuário de drogas e me oferecia também. Foi a partir
daí que me tornei uma viciada.
Que tipo
de drogas usava?
Na escola secundária, fumava maconha e cheirava tíner.
Depois de me formar, comecei a usar estimulantes.
Como conseguiu
abandoná-las?
Quando tinha 19 anos, já morava sozinha. Um dia, minha irmã
mais nova ligou para mim e disse: Onechan, a casa foi fechada, recebemos
a ordem de despejo e amanhã mesmo precisaremos sair daqui.
Senti que ela deu a notícia chorando muito. Quando ouvi isso, senti
como se tudo desmoronasse ao meu redor. Achei que, para minha irmã,
já bastavam essas duras experiências e decidi abandonar as
drogas.
Não
fez tratamento para conseguir se livrar do vício?
Para me recuperar e voltar ao normal, foram necessários cerca
de dez dias. Tomava banho de ofurô várias vezes ao dia, para
eliminar a droga por meio do suor. Ficava com a garganta seca e tomava
3 litros de água por dia. Como sofria com a síndrome de
abstinência, ficava com o corpo mole. Também tinha muita
fome, cheguei a fazer cinco refeições por dia. Me curei
sozinha, sem procurar tratamento em clínicas.
Como está
sendo a vida de mãe?
Como sou mãe solteira, também preciso cumprir o papel
de pai. Preciso trabalhar bastante para criar minha filha. Estou tentando
criá-la sozinha na medida do possível, mas, quando tenho
entrevistas, eu a deixo com minha irmã mais velha. Quando volto
para casa, janto com minha filha, tomo banho e procuro fazê-la dormir
cedo. Depois disso, já tarde da noite até de madrugada,
escrevo matérias.
O que a
afastou do mundo da Yakuza?
Não resolvi abandonar o mundo da delinqüência após
me tornar uma adulta, isso ocorreu naturalmente. O motivo que me levou
a isso foram os meus ex-namorados. Aquele ex-yakuza e o próximo
que namorei eram ciumentos, eu era espancada diariamente. Mas sempre depois
que me batiam eles me pediam desculpas chorando. Todas as vezes acabava
reconsiderando, achando mesmo que estavam arrependidos e que isso não
ocorreria mais, mas a violência foi piorando. Até que decidi
parar com tudo isso.
O que pensa
em fazer do futuro? Outros livros?
Futuramente, pretendo continuar a atividade de escritora honestamente
e morar em um ambiente tranqüilo com minha filha. A próxima
obra seria uma divertida história sobre a diferença dos
valores entre a minha vida do mundo da Yakuza, e a do pai de minha filha,
uma pessoa séria, que tem uma vida exatamente oposta à minha.
Seria uma história desde a gravidez até o nascimento de
minha filha.
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