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Caderno Especial

Knit Cafe
Conheça os clubes que reúnem homens
e mulheres para comer e fazer tricô no Japão

(Texto: Silvia Kikuchi / ipcdigital.com | Fotos: Reprodução e Divulgação)

Embora seja uma novidade até mesmo para os próprios japoneses, os knit cafes tornam-se cada vez mais comuns no Japão. São grupos de pessoas que se reúnem para tricotar e comer. Pode ser em um bar, restaurante ou em salões próprios. O importante é que quem participa vai com a intenção de passar momentos agradáveis na companhia dos outros, além de aprimorar sua própria técnica e ensinar os iniciantes.

Para um país com tantas coisas novas surgindo no dia-a-dia, até que um knit cafe não é lá grande novidade.

Não seria, se não fosse o fato de que os homens também participam deles. “Comecei a fazer tricô em janeiro de 2006 e já fiz várias blusas de lã para meus netos”, disse o aposentado Yasuhiro Naito, ao mostrar um suéter e um cardigã com bordados de mascotes.

Naito, que foi designer gráfico durante 30 anos na editora Benesse Corporation, afirma que sempre gostou de blusas de lã. Quando conseguiu mais tempo livre, procurou o knit cafe para aprender sobre a arte. “Incrível, cheguei aqui sem saber nada e me ensinaram tudo de graça.”

No knit cafe em Ichigaya, organizado por funcionários da editora Vogue, os encontros são realizados uma vez por mês. Em média, cerca de 30 pessoas reúnem-se no salão anexo do aconchegante restaurante italiano Buono, dentro do prédio da Vogue.

“As pessoas vêm para cá para relaxar do estresse do dia-a-dia”, disse Kumiko Aoki, coordenadora do grupo e editora da Nihon Vogue-sha. Segundo ela, os knit cafes são comuns em países da Europa e da América do Norte. Uma das explicações para o sucesso no Japão pode estar ligado ao fato de que a arte do tricô envolve movimentar os dedos com destreza, uma peculiaridade dos japoneses. “Está comprovado cientificamente que mexer os dedos é um bom remédio para manter o cérebro jovem”, disse Kumiko.

 

Em japonês...

Crochê
Kagibari-ami


Tricô
Boobari-ami

No Japão o tricô e o crochê são chamados de Amimono

 
Uma vida para o tricô

Em entrevista exclusiva ao International Press, o estilista de tricô Mitsuharu Hirose, afirma que, embora o número de knit cafes seja pouco, eles começam a fixar-se cada vez mais entre os japoneses. “Funcionam como um instrumento de comunicação, em que não há barreiras de idiomas, cria-se amizades e um ajuda o outro.”

International Press: Os knit cafes são populares no Japão, ou tem gente que nunca ouviu falar deles?
Mitsuharu Hirose:
Em questão de números, ainda são poucos. Mesmo, quando faço uma referência ao termo “knit café” nos eventos que compareço, ainda encontro pessoas que nunca ouviram falar. Para muitos, ainda é novidade o fato de formar um grupo para tricotar e, ao mesmo tempo, comer e beber. Mas os knit cafes significam muito mais do que isso, são ferramentas de comunicação e fonte de amizades.

IP: Constatei a presença de pessoas de todas as faixas etárias, principalmente jovens...
Hirose:
Fazer tricô é um ato extremamente fácil. Veja em quantas coisas pode se transformar uma simples linha. É essa simplicidade que a torna tão atraente. Os jovens não são diferentes das pessoas de outras idades. Cada um sabe que sua peça será única e é uma forma de expressão individual.

IP: Como explicar esse boom?
Hirose:
Há cerca de 40 anos, o Japão era um país pobre. Não havia lojas de conveniência e, se você quisesse um casaco, tinha que pedir para alguém fazer. Mas, aos poucos, começou a ficar mais fácil adquirir esses produtos, que, de tão comuns, vão para o lixo, assim que é comprado um novo. Em uma nova era, totalmente mecanizada, a nova geração sente falta de produtos feitos pelas mãos de alguém. Quem fica indiferente quando recebe de presente uma peça artesanal?

IP: Os knit cafes existem pelo Japão todo?
Hirose:
Sim, desde Hokkaido às cidades mais ao sul. Muitos restaurantes e bares descobriram que, ao inaugurar um knit cafe, a clientela aumenta e torna-se fiel.

IP: Tem idéia da quantidade de pessoas que fazem tricô no Japão?
Hirose:
São muitos, na casa dos milhões. Mas a população que realmente domina a arte é estimada em 1 milhão. Só na Associação Japonesa para a Cultura do Artesanato (NAC), contamos com 25 mil associados.

IP: Desses, quantos são homens?
Hirose:
Aqueles que se registram e freqüentam as aulas não passam de cem no caso da NAC, mas, com certeza, muitos outros tricotam e não estão nessa contagem. Também não há como contabilizar os jovens, mas, desde que começamos a divulgar o tricô mais simples, com os dedos, sem a agulha, aumentou o número.

IP: O tricô não é coisa de mulher?
Hirose:
Os profissionais de tecelagem, tinturaria e quimono são homens, por tradição. O tricô é uma arte que foi trazida de fora (do Japão), já com uma imagem de que era voltado às mulheres. Durante a guerra, as peças de tricô eram feitas e vendidas pelas mulheres como uma forma de subsistência, o que enraizou mais ainda a idéia de que a arte era voltada a elas...

IP: Qual é a característica do tricô japonês?
Hirose:
Nos países onde o tricô é mais tradicional, existem vários estilos que caracterizam uma região, cultura ou povo. No Japão, como a arte ainda é nova, não existe isso, mas o tricô procura valorizar o “fashion”. Nos países frios, as blusas de lã utilizam basicamente o fio de lã e as agulhas, mas aqui é diferente. Uma mesma peça pode ter pontos de tricô e crochê, linhas leves, cores e designs mais estilizados.

NA VIDA PESSOAL...

IP: Como nasceu o interesse pelo tricô?
Hirose:
Quando era criança, eu ajudava minha avó a enrolar a linha, desfiar enquanto ela ficava tricotando... às vezes ela me ensinava alguns pontos. Certa vez, no chuugakkoo, ocorreu-me a idéia de fazer um cachecol. Depois, fiz um cardigã e dei de presente para minha irmã mais nova. Por onde ela ia com a blusa, as pessoas elogiavam. Acho que isso me incentivou muito.

IP: Entre o passado e o presente, o tricô continua tendo o mesmo valor?
Hirose:
Uma coisa mudou: agora o artesanato virou profissão para mim. Já não posso fazer apenas roupas que eu mesmo gostaria de usar. Antes de criar uma peça, preciso avaliar se ela é atraente e fácil de fazer. Mas uma coisa nunca mudou nesses anos todos: minha paixão por essa arte.

IP: Como você explica seu sucesso?
Hirose:
É o resultado de um trabalho voltado a preservar a cultura do artesanato. Não dá para ficar esperando que tudo caia do céu, você tem que correr atrás. Por isso foi criada a Associação Japonesa para a Cultura do Artesanato (NAC), para transmitir a arte corretamente. Há 13 anos, comecei a participar dos programas da NHK (emissora pública de televisão) de artesanato. Na época, o fato foi recebido com surpresa pelos japoneses, acostumados com personagens mulheres nessa área. Mas nunca pensei em desistir por causa das críticas. Desde criança escuto “mas você é homem...”. Claro que, no começo, encontrei dificuldades, pois as pessoas nem sequer me davam atenção pelo fato de ser homem. Mas o esforço foi recompensado.

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