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Caderno Especial

O luxo que nos une
Há enormes diferenças entre os mercados de luxo brasileiro e japonês – esse setor que movimenta rios de dinheiro
Fotos: Ricardo Koike/NB
Fotos: Arquivo NB
Consumidores pela Oscar Freire: para algumas das grandes marcas de luxo, o Brasil representa o segundo maior mercado da América Latina
Consumidora percorre uma das ruas de Omotesando: a mulher japonesa está bem à frente da nikkei no consumo de perfumes e cosméticos

(Texto: Cáren Nakashima*)

O que constitui o mercado de luxo? Não apenas carrões ou empreendimentos imobiliários de altíssimo padrão; o luxo está representado em “pequenas coisas”, tangíveis e desejadas por pessoas no mundo todo. Uma bolsa, um perfume ou uma peça de roupa de determinadas marcas são sinônimos de tradição, status e, claro, alta qualidade. Comercializados por um alto preço, o mimo vem envolto numa atmosfera única de glamour e poder. E brasileiros e japoneses estão atrás dessa sensação de se sentir especial e único (ou um dos poucos).

Os grandes símbolos dessa parcela da população que consome tais produtos são os bairros nobres das metrópoles São Paulo e Tóquio: os Jardins, com a sua Rua Oscar Freire, e Omotesando, com seu imponente Omotesando Hills. Em ambos os destinos, o que se encontra é um conglomerado de marcas internacionais de prestígio (e que fabricam os artigos que rapidamente se tornam objetos de desejo) e consumidores ávidos pelas novidades e pelo luxo. Mas, se a paixão por tais artigos une, o que separa o japonês de Omotesando do brasileiro da Oscar Freire? “Muitos fatores”, conta o consultor Carlos Ferreirinha, especialista em mercados de luxo. “A relação de identificação com os produtos em cada país é muito diferente. Assim como os símbolos da cultura. No Japão, presentes luxuosos são mais usuais do que no Brasil e o enxoval, por exemplo, também tem um peso diferente nos dois países”, enumera.

Para Ferreirinha, os japoneses têm uma relação muito mais forte com os produtos de luxo. Quem concorda com ele é Evelyse Britto, diretora brasileira da divisão de perfumes e cosméticos do grupo LVMH, detentor de marcas como Louis Vuitton, Dior, Kenzo e Givenchy. “A boutique Dior em Omotesando é a primeira fora da França”, conta. Para determinadas marcas estreladas, o Japão é o mercado mais importante em faturamento. “Lá, a força do consumo é extraordinária, assim como a do turismo. Isso prova que Omotesando é mais rentável para as grifes do que a Rua Oscar Freire”, explica Ferreirinha. O que não significa que o Brasil não seja um mercado representativo. “Para algumas marcas do grupo LVMH, o Brasil é o segundo melhor mercado do ranking da América Latina”, conta Evelyse. E, segundo Ferreirinha, os brasileiros são mais afoitos e expansivos no consumo, mais informais, o que gera uma compra contemporânea.

Outro fator que prova a superioridade do mercado de luxo japonês sobre o brasileiro é a quantidade de marcas reconhecidas internacionalmente instaladas nos dois núcleos. Em comum, há Versace, Calvin Klein, Louis Vuitton, Armani, Ralph Lauren, entre outros. Mas muitas marcas ainda não aportaram por aqui, exceto em lojas multimarcas selecionadas, enquanto já reinam absolutas há tempos no mercado do arquipélago. A queridinha gigante dos sapatos Jimi Choo tem uma bela loja em Omotesando Hills, assim como a joalheria tradicional Harry Winston. Ambas as marcas não têm boutiques brasileiras, embora sejam conhecidas e desejadas.

Que beleza de mercado!

Os cosméticos e os perfumes são alguns dos símbolos-mor dessa cultura do luxo. Evelyse Britto explica que a moda faz a imagem da marca e traz o sonho do consumo para o público, mas o que realmente vende são os artigos de beleza das marcas. A maison Dior, por exemplo, responsável por desfiles magnânimos nas semanas de moda da Europa faturou, ano passado, aproximadamente 1,3 bilhão de euros com seus cosméticos e perfumes, enquanto as roupas abocanharam cerca de 700 milhões. Ou seja, quase o dobro.

Nesse nicho, a briga entre a brasileira e a japonesa também tem resultado favorável para o Japão. “A brasileira está muito atrás da oriental na relação com perfumes e cosméticos”, conta Evelyse. Na Ásia, a mulher consome cerca de oito cremes simultaneamente. Tanto é que a Dior fatura, no Japão, cerca de dez vezes mais que no Brasil. Depois da França, o melhor mercado consumidor de cosméticos de luxo é do Japão. Lá, 80% do que se compra é cosmético e 20% são perfumes. A brasileira prefere os aromas e 70% de suas compras são representadas pelos frascos de vidro cheios de design e ingredientes nobres; e para os cosméticos e a maquiagem ficam os 30%.

As nikkeis podem até não gastar tanto com beleza quanto as japonesas, mas são um público importantíssimo para marcas de luxo aqui no Brasil. “Um dos melhores pontos-de-venda da marca Dior é o do bairro da Liberdade, que não tem todo o glamour da marca, mas tem fácil acesso do consumidor em potencial, que sabe reconhecer o luxo do produto”, justifica Evelyse. Outras supermarcas como Lancôme e Shiseido também são comercializadas por ali, onde o Japão e o Brasil se fundem, seja pelo luxo ou simplesmente pela cultura. Independentemente de Omotesando ou Oscar Freire.

(*Especial para o Zashi)

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