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(Texto: Cáren
Nakashima*)
O que constitui
o mercado de luxo? Não apenas carrões ou empreendimentos
imobiliários de altíssimo padrão; o luxo está
representado em pequenas coisas, tangíveis e desejadas
por pessoas no mundo todo. Uma bolsa, um perfume ou uma peça de
roupa de determinadas marcas são sinônimos de tradição,
status e, claro, alta qualidade. Comercializados por um alto preço,
o mimo vem envolto numa atmosfera única de glamour e poder. E brasileiros
e japoneses estão atrás dessa sensação de
se sentir especial e único (ou um dos poucos).
Os grandes
símbolos dessa parcela da população que consome tais
produtos são os bairros nobres das metrópoles São
Paulo e Tóquio: os Jardins, com a sua Rua Oscar Freire, e Omotesando,
com seu imponente Omotesando Hills. Em ambos os destinos, o que se encontra
é um conglomerado de marcas internacionais de prestígio
(e que fabricam os artigos que rapidamente se tornam objetos de desejo)
e consumidores ávidos pelas novidades e pelo luxo. Mas, se a paixão
por tais artigos une, o que separa o japonês de Omotesando do brasileiro
da Oscar Freire? Muitos fatores, conta o consultor Carlos
Ferreirinha, especialista em mercados de luxo. A relação
de identificação com os produtos em cada país é
muito diferente. Assim como os símbolos da cultura. No Japão,
presentes luxuosos são mais usuais do que no Brasil e o enxoval,
por exemplo, também tem um peso diferente nos dois países,
enumera.
Para Ferreirinha,
os japoneses têm uma relação muito mais forte com
os produtos de luxo. Quem concorda com ele é Evelyse Britto, diretora
brasileira da divisão de perfumes e cosméticos do grupo
LVMH, detentor de marcas como Louis Vuitton, Dior, Kenzo e Givenchy. A
boutique Dior em Omotesando é a primeira fora da França,
conta. Para determinadas marcas estreladas, o Japão é o
mercado mais importante em faturamento. Lá, a força
do consumo é extraordinária, assim como a do turismo. Isso
prova que Omotesando é mais rentável para as grifes do que
a Rua Oscar Freire, explica Ferreirinha. O que não significa
que o Brasil não seja um mercado representativo. Para algumas
marcas do grupo LVMH, o Brasil é o segundo melhor mercado do ranking
da América Latina, conta Evelyse. E, segundo Ferreirinha,
os brasileiros são mais afoitos e expansivos no consumo, mais informais,
o que gera uma compra contemporânea.
Outro fator
que prova a superioridade do mercado de luxo japonês sobre o brasileiro
é a quantidade de marcas reconhecidas internacionalmente instaladas
nos dois núcleos. Em comum, há Versace, Calvin Klein, Louis
Vuitton, Armani, Ralph Lauren, entre outros. Mas muitas marcas ainda não
aportaram por aqui, exceto em lojas multimarcas selecionadas, enquanto
já reinam absolutas há tempos no mercado do arquipélago.
A queridinha gigante dos sapatos Jimi Choo tem uma bela loja em Omotesando
Hills, assim como a joalheria tradicional Harry Winston. Ambas as marcas
não têm boutiques brasileiras, embora sejam conhecidas e
desejadas.
Que
beleza de mercado!
Os cosméticos
e os perfumes são alguns dos símbolos-mor dessa cultura
do luxo. Evelyse Britto explica que a moda faz a imagem da marca e traz
o sonho do consumo para o público, mas o que realmente vende são
os artigos de beleza das marcas. A maison Dior, por exemplo, responsável
por desfiles magnânimos nas semanas de moda da Europa faturou, ano
passado, aproximadamente 1,3 bilhão de euros com seus cosméticos
e perfumes, enquanto as roupas abocanharam cerca de 700 milhões.
Ou seja, quase o dobro.
Nesse nicho,
a briga entre a brasileira e a japonesa também tem resultado favorável
para o Japão. A brasileira está muito atrás
da oriental na relação com perfumes e cosméticos,
conta Evelyse. Na Ásia, a mulher consome cerca de oito cremes simultaneamente.
Tanto é que a Dior fatura, no Japão, cerca de dez vezes
mais que no Brasil. Depois da França, o melhor mercado consumidor
de cosméticos de luxo é do Japão. Lá, 80%
do que se compra é cosmético e 20% são perfumes.
A brasileira prefere os aromas e 70% de suas compras são representadas
pelos frascos de vidro cheios de design e ingredientes nobres; e para
os cosméticos e a maquiagem ficam os 30%.
As nikkeis
podem até não gastar tanto com beleza quanto as japonesas,
mas são um público importantíssimo para marcas de
luxo aqui no Brasil. Um dos melhores pontos-de-venda da marca Dior
é o do bairro da Liberdade, que não tem todo o glamour da
marca, mas tem fácil acesso do consumidor em potencial, que sabe
reconhecer o luxo do produto, justifica Evelyse. Outras supermarcas
como Lancôme e Shiseido também são comercializadas
por ali, onde o Japão e o Brasil se fundem, seja pelo luxo ou simplesmente
pela cultura. Independentemente de Omotesando ou Oscar Freire.
(*Especial para o Zashi)
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