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Caderno Especial

E o kabuki invadiu Paris
Atores consagrados contaram – em francês – a história da tradicional arte japonesa e das peças encenadas
Foto: Sébastien Mathé

(Texto: Erika Kobayashi* | Fotos: Reuters)

Dois meses antes de a família Ichikawa se apresentar no Opéra-Garnier, em Paris, os ingressos disponíveis pela internet já estavam esgotados. Quem quis ver as apresentações das peças Kanjinchô e Momijigari, ambas do século XIX, encenadas pela tradicional linhagem Ichikawa, teve que enfrentar uma fila de quatro horas para garantir seu lugar em uma das cinco apresentações que aconteceram no fim de março.

Grande parte do público era composta por japoneses que moram na cidade. Eles acompanharam com entusiasmo as três horas de espetáculo. Uma viagem no tempo e no espaço. Na entrada do teatro, algumas mulheres exibiam seus quimonos (afinal, era um evento especial) e posavam para fotos. O público francês surpreendeu-se com a energia no palco – canto, dança, interpretação e um Japão tradicional, que, com muito bom humor, típico do Kabuki, resgatou em suas histórias épicas valores como honra e compaixão.

Duas tradições que se encontram…

Foto: Sébastien Mathé

Tanto o Kabuki como o balé europeu nasceram no início do século XVII e, para o ator Danjûro XII, 61, diretor artístico da Companhia Shochiku, isso mostra uma “misteriosa relação” entre os dois. A família Ichikawa encarou as apresentações no Opéra-Garnier como um grande desafio e reconhecimento de um trabalho de mais de três séculos de uma família que consagrou estilo no Japão. A emoção era evidente no pequeno entreato dirigido ao público, que teve duração de 20 minutos. As falas dos atores, cantadas no estilo Kabuki, desta vez, foram em francês. Além de contarem a história da tradicional arte japonesa e das peças encenadas, expuseram sua profunda gratidão por estarem nos palcos de Paris.

…e se renovam

O grande destaque foi, sem dúvida, o ator Ichikawa Ebizô XI, que protagonizou os dois espetáculos apresentados. Em, Kanjinchô, ele interpreta Musashibo Benkei, chefe da escolta do daimyô Yoshitsune. Depois, em Momijigari, ele aparece, no papel de onnagata (atores homens encenando papéis femininos) como a Princesa Sarashina, em que exibe um belíssimo número de dança, e também como o Demônio do Monte Togakushi. Ebizo tem apenas 29 anos e representa um vento novo na nova geração de atores de Kabuki. Conhecido e venerado pelo público adolescente feminino, ele é considerado o Brad Bitt do Kabuki. Além de ator de teatro, ele faz aparições em comerciais e séries de televisão (em 2003, ele interpretou Musashi numa série exibida pela NHK). Para os jovens, o Kabuki pode estar fora de moda. Mas Ebizô não.

(*De Paris, especialmente para o Zashi)

 
Características do Kabuki

O teatro Kabuki é representado apenas por homens, inclusive os papéis femininos. “A questão não é imitar a mulher, mas o ideal de feminilidade”, argumenta Christine Greiner, coordenadora do Centro de Estudos Orientais da PUC de São Paulo. “Ka” significa canto; “bu”, dança; e “ki”, representação. O Kabuki é tido como referência no teatro japonês e suas montagens são acompanhadas musicalmente por vários instrumentos típicos. Marcado pelo exagero e pelos movimentos predeterminados, outra característica do Kabuki é o palco giratório, o mawari butai, que favorece a agilidade na troca de cenas.

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